Duarte Gomes demitiu-se de diretor técnico nacional de arbitragem - Foto: Miguel Nunes
Duarte Gomes demitiu-se de diretor técnico nacional de arbitragem - Foto: Miguel Nunes

Sortear o apito para devolver a confiança

'A bola é redonda. O Verde é futuro' é um espaço de opinião quinzenal da autoria de Pedro Ângelo, CEO da NAV e sócio do Sporting Clube de Portugal

Enquanto andamos entretidos com os jogos deste Campeonato do Mundo, o futebol português voltou a entrar numa daquelas fases negras em que a bola ainda mal começou a rolar na nova temporada e já o ambiente competitivo surge contaminado por suspeitas, comunicados, denúncias, processos de inquérito e interpretações conspirativas. É quase sempre assim entre nós: antes do primeiro apito, do primeiro golo e dos primeiros pontos conquistados dentro de campo, já se procura condicionar o que há de vir com jogadas fora das quatro linhas.

A demissão de Duarte Gomes do cargo de Diretor Técnico Nacional de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol não deve ser tratada como uma mera divergência pessoal ou interna, como uma simples incompatibilidade entre pessoas ou como mais uma convulsão nos corredores da Cidade do Futebol. Quando um responsável técnico da arbitragem abandona funções por alegada quebra de confiança institucional, quando a própria Federação Portuguesa de Futebol entende remeter, parece, para sua própria defesa, factos ao Ministério Público, quando o Conselho de Justiça abre um processo de inquérito para averiguações e quando, paralelamente, se discute se estamos perante uma tentativa de golpe interno para afastar Luciano Gonçalves da presidência do Conselho de Arbitragem, já não estamos no simples plano da espuma dos dias. Podemos, sim, estar perante manobras veladas de condicionamento do início da época desportiva, com potenciais ganhos de causa no plano desportivo.

O futebol português tem demasiada história, muitos traumas e memória acumulada para fingir que uma situação desta natureza não produz efeitos imediatos sobre a confiança dos clubes, dos árbitros, dos jogadores e, sobretudo, dos adeptos.

Rui Santos, no seu estilo frontal e tantas vezes incómodo para o conforto dos poderes instalados, escreveu na passada sexta-feira sobre uma pretensa tentativa de golpe de Estado na arbitragem, com o patrocínio do Benfica, sem que tenha merecido particular atenção ou desenvolvimento por parte de outros órgãos de comunicação social. Na sua coluna de opinião, no semanário Nascer do Sol, Rui Santos sustenta a tese que a denúncia promovida por Duarte Gomes visa uma ascensão do próprio ao lugar de presidente do Conselho de Arbitragem, numa conjuração não assumida com o Benfica, aproveitando o momento de manifesta intolerância e pressão sobre a arbitragem exercida pelo clube da Luz.

Faltará ainda muito por saber de mais um episódio lamentável da novela do futebol português. Estamos somente no início do apuramento dos factos, enquanto decorrem os inquéritos nas instâncias próprias, no foro desportivo e, eventualmente, nos tribunais comuns, caso haja desenvolvimentos e diligências na sequência da denúncia apresentada junto do Ministério Público.

Ainda assim, não se deve ignorar a aparente possibilidade de existência de uma guerra de poder dentro da Federação Portuguesa de Futebol, em plena fase de arranque de uma época desportiva, confirmando aquilo que há muito se suspeita: as arbitragens e os erros dos árbitros não são muitas vezes problemas de rigor técnico ou de competência. Aliás, outro mérito do VAR passa pela confirmação que há erros dificilmente explicáveis, quando se disponibilizam, em tempo real num ambiente confortável e isolado de pressões, a partir dos gabinetes do centro de operações de vídeo, múltiplas imagens e de diferentes ângulos para analisar as incidências dos jogos.

Por alguma razão, tanto se discute em praça pública as nomeações dos árbitros, numa tentativa de ingerência num processo que devia ser dotado de independência, imparcialidade e isenção, vedando por completo o espaço a pressões de bastidores para a designação de árbitros.

O futebol português vive há demasiados anos agrilhoado a esta doença do condicionamento, antes e depois dos jogos, num ciclo perverso em que o infrator sai beneficiado, acabando por colher dividendos competitivos dela. Quem pressiona árbitros, quem publica constantemente comunicados e neles semeia suspeições, quem nos túneis ameaça com a destruição das carreiras dos árbitros, quem transforma cada nomeação numa acusação pública de intenções, não procura apenas protestar com os erros do passado, procura influenciar o sentido das decisões futuras. E quando todo o sistema da arbitragem passa a estar cercado por esta pressão, está criado um ambiente irrespirável por quem tem de decidir a nomeação dos árbitros, segundo critérios técnicos, de justiça e equidade.

É por isso que defendo, sem complexos, o regresso do sorteio dos árbitros nos jogos das ligas profissionais. Mas importa dizê-lo com rigor: não defendo uma lotaria irresponsável do apito, nem a irrazoável ideia de que qualquer árbitro, ou equipa de arbitragem, pode dirigir qualquer jogo, em qualquer contexto, independentemente da sua experiência, classificação, momento de forma ou categoria. Defendo outro modo de proceder: um sorteio condicionado, tecnicamente parametrizado, publicamente auditável e previamente regulado, no qual os jogos seriam previamente categorizados pelo seu grau de dificuldade e criticidade, e os árbitros integrados em potes de elegibilidade, segundo a sua classificação, experiência, desempenho recente, categoria nacional ou insígnia FIFA. O critério técnico não desapareceria, seria colocado no lugar certo, precedente ao sorteio, através da definição objetiva dos potes. O que se afastaria seria a zona mais vulnerável do atual sistema: a escolha final do árbitro, discricionária e publicamente discutível do árbitro em concreto para cada jogo.

É consensual que há jogos de maior exigência e que esses jogos devem ser confiados aos árbitros mais bem preparados para essa circunstância. Também é evidente que nem todos os árbitros têm a mesma experiência, autoridade competitiva ou capacidade para lidar com ambientes de alta pressão. Mas nada disto exige que o processo de designação continue dependente de uma nomeação direta, sempre sujeita à suspeita da discricionariedade, à leitura clubística ou ao sentimento perverso de que quem mais pressiona, mais condiciona ou prevarica, acaba por retirar vantagem dessa conduta. Pelo contrário, um modelo de sorteio condicionado por potes de elegibilidade seria precisamente aquele que melhor aproximaria a arbitragem do princípio do juiz natural. Tal como nos tribunais, com quem os árbitros muitas vezes se comparam, ninguém deve poder escolher o juiz conveniente para a causa conveniente, também no futebol não se deve permitir a perceção de que há árbitros mais convenientes para determinados jogos.

A competência ficaria, assim, garantida pela prévia qualificação dos árbitros, a imparcialidade sairia reforçada pela aleatoriedade dentro de cada pote e a confiança pública seria assegurada pelos critérios objetivos de imunidade a pedidos ou pressões para nomeações diretas de determinados árbitros, por efeito dessa combinação de sorteio condicionado.

Este episódio envolvendo Duarte Gomes, Luciano Gonçalves, o Conselho de Arbitragem, o Conselho de Justiça, no fundo quase toda a estrutura da Federação, tem de ser esclarecido até ao fim, doa a quem doer. Não para alimentar uma fogueira mediática, mas para impedir que a nova época nasça sob um manto de suspeição. Não pode o futebol português continuar nesta bruma em que todos insinuam, poucos provam e quase ninguém confia.

E se queremos que o futuro seja mais transparente e digno, talvez esteja na hora de retirar a nomeação dos árbitros da área técnica de gabinetes sob suspeita e devolver à circunscrição da independência que um sorteio garante.

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