José Miguel Albuquerque, presidente da SAD do Alverca, aborda a gestão que faz durante o mercado de transferências dos jogadores que mais se destacam na equipa

«Não é fácil dizer muitos extremos melhores que Chiquinho em Portugal»

Na segunda parte da entrevista a José Miguel Albuquerque, o presidente da SAD do Alverca detalha o projeto desportivo do clube e explica a saída de Custódio Castro após o final de uma época bem-sucedida

— Já disse que o Alverca não vai voltar a contratar 30 jogadores, mas a realidade do clube, como de muitos outros em Portugal, é a de ser um clube exportador?

— Sim, isso é um modelo de negócio para toda a gente, até para os clubes grandes. O que muda são os números: eles são capazes de comprar jovens a 15 ou 20 milhões de euros e depois tentam revendê-los a 40 ou 50. Eu não posso pagar €15 milhões por um jovem jogador e, portanto, não posso aspirar a vendê-los, para já, a €50 milhões, mas posso pagar um bocadinho menos e vendê-los por €12 milhões, por exemplo. O modelo de negócio passa necessariamente por aí para sermos capazes de competir. É o modelo em que nós acreditamos: jogadores jovens, preparados para jogar na Primeira Divisão, que tenham essa responsabilidade e essa qualidade, mas em que nós identifiquemos talento para, crescendo, possamos transferi-los para outros clubes, sejam eles em Portugal, sejam eles de outras divisões, como já fizemos com o Alex Amorim.

— Olhando para Bastien Meupiyou, Nabil Touaizi ou Chiquinho – como vai gerindo a necessidade de rendimento desportivo com a de vender alguns dos principais ativos?

— É um equilíbrio sensível. Deu aqui três exemplos de jogadores que obviamente se valorizaram bastante este ano e que foram peças importantes para a nossa equipa. Se o Alverca os vender, perde três jogadores que são titulares e que foram jogadores que se destacaram mesmo muito nas suas posições, seja dentro da nossa equipa, seja em termos comparativos com outros jogadores da mesma posição na Liga. Não é fácil, para mim, dizer-me, fora do contexto dos três grandes, um lateral direito melhor do que o Nabil. Não é fácil, até dentro dos plantéis dos três grandes, dizer-me muitos extremos melhores do que o Chiquinho. Não é fácil identificar em Portugal centrais com as qualidades, algumas delas até inatas, do Meupiyou. E, portanto, se nós os perdermos, temos de ser devidamente compensados por isso e sentiremos essas saídas. Mas eu acho que o exemplo do Alex Amorim é espetacular. O Amorim — isto é uma opinião pessoal — foi o melhor jogador do Alverca até ao momento em que saiu. Era mesmo muito importante para nós. Um jogo a seguir a ter saído, o Sabit, que era o médio que jogou mais vezes ao lado do Amorim, teve uma lesão que o afastou até ao final da temporada. Isto em janeiro, um mercado muito pequenino. E ainda assim o Alverca teve a capacidade de reajustar muito rapidamente e trazer o Rhaldney e o Vasco [Moreira] que nos ajudaram muito na segunda volta. E esse exemplo claro de capacidade de resposta, de identificação de jogadores que já estavam na sombra para suprir uma eventual saída, é aquilo que eu vejo acontecer no dia-a-dia e aquilo que me transmite confiança, porque sei que tenho uma estrutura muito capaz de responder quando algum desses jogadores sair, se sair.

—  Este verão já contrataram Marco Essimi (do Dunkerke, Ligue 2) e Lucca Giuntini (do Mirandela, Campeonato de Portugal) – é aqui que o Alverca pode apostar, em mercados mais periféricos, que em Portugal não associamos tanto à Primeira Liga?

— O foco passa por talento jovem, esteja ele onde estiver. Nós procuramos identificá-lo em todo o lado, não nos cingimos a um ou dois mercados só. Obviamente que há mercados, até pela proximidade física, são mais fáceis para acompanharmos. Agora, passará sempre por negócios que sejam atrativos, primeiro de tudo porque há talento e há capacidade para chegar e ajudar, mas também que tenham uma racionalidade económica viável para nós. Nós temos muito presentes as nossas prioridades e, como eu lhe disse, este ano que passou nós fizemos um investimento muito forte nas infraestruturas e tivemos de preferir as infraestruturas em vez de contratar mais dois ou três jogadores porque o caminho passava por profissionalizar o clube, mais do que ter mais um extremo e um avançado. Este ano, já lhe disse, volto a fazer uma aposta muito forte em infraestruturas porque vou mudar dois relvados e isso é um investimento muito significativo dentro daquilo que é o orçamento do clube. E, portanto, tudo o que seja contratações para o clube, elas têm de seguir um critério rigoroso.

— Acha que o Alverca deu um exemplo de como se pode sobreviver na Primeira Liga vindo da Segunda?

— Eu não me quero colocar nessa posição de dar exemplo. Nós fizemos o nosso caminho porque achámos que era assim que devia ser feito. Pode haver outras formas de trabalhar que permitem atingir esses objetivos. Acho que a associação ao Vini, a associação a uma marca como a Nike, aquilo que aconteceu no verão passado com personalidades famosas a vestirem a nossa camisola, também trouxe um hype engraçado. Acho que os jovens repararam nisto, acho que se de alguma forma se associaram a isso, acho que nós tínhamos camisolas muito giras também, tudo ajuda a criar aqui uma envolvência em torno do Alverca que eu gosto de achar que granjeou simpatia ao Alverca. Eu acho que as pessoas se identificaram com aquilo que viram. Agora, não quero fazer disto um exemplo. Foi a nossa forma de estar, os outros não têm de seguir, têm de seguir a sua.

— Não imagino que haja um contacto habitual com Vinícius Júnior, mas como é o contacto com o grupo de investidores da SAD?

— Nós temos um contacto seguramente semanal com a estrutura que está à volta dele. Não temos contacto diário nem semanal com o Vini, nem temos de ter. Estamos sempre muito ligados à estrutura, que é altamente profissional, que trabalha com ele e trabalha connosco e estamos muito contentes por termos a sorte de trabalhar com essa estrutura.

— Há um ano, o que levou a SAD do Alverca em apostar em Custódio, que tinha uma experiência muito curta na Primeira Liga como treinador?

— O Custódio tinha uma forma de jogar que nós acreditávamos que era a forma certa para liderar esta equipa à manutenção no primeiro ano. Porque de alguma forma aquela estrutura de cinco defesas com três centrais e dois laterais, ou dois alas, dava-nos essa segurança, acreditávamos que era a forma mais certa de ir pontuando. Depois, estava habituado a potenciar jovens e isso para nós era importante. Ele conseguiu tudo isso, também é importante dizê-lo. O Custódio e a sua equipa técnica conseguiram pegar num conjunto de jogadores muito talentoso — eu também gosto de exaltar isso. Não há de haver muitos clubes que estivessem a lutar pelos mesmos objetivos que o Alverca, que tivessem um Chiquinho, Marezi, Figueiredo, Amorim, Bastian Meupiyou, Chissumba, Isaac James, Nabil, Lincoln, Rhaldney. Não há de haver muitas equipas que lutassem pela manutenção que tivessem este nível de talento. Um capitão como o Sergi Gómez e um central como o Naves, com toda a experiência que tinham. Montámos um plantel muito bom. Aquela equipa técnica foi capaz de tirar o melhor desse plantel, de quase todos os jogadores. E sabíamos que o Custódio nos podia dar isso e o Custódio também teve a coragem de aceitar o desafio do Alverca, que era um desafio muito difícil. Já o disse publicamente: ninguém partiu tão atrás como o Alverca. Começámos todos com zero pontos, é verdade, mas ninguém tinha os desafios estruturais que o Alverca tinha de tantos jogadores novos, de estar a treinar fora de casa, de ter o estádio em obras quando a época começou. Os jogadores iam chegando... eu não diria a conta-gotas, mas quase diariamente chegava um jogador novo. Foram mais de 30 jogadores em 55 dias. Eu acho que é um desafio inacreditável e ele teve a coragem de assumir esse desafio, ele, e a sua equipa técnica. Nós somos gratos por isso e eu acho que o Custódio também é grato ao Alverca.

— E como explica a separação do Alverca com Custódio?

— Não há muito a explicar. Entendemos seguir caminhos diferentes. O Custódio manifestou essa vontade publicamente. Entendemos seguir caminhos diferentes, não significa que não olhemos todos para trás com a nostalgia boa de quem fez um bom trabalho juntos e de quem viveu uma boa época juntos. Temos formas diferentes de olhar para o futuro e seguiremos caminhos diferentes, é só isso.

— E como foi o processo para nomear Sérgio Ferreira treinador, que foi campeão de juniores com o FC Porto e que também não tem experiência de Primeira Liga?

— Eu não vou confirmar quem é o próximo treinador do Alverca. O que eu posso dizer é que nós não temos medo de apostar em treinadores que não tenham tido experiência de Primeira Divisão como treinadores principais. Não é isso que é decisivo para a escolha de um treinador. Voltamos ao que é decisivo: é decisivo saber trabalhar jogadores jovens, ter essa coragem, saber valorizar jogadores, mostrar um processo... porque os treinadores são todos... as contratações de treinadores são resultado de um conjunto de entrevistas e de um exercício comparativo. Não há de certeza nenhum clube que fale só com um treinador quando contrata. Mas o facto de ter experiência ou não na Primeira Divisão não nos diz nada. Há muitos treinadores com experiência na Primeira Divisão que não seriam interessantes para o Alverca, com certeza podem ser para outros. Há muitos treinadores que nunca estiveram na Primeira Divisão como treinadores principais e a quem nós reconhecemos imenso talento e que estão debaixo do nosso radar. Portanto, não é essa experiência ou não de Primeira como treinador principal que vai ser decisiva para nós.

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