Michael Olise - Foto: IMAGO

A tartaruga ninja e o ninja que é lebre

'The Big Picture - o Mundial que não se vê' é o espaço de crónica diário durante o Campeonato do Mundo de Luís Mateus, editor-executivo de A BOLA

Terão sido alguns os franceses que ontem, antes do jogo, por culpa do Senegal, se lembraram de 2002. Nesse torneio, o jogo foi visto como o embate entre duas Franças, a rica, cheia de craques, coroada quatro anos antes campeã do mundo e logo no Europeu seguinte como melhor equipa do continente, e outra mais pobre, uma espécie de França B, com jogadores que atuavam na primeira liga, alguns filhos de emigrantes nascidos no país, talentos menores com uma vontade enorme de autodeterminação. Claro que o contexto não era completamente favorável aos gauleses, já que Zidane se tinha lesionado num jogo de preparação e falhava desde logo aquele primeiro jogo (e depois o seguinte, para estar no último, mas ainda visivelmente limitado), mas ninguém lhes pode negar o mérito.

Aos 30', Papa Bouba Diop, gigante médio defensivo que jogava no Lens, aparecia na área, após jogada pela esquerda de El-Hadji Diouf, e assinava por baixo da palavra escândalo. A equipa B preparava-se para ganhar à principal e chocar o mundo. Pior! Abalados pelo desaire, os Bleus empatariam com o Uruguai (0-0) e perderiam com a Dinamarca (0-2), dizendo adeus ao Mundial da Coreia e do Japão.

Hoje, a realidade é mais ou menos semelhante. Dos 16 utilizados, cinco futebolistas do Senegal — Koulibaly, Niakhaté, Pape Gueye, Ibrahim Mbaye e Habib Diarra — jogaram pelas equipas jovens francesas. Outros aí nasceram e escolheram o país africano em homenagem aos pais. E continuam com aquela fome de mostrar que não são inferiores.

A primeira parte, em New Jersey, deu muito mais Senegal do que França, mas no segundo tempo os Bleus assumiram finalmente o favoritismo e caíram em cima dos rivais. É que não deixa de haver diferenças substanciais entre Kylian Mbappé, um dos melhores do mundo, e Nicolas Jackson, ou entre Ismaila Sarr e Michael Olise. Claro que há um envelhecido Sadio Mané, mas até o nível de argumentos hoje de Doué e Barcola é superior. E lá a França deu o primeiro aviso ao que vem.

A tartaruga ninja, que pode vestir qualquer personalidade, seja Rafael, Leonardo, Donatello ou Michelangelo, apareceu para resolver, fazer história e piscar o olho aos recordes. Contudo, França tem também um ninja que é lebre, pela velocidade de raciocínio e execução. Um enorme Olise.

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