Rodrigo Magalhães: «Fiquei emocionado com o carinho no adeus ao Benfica»
— Depois de um ano na Arábia Saudita, qual foi a primeira coisa que fez quando chegou a Portugal?
— Uma surpresa à minha família. Tinham a ideia de que iria chegar um ou dois dias depois e antecipei a viagem. É sempre um momento emocional extremo depois de algum tempo afastados.
— Nem tiveram tempo de preparar o prato favorito.
— Não, não. Foi mesmo uma surpresa.
— Imagino que foi da família que sentiu mais saudade.
— Honestamente, sim. Não é fácil estarmos afastados da família. Tinha um conceito de emigração bastante distinto. Sou oriundo de uma aldeia pequena, Moçâmedes, em Vouzela, no distrito de Viseu, e lembro-me dos meus avós e dos meus bisavós terem um pequeno comércio com uma cabine telefónica. A malta que estava emigrada, deslocava-se à lojinha ao fim de semana para receber notícias. Uma coisa é ouvirmos as suas experiências, outra coisa é sentirmos na pele.
— Como é que era o seu dia-a-dia?
— Não tinha um padrão, até porque construímos uma megaestrutura do zero. Um dia típico passava por acordar, tomar o pequeno almoço… Tive de apurar os meus dotes culinários.
— O que é que faz agora bem que não fazia?
— Ovos cozidos, arroz, massa, grelho carne, peixe, sobretudo, salmão. Desenvolvi uma sobremesa à base de banana. No início havia algumas dúvidas relacionadas com a comida. Mas o peixe e a carne são fantásticos, e há restaurantes de comida europeia. Depois do pequeno almoço, trabalhávamos nos escritórios, almoçávamos, outras vezes nem isso, porque entrávamos nos horários dos treinos. Depois, regressava a casa, cozinhava ou rentabilizava o almoço, caso o tivesse feito. Muitas vezes jantávamos juntos. A esmagadora maioria dos elementos — portugueses e alguns estrangeiros — vivia num condomínio. Na Árabia Saudita, pela dimensão do país, as nossas deslocações englobavam voos de avião com escala, portanto a densidade competitiva tem outro impacto.
— Vive em Tabuk. Como é que é essa cidade e a sociedade saudita? O clube carrega o nome de Neom e de um projeto megalómano do reino. Chegou a visitar o projeto The Line?
— A cidade não é muito grande. É pequena quando comparada a Riade. Mas em franca expansão e desenvolvimento. A adaptação foi fácil porque vivíamos quase numa microcomunidade. É um clube acarinhado. Há dois anos estava na II Divisão, subimos à I e [na última época] alcançámos o objetivo de ficar nos dez primeiros. No que diz respeito ao The Line, é um projeto de ambição extrema que se encontra numa fase de reestruturação. Há a perspetiva até de transformá-lo num megacentro de inteligência artificial. Cheguei a visitá-lo. Havia uma altura que a Arábia Saudita consumia uma quantidade absurda de todo o aço produzido no mundo.
— Qual é o efeito da guerra na região?
— Na cidade até há uma base militar muito próxima. Inicialmente houve preocupação. Mas nada sentimos. Acompánhamos as notícias, mas nunca me senti condicionado ou a segurança afetada, os campeonatos não pararam. É verdade que criámos um plano de emergência, em conjunto também com a equipa A, na qual trabalham muitos europeus e muitos portugueses — criámos rotas terrestres e marítimas, até aéreas, para nos deslocarmos para uma capital europeia, caso o conflito escalasse.
— O que foi fazer à Arábia Saudita? Não foi pouco, porque começou um projeto do zero?
— Vou tentar resumir, não é fácil, temos sempre de falar no plural. Sou o rosto, mas não teríamos sucesso sem todas as pessoas que estão envolvidas no projeto.
— Pode considerar-se um bocadinho mais do que isso.
— Não considero, honestamente. Já quando estava no Benfica dizia que a força motriz das organizações são as pessoas. Obviamente, há um líder, uma visão, uma missão, valores, estratégia, equipas, objetivos. Se tivesse de resumir numa frase, foi certamente o projeto mais importante que tive.
— Começa do zero, não é?
— Tínhamos de começar do zero a missão de ser a academia de referência na Arábia Saudita e, quiçá, consoante o desenvolvimento, no Médio Oriente; e, a longo prazo, talvez até a nível mundial. A prioridade foi termos uma estrutura com departamentos da maior importância. Podemos começar pelo scouting. Os jogadores não vão bater à porta do Neom e dizer: ‘Sou bom, quero jogar no Neom’. Não batiam à porta do Benfica, que era considerada a melhor academia do mundo. O nosso departamento de scouting é liderado pelo Roberto Morais. Tivemos de recrutar mais de 130 jogadores. O departamento observou mais de 600 jogos esta época, temos o mapa do talento do país. Depois, olhando para o segundo departamento, recrutámos jogadores que têm de residir connosco. E aí, se calhar, tivemos o nosso primeiro grande desafio. Diziam-nos: ‘Não vais conseguir trazer jogadores de outras zonas. Os pais não vão aceitar, o clube não é conhecido.’ Tivemos de demonstrar o quão diferenciadores iríamos ser no longo prazo do desenvolvimento do jogador. Então, foi criado o nosso departamento social. Temos um piso num hotel, com 40 jogadores residentes. Somos responsáveis pela vertente académica, saúde e parte social. Promovemos atividades lúdicas e outras que possam acrescentar conhecimento, relacionadas com nutrição, prevenção rodoviária e etc. Lá também temos uma problemática: os miúdos de 13/14 anos conduzem, pegam no carro dos pais e vão para os treinos. E é legal. A seguir, temos o Departamento de Análise e Observação, liderado pelo Alen Velic. Depois, um departamento que me deu um gozo — Elite Performance & Health Unit, liderado por Fábio Campos, um indivíduo fantástico também, com uma capacidade de trabalho transcendental, com um conhecimento e uma humildade muito acima da média. Nesse departamento, juntamos Nutrição com Fisiologia. Porquê? Porque nos deparamos com um país de desafios fascinantes. Como é que treinamos durante o Ramadão, durante o qual os jogadores passam muito tempo sem comer? Os cuidados nutricionais são diferentes. O impacto fisiológico no treino é diferenciado. Portanto, esta conjugação da Nutrição com a tipologia do treino, em períodos específicos da época, foi um desafio fascinante.
— Foi o Rodrigo que contratou essas pessoas.
— Sim, sim.
— Dizia-me que consegue olhar para o futebol português e para o contexto da formação e da organização de uma forma completamente diferente.
— Completamente diferente.
— Porquê?
— Deixe-me só terminar a ramificação da academia. Temos ainda o nosso departamento de media, para divulgar interna e externamente o projeto. E um departamento de operações, para tratar das inscrições dos jogadores, das viagens ou do aluguer de campos. Finalmente, temos a parte técnica. Não contratámos um diretor técnico e acumulo funções. Sou Academy Sport Director do Neom Sport Club e diretor técnico. Há um departamento de guarda-redes fantástico, trabalhamos com o Roy Carroll, estrela do Man. United. Temos connosco o Eduardo Cachulo, também um dos coordenadores do departamento, com uma capacidade fantástica. E temos o Carlos Almeida, responsável pelo desenvolvimento individual. Não contando com treinadores, são cerca de 100 elementos.
— Voltando a Portugal.
— Se me disser: ‘Esteve fora, afastou-se do futebol nacional.’ Sinto o contrário. Neste momento, tenho conhecimento totalmente diferente daquilo que é o futebol de formação em Portugal.
— Porquê?
— Desenvolvemos no Benfica uma metodologia, uma máquina, uma megaestrutura considerada como uma das melhores academias do mundo. Quando vivemos nesta bolha, envolvidos nos nossos pensamentos e metodologia, não temos capacidade, tempo ou disponibilidade de nos relacionarmos com o futebol nacional. Com a oportunidade de desenvolver atividade com elementos de todo o país, alguns deles com ligações ao Sporting, por exemplo, outros ao V. Guimarães, percebi o que pensavam do Benfica, que metodologias implementam. O conhecimento que tenho neste momento tem amplitude muito mais alargada.
— Teve sucesso em todas as equipas de formação.
— Os nossos sub-13 e sub-14 foram campeões regionais. Desenvolvemos estratégias para aumentar o volume competitivo, criámos uma liga interna de futsal, criámos a Tabuk Regional League e aumentámos cerca de 400 por cento o volume de prática dos nossos jovens. Depois, os nossos sub-15 subiram de Divisão, os nossos sub-16, sub-17 e sub-18 subiram à Saudi First Division. Fomos campeões da Saudi Second League em todos esses escalões. Criámos uma equipa sub-21 do zero.
— Antes de mais, continua a ser difícil falar do Benfica, foram 20 anos de ligação. Por opção, nunca mais tive contacto com o Benfica.
— Trazendo-o de volta a Portugal, porque decidiu sair do Benfica? Já disse publicamente que não saiu como queria.
— Antes de mais, continua a ser difícil falar do Benfica, foram 20 anos de ligação. Por opção, nunca mais tive contacto com o Benfica. Tive contacto com outros clubes de Portugal.
— Isso deixa-o magoado?
— Honestamente, neste momento não me deixa magoado. Há o seguir em frente de um projeto. Aceitei este projeto, porque tem uma dimensão impactante na Arábia Saudita e poderá ter também nível mundial.
— O que faltou para sair da forma como gostaria?
— Vai-me desculpar, não me vou alongar muito sobre essa temática. No que diz respeito a esta oportunidade, o Rodrigo que sai de Portugal como um diretor técnico, não é o de agora. Não há muitas pessoas em Portugal, ou até no mundo, que têm a oportunidade de criar uma academia de raiz. Foi um desafio estrondoso. Não saí do Benfica na primeira abordagem porque senti que era um momento repentino. Tinha saído Pedro Mil Homens, havia alterações internas, também alteração de treinador. Isso iria prejudicar o presidente Rui Costa e o Benfica. Nunca o iria fazer. Sempre tentei honrar os compromissos e levá-los até ao fim. Na parte final, dá-se a saída do clube, que fez uma festa de despedida. Foi um momento delicado, estavam ali 20 anos de uma história associada a um clube e pensei que poderia ter um desfecho um bocadinho diferente, mas sem ressentimentos.
Senti um impacto e um carinho por parte da massa adepta de que não tinha noção. A forma como fui tratado pelos sócios e adeptos foi fantástica. O apreço dos encarregados de educação foi fabuloso. Fiquei emocionado pelas mensagens que me enviaram
— O que é que quer dizer com um desfecho diferente? Reconhecimento público?
— Ficou patente o respeito que sempre tive perante a instituição, o presidente e toda a estrutura do Benfica. Vou ser muito honesto. Naquele momento, senti um impacto e um carinho por parte da massa adepta de que não tinha noção. A forma como fui tratado pelos sócios e adeptos foi fantástica. O apreço dos encarregados de educação foi fabuloso. Fiquei emocionado pelas mensagens que me enviaram, pelo reconhecimento público. Pela necessidade, por exemplo, que os jogadores campeões do mundo sub-17 tiveram de me ligar nestas renovações mais complexas, de pedir conselhos.
— Esteve com eles no Qatar?
— Desloquei-me ao Qatar pelo Neom para observar a fase de grupos do torneio e os miúdos reconhecerem-me. Houve ali um crash emocional, estiveram comigo dos 6 aos 17 anos. Disseram-me: ‘Se formos à final, o mister tem de vir’. Na meia-final, quando conseguimos derrotar o Brasil, os miúdos mandaram logo mensagens: «Mister, como tínhamos dito, compre o voo.’ Assisti à final e, no fim, estive no hotel com os jogadores, com os pais deles. Este tipo de carinho dos jogadores e dos pais deles, dos treinadores, de todos os elementos da estrutura, e de sócios e adeptos, fez-me pensar de uma forma diferente. Quando cheguei às instalações de A BOLA, deparo-me com um ex-jogador [Ricardo Caeiro] que se levantou e me cumprimentou, e o apreço que ele mostrou por mim e o apreço que eu demonstrei por ele…
— Isso posso testemunhar.
— Isso é fantástico, porque a maior parte deles não vai atingir a sustentabilidade através do futebol. Sentirmos que tivemos influência no desenvolvimento daqueles miúdos é muito mais valioso que um campeonato. O momento de despedida é de solidão. Liguei há pouco ao Pedro Faria, era o treinador de sub-17 do Benfica e vai abraçar novo projeto. Quando falava com o Pedro, treinador mais titulado no Benfica, ou era o treinador mais titulado do Benfica, dizia-lhe que se trata de um momento de solidão e profundo. Passei pelo mesmo. O Pedro é um treinador diferenciado, vai ter muito sucesso. Agora, isto tem um custo elevado. Quanto custa desenvolver um recurso humano com a qualidade do Pedro Faria? Nunca mais fui ao Benfica Campus, nunca mais fui ao Seixal e quando falei com o Pedro foi uma conversa curta, concisa e de encorajamento. Sei o custo emocional desse momento. Queria só deixar claro que saio com a consciência tranquila, dignidade, respeitoso face ao presidente, à instituição e a todos os colaboradores.
— Se me permite alguma liberdade e arriscar uma tirada de humor, para o qual não tenho jeito, se o Rui Veloso é o pai do rock português, pergunto ao pai dos CFT (Centros de Formação e Treino) do Benfica quem são as grandes bandeiras dos CFT.
— Não há um pai, há vários. Tenho de mencionar a importância do presidente Luís Filipe Vieira, por acreditar no projeto quando havia dúvidas. Lembro-me de ele me ligar noite dentro e perguntar o que é que era isto dos CFT, e depois explicar-lhe o projeto. Foi fascinante. António Carraça, num período pré-CFT, teve papel fundamental. Na altura, o Benfica era o parente pobre da formação. O António Carraça tem um papel fundamental no emergir do Benfica. Obviamente, também todos os diretores de academia com quem trabalhei. Pedro Mil-Homens, que tinha bastante experiência na operação de uma academia de topo, como era o caso da do Sporting, Nuno Gomes, Armando Jorge Carneiro e, recentemente, Guilherme Muller.
— Pergunto-lhe sobre jogadores.
— Há aqueles que estão a emergir e a ter muito sucesso pelas equipas e pelas conquistas. João Neves e Gonçalo Ramos ganharam duas vezes a Liga dos Campeões. Tivemos o Ferro no início, temos o António Silva na equipa A, a equipa do Benfica que venceu a Youth League tem um número infindável de jogadores dos CFT. Logo no início, há o Guga [Gonçalo Rodrigues], o Pêpê [Pedro Rodrigues], o Diogo Gonçalves. Os CFT, além de servirem o propósito do Benfica como um projeto de proliferação da marca e atração e desenvolvimento de talento, beneficiam o futebol nacional. Neste momento, tem de haver um CFT 2.0. O talento diferenciado em Portugal é cada vez menor. Isto pode parecer um contrassenso, porque temos gerações com muita qualidade, jogadores fora do comum como Cristiano Ronaldo ou João Félix, mas cada vez emergem com menos cadência.
— Está tudo formatado?
— Há vários fatores. Hoje, os miúdos jogam pouco na rua, os treinadores replicam os modelos do futebol sénior.
— Voltando às bandeiras dos CFT.
— Há muitos que chegaram à equipa A, outros estão a brilhar na montra do futebol europeu.