O fantoche de Trump
O L’Équipe não foi nada meigo, na capa desta quarta-feira, com Gianni Infantino, depois da recusa dos Estados Unidos em deixar entrar no seu território o árbitro somali Omar Artan, nomeado para apitar no Campeonato do Mundo.
A dureza da crítica é tremenda e não digo que não seja imerecida, porém o presidente da FIFA é muito mais do que isso, muito mais do que um fantoche. O que não quer dizer que tal seja bom. Não só é ele próprio que se põe a jeito, se aconchega, seduz e ajusta à mão do líder norte-americano, com o forjado e ignóbil prémio Nobel da Paz entregue entre outras regalias, como depois rapidamente ganha pele, osso e carne verdadeira quando assume o legado do organismo em toda a sua extensão e parte para a sedução de novo autocrata.
Esse é um legado de olhos fechados à perseguição política, à violência, ao crime, aos direitos dos trabalhadores e à escravidão, aos simples direitos e valores humanos, em cima dos quais os riquíssimos donos do futebol, a partir de certa altura, começaram a construir um império com regras próprias, sempre faminto para engordar os cofres, aumentando o número de equipas, os patrocínios, os bilhetes ou proibindo garrafas de água de passar os torniquetes, a fim de vender as suas dentro dos estádios.
A escolha dos Estados Unidos, com México e Canadá, fez tanto sentido como a do Qatar ou da Argentina em 1978. A FIFA não quer e nunca quis saber. Só quer saber de si própria. Não da inclusão, da política, dos jogadores ou dos adeptos. Os que realmente querem saber do jogo há muito que não têm poder. Nem conseguem influenciar, quanto mais decidir.