Mundial
Mundial
Dembélé não tem igual porque não quer
Sabemos que, agora, os extremos vão sempre para dentro, à procura do melhor pé, da mesma forma que seu Mané Garrincha e outros do seu tempo saíam invariavelmente pelo lado de fora, o mais junto à cal que podiam. E o pequeno pássaro, um anjo de pernas tortas, até esperava algumas vezes pelo rival. E driblava-o outra vez… pelo mesmo lado.
Sabemos que hoje até lhes podem oferecer o flanco, que não os seduz. É incontornável. Já não são figurantes, mas sim personagens principais. A dada altura, arrancam. Talvez o defesa antecipe o momento, talvez não, todavia, o mais certo é que já vá atrasado, talvez desequilibrado, o que pode abrir, se não houver ajudas, o caminho em definitivo para o 'side spin'. Como se fosse um Rafa Nadal a chegar com aquela direitaça tremenda para o definitivo 'passing shot'.
Há outra verdade mais ou menos adquirida, ainda que de forma empírica: o canhoto tem o pé direito mais cego do que o destro tem o esquerdo. Mal serve para subir ao autocarro, gozam-nos tantas vezes. Contudo, nunca o fizeram com Dembélé. Que nunca foi nada disso. O direito é muito melhor do que a ferramenta profissional de muitos destros e o esquerdo uma arma letal. É ambidestro. No controlo, no drible e na finalização, o que o torna imprevisível, em bola corrida e nos livres e penáltis. Porque Robben era Robben, e o francês gosta de ter todas as opções em aberto.
Depois de as lesões o terem afetado muito tempo durante a época, o 'hat-trick' à Noruega, que distribuiu pelos dois pés, é um excelente sinal de retoma. Ainda que devolvido à direita, empurrando o brilhante Michael Olise para o meio.
É verdade que os vikings não levaram os melhores para a batalha e foram mais negociantes do que conquistadores, ao darem tantos tiros nos pés. Mas é uma França que já vê tudo muito simples e que nem precisa de ter todos 'a top' para se manter na velocidade de cruzeiro. Há uma avalanche a formar-se, pintada de azul.