Mundial
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Saudades na hora do adeus
«Não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram». Fernando Pessoa disse-o em tempos. Não se referia ao futebol certamente. Mas a sapiência tem o dom da adaptabilidade e da adequabilidade.
O adeus de Portugal ao Mundial 2026 deixa saudades. Não por tudo aquilo que os Navegadores souberam ser dentro de campo, mas sim por tudo aquilo que nunca foram e poderiam ter sido. Um coletivo com ideias. Um conjunto com princípios claros e assumidos desde o primeiro dia. Uma equipa sabedora das suas potencialidades sem que isso a tornasse vaidosa. Uma seleção com os pés assentes na terra sem que isso a tornasse temerosa.
Dizer adeus a um campeonato do mundo de seleções nos oitavos de final da competição não é dramático. Nem sequer é o fim do mundo. Se quisermos nos reduzir ao pensamento tacanho de que não temos tradição na prova, então nem sequer há motivos para descontentamento. Foi apenas um mau dia. Ou mais um dia no escritório, como tantos outros…
E ainda que a falta de tradição ao mais alto nível possa ser comprovada pela ausência de resultados em fases finais de Mundiais, a seleção portuguesa de 2026 tem outras responsabilidades. Tem outras armas. Tem outro enquadramento.
Portugal tem uma Cidade do Futebol exemplar ao nível da modernidade das suas infraestruturas. Portugal tem uma Federação Portuguesa de Futebol saudável do ponto de vista financeiro. Portugal tem alguns dos melhores jogadores do mundo da atualidade a competir nos principais campeonatos do mundo de futebol. Nos quais são figuras de proa. Com os quais habituaram-se a competir ao mais alto nível.
Se tudo isto não bastasse, Portugal tem ainda o melhor finalizador da história do futebol mundial. O problema foi não sabermos o que fazer com ele. Colocá-lo a titular ou deixá-lo no banco?
Roberto Martinez nunca teve dúvidas acerca disso. Provavelmente a única certeza dogmática e inquestionável para o ex-selecionador nacional foi o que fazer com Cristiano Ronaldo. No entanto, garantir a titularidade do astro português não foi (nem podia ser) garantia de sucesso.
Faltou saber alimentar CR7. Saber construir uma ideia que deixasse os jogadores confortáveis na fase de construção. Saber criar condições para que os jogadores fossem livres na fase de criação. Saber criar rotinas que promovessem a criatividade na fase de decisão. E que também potenciassem a capacidade finalizadora do capitão português.
Não houve nada disto. Restam as saudades das coisas que nunca foram…