Messi chora copiosamente depois da vitória sobre o Egito - Foto: IMAGO

O sol à flor da pele albiceleste

'The Big Picture - o Mundial que não se vê' é o espaço de crónica diário durante o Campeonato do Mundo de Luís Mateus, editor-executivo de A BOLA

O futebol é jogado pelos argentinos exatamente da mesma forma que o comunicam. Com paixão. Arrebatadora, de cair para o lado. Cada anúncio é um poema. Obra de arte sem igual. Ainda assim tão sua, nascida no 'potrero', que nunca terá lugar no Louvre. A Mão de Deus é punho apertado a esmagar o estômago dos que lhes roubaram as Malvinas. O Golo do Século é a mais bela estrofe alguma vez cantada por um narrador que foi apenas argentino por um dia. Messi juntou, no Qatar, o seu povo à vénia planetária que nunca reclamou. Por, afinal, também saber dançar sem falhas ao ritmo de Gardel.

O futebol é tudo de Buenos Aires às Pampas, sobretudo enquanto a retoma não chegar à mesa de refeições da Villa Miseria. Mesmo que já não haja Maradonas e Riquelmes, Messi nunca tenha sido visto por aí e o jogo seja muitas vezes feio e quezilento, há sempre uma festa num estádio repleto. De papelinhos, fitas, cânticos sem parar. Com excessos tantas vezes. O argentino vive no limiar desse excesso, por falta de outros.

Há um limite para a emoção que se consegue comunicar. Pelo menos por palavras. Aimar, há quatro anos, quase colapsou no banco no jogo com o México; Scaloni ontem não conseguiu olhar o jornalista nos olhos e falar, e Messi chorou copiosamente depois do triunfo. Era demais. Se a 'Pulga' só se sentiu verdadeiramente argentino com a primeira Copa América, que depois abriu caminho ao Mundial, hoje é o sol na bandeira da Albiceleste. E depois da reviravolta diante do Egito, com golo e assistência da sua autoria, na mais que provável última dança, estava inconsolável.

O trabalho de Scaloni é tremendo! Primeiro, fez com que a equipa absorvesse Messi, que aceitou a distribuição de responsabilidades, ao confiar nos colegas, e esperar o seu momento para aparecer no plano. E todos, claro, confiam nele. É uma equipa. Pode a Argentina não ser bicampeã, até porque talvez não tenha os argumentos de outros, mas acabará de bem com o seu país. Abraçado por todos, antes de ser atirado ao ar, como herói do povo.

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