Marrocos festeja triunfo diante dos Países Baixos - Foto: IMAGO

O manifesto de Marrocos

'The Big Picture - o Mundial que não se vê' é o espaço de crónica diário durante o Campeonato do Mundo de Luís Mateus, editor-executivo de A BOLA

A seleção que melhor futebol apresentou até agora esteve, primeiro, a escassos minutos e, depois, a 11 metros de dizer adeus a este Mundial das Américas. Marrocos fez o que quis de uma até aqui muito boa Holanda, que no entanto começou a desconfiar de si própria ainda antes do pontapé de saída — com Ronald Koeman a deixar apenas dois elementos no meio-campo, em inferioridade numérica — e nunca foi capaz de respeitar o seu legado e o seu ADN.

Os 'Leões do Atlas' rugiram bem mais alto, ferozes, e atacaram em alcateia — ou acham que só os lobos o fazem? — numa rede de passes intensos, triangulações e trocas posicionais a intercalar com uma pressão intensa a fazer lembrar… uma 'Laranja Mecânica' de outros tempos e também a Espanha que nesta se inspirou. Marrocos tornou-se, aliás, a segunda seleção a completar 800 passes numa fase final atrás da 'Roja' (801). Um manifesto, uma perfeita declaração de intenções!

Um domínio que se traduziu em algumas oportunidades, mas não em golos, e que abriu as portas a que os neerlandeses passassem para a frente num contra-ataque feliz. Felizmente, desta vez, os deuses do futebol estavam bem acordados e não permitiram tamanha injustiça. Seria, sem dúvida, a maior perda deste Mundial.

À frente do guardião Bono, a sobriedade de Diop contrasta com a locomotiva Hakimi, enquanto Mazraoui é consistência. Bouaddi e El Anynaoui parecem jogar de olhos fechados. Ninguém reparará, contudo, se um deles sair e der lugar a El Mourabet. Brahim Díaz veste-se de pausa e aceleração, fantasia-se de drible e passe. Já Ounahi nunca perde a ligação à corrente. E há El-Khannouss, cada vez mais venenoso, a disponibilidade total de Saibari, e ainda Tabil e Yassine para as sobras. É o distintivo perfume de África, macerado na Europa.

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