Messi durante o jogo com Cabo Verde - Foto: IMAGO

E quem é mesmo Messi na fila do pão?

'The Big Picture - o Mundial que não se vê' é o espaço de crónica diário durante o Campeonato do Mundo de Luís Mateus, editor-executivo de A BOLA

Num Mundial em que os mais fortes entre os mais fracos deixaram de apenas tentar resistir para escolherem o sítio e a forma como querem resistir — se o talento ainda afasta as grandes potências dos demais, tem sido a evolução tática a encurtar distâncias —, foi o sentimento de oportunidade de uma vida que elevou Cabo Verde de estreante a grande figura, de um ponto de vista sobretudo romântico. Quem não sofreu nos momentos mais difíceis e festejou nos mais alegres com a equipa de Bubista nestes quatro jogos?

Se o Congo bloqueou Portugal e muitas chatices trouxe a Inglaterra, e se o Paraguai acreditou sempre e eliminou mesmo a Alemanha, também os cabo-verdianos tornaram o embate muito desconfortável para a Argentina. Todos pressionaram, todos bloquearam o corredor central, apresentaram linhas juntas e levaram a batalha o mais possível para os flancos. E Cabo Verde juntou a tudo isto um sentimento imbatível de 'é agora ou nunca', que acrescentou uma confiança tremenda e resultou em alguns dos melhores golos do torneio. Aquele tiro de Sidny ainda veio misturado com bílis, arrancado que foi do fundo do estômago. A testar todas as lógicas e limites.

Os Tubarões Azuis tornaram-se Tubarões Brancos. Foram sólidos na estratégia, num contexto fértil para a superação: a estreia, atletas ainda sem clube, outros perto do final da carreira, seis nascidos em Roterdão e com escola neerlandesa na formação, gente com inúmeras experiências e um pequeno país a levar passos de dança e alegria para as ruas, a milhares de quilómetros de distância ou ali mesmo, carregados de orgulho. A experiência de uma vida levou à oportunidade da carreira. Fez mesmo com que os cabo-verdianos acreditassem, como ouvi durante o jogo: «Quem é mesmo Messi na fila do pão?»

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