O agora antigo guarda-redes deixou um legado muito grande no futsal, com muitos títulos conquistados no Sporting, no Benfica e na Seleção Nacional

Deixou marca no Sporting, no Benfica e na Seleção: «Orgulho-me da minha carreira»

André Sousa despediu-se das quadras, mas para trás ficou um lastro de títulos nacionais e internacionais. O percurso do futebol ao futsal. Nuno Dias e Jorge Braz, claro, mas também Ricardinho...

Tudo começou no futebol, mas foi no futsal que deu cartas. Uma carreira repleta de um nome que ficará para sempre na história da modalidade. O guarda-redes que ganhou tudo o que havia para ganhar em contexto nacional e internacional abre o coração a A BOLA e não esconde o orgulho por todo o percurso realizado. O futuro está aí à porta, a vida profissional vai levá-lo para outros caminhos, mas o futsal será sempre um amor para todo o sempre.

— A história começa no futebol, ainda em menino, em Coimbra, mas foi no futsal que deu cartas.

—Sim, é verdade, o meu percurso inicia-se como o de muitos miúdos, que com três ou quatro anos querem ir jogar futebol. O meu pai jogava futebol de salão e ia ver muitos jogos dele. O bichinho também vem muito daí. Mais tarde comecei a ir aos treinos de futebol da Académica, mas era muito pequenino para ser guarda-redes. Aceitei o convite de um amigo e fui experimentar o futsal, também na Académica. Tinha 13 anos. Na época seguinte fui para o Santa Clara [também de Coimbra], regressando, depois, à Académica para completar o resto da formação e também o primeiro ano de sénior. Algo muito bom porque também me permitiu continuar a estudar.

— Seguem-se Instituto D. João V, Operário e Fundão, antes de representar Sporting e Benfica. Nessa altura já totalmente preparado para a exigência máxima?

­— Sem dúvida. Acabo por chegar a esse patamar aos 26, 27 anos. Geralmente, o objetivo é chegar aos denominados grandes mais cedo, mas se há coisa de que me orgulho é a de ter feito o meu percurso passo a passo. Sempre tive os meus objetivos desportivos, tanto em clubes como na Seleção, mas também sempre quis concluir os estudos e acabei por me formar em Desporto, em Coimbra. Consegui o melhor dos dois mundos.

— Olhando para Sporting e Benfica, foram cinco épocas em cada um destes clubes, com muitos títulos nacionais conquistados. Podemos falar em 10 anos dourados?

— Sim, sem a mínima dúvida. Houve todo um processo até lá chegar, com muita resiliência, com decisões melhores do que outras, o que faz parte, mas esse é o patamar onde qualquer jogador deseja chegar. Consegui muitos títulos [uma Liga dos Campeões, três Campeonatos, três Supertaças, quatro Taças da Liga e cinco Taças de Portugal] e não escondo o orgulho por esses registos muito interessantes que alcancei.

Antigo guarda-redes pode gabar-se de ter um currículo bastante rico e repleto de troféus

— Qual foi o título mais especial?

— Acho que cada um tem a sua história, a sua mensagem e também a sua dificuldade. Tem tudo que ver com os clubes, os contextos, os grupos. Mas cada título fica para sempre, claro. Se me pede para destacar algum, talvez a Liga dos Campeões, no primeiro pelo Sporting. Mas claro que todos os títulos em todos os clubes foram extremamente importantes e ficarão guardados para a eternidade.

Consegui muitos títulos e não escondo o orgulho por esses registos interessantes que alcancei

— Seguiram-se dois anos no Leões de Porto Salvo e... o final da carreira. Já caiu a ficha?

­— Sinceramente, não sei [risos]. Ainda há pouco tempo estava a falar nisso com a minha mulher... Acima de tudo, sinto-me bem e super tranquilo com a decisão que tomei. Não foi algo pensado na semana passada. Desde que entrei no projeto do Leões de Porto Salvo, e felizmente que agarrei essa oportunidade, tinha a ideia de serem mais dois anos, porque vinha de um período muito difícil, devido à lesão. E como comecei a pensar na questão de preparar-me para terminar a carreira, o processo tornou-se mais natural. Também já sabia o que queria fazer no pós-carreira, qual era o caminho que queria seguir, ou seja, tudo junto facilitou todo este caminho.

— Nesta reta final foi mais difícil manter o foco competitivo pelo facto de o fim estar a chegar?

— No treino senti isso, sim. Não digo no plano físico, nem tático, mas mentalmente. Já me sentia mais desgastado e o treino já me custava muito mais. Já não era tão prazeroso. O sábado para mim era sempre o melhor dia, porque era jogo. A ansiedade e o nervosismo continuaram sempre lá. Nunca perdi a competitividade de querer ganhar.

— O fim acaba por ser... o menos esperado. O Leões de Porto Salvo chega às meias-finais do play-off, diante do Benfica, e o André é expulso no primeiro jogo dessa eliminatória. Não pode, naturalmente, dar o contributo à equipa no segundo encontro e o seu clube perde novamente e é eliminado.

­— Foi doloroso. Obviamente que idealizei o momento de outra forma e não o de estar na bancada. Mas, felizmente, estava com a minha família, os meus amigos, e não deixou de ser um dia memorável. Obviamente que ao dia de hoje ainda não consigo brincar com a situação, talvez mais lá para a frente [risos].

— Mas acabou por acontecer uma homenagem bonita no Pavilhão da Luz, que acabou consigo na quadra a ser aplaudido de pé...

— É verdade. Apesar de tudo, não deixou de ser um dia extremamente emotivo e memorável. Acabei por receber também do Benfica aquela bonita homenagem. É sempre prazeroso sentir o carinho dos adeptos dos clubes por onde passei. Mais do que títulos e troféus, é realmente importante para mim chegar ao final da carreira e perceber que deixei uma mensagem, que deixei carinho. Houve pessoas com quem me cruzei ao longo deste caminho que vão marcar o resto da minha vida. Felizmente fiz boas amizades e as várias homenagens que me fizeram enchem-me de orgulho, naturalmente.

— Qual foi o ponto mais alto de uma carreira tão rica?

— O Europeu de 2018, em que ganhámos 3-2 à Espanha na final. É um dia que nunca mais se esquece. Entrei na Seleção Nacional em 2009 e acompanhei várias gerações, sempre com grandes jogadores. Malta que andava há anos atrás de um título que teimava em não chegar. Já nessa altura tínhamos muita qualidade, mas as conquistas acabaram por surgir depois.

— Falar no seu percurso na Seleção Nacional é falar de dois Europeus, um Mundial e uma Finalíssima Intercontinental. Tem noção de que ficou na história de Portugal?

­— Sim, é verdade. São grandes títulos. Tive a possibilidade de fazer parte deles e serão sempre um motivo de orgulho para qualquer atleta.

Dias e Braz? Tive a felicidade de ter sido orientado pelos melhores treinadores do Mundo

— Foi treinado por dois nomes de excelência do futsal nacional, casos de Nuno Dias e Jorge Braz. Também deve ficado orgulhoso...

— Sem dúvida. Tive a felicidade de ter sido orientado por alguns dos melhores treinadores do mundo. Relativamente ao Nuno Dias, é ele que me convida para ir para o Instituto D. João V, quando estava na Académica. E permitiu-me jogar e estudar em simultâneo, porque a distância era de cerca de 50 quilómetros e dava para conjugar. O melhor dos dois mundos, portanto. Já na altura se percebia que ia chegar muito longe. É extremamente exigente. E isso tem permitido ao Sporting estar no topo há muitos anos. Continua a ganhar, mas os jogadores têm de dar sempre mais para poderem ganhar ainda mais. É uma mensagem muito genuína dele e que tem tudo que ver com a sua forma de estar. Relativamente ao mister Braz, e ainda que com características diferentes do Nuno Dias, sem entrar em qualquer tipo de comparação, claro, é outro tipo de personalidade. Tem aquele conceito de família e agrega muita gente a essa forma de estar. Foi alguém com quem estive 13 ou 14 anos na Seleção e que muito me ajudou. Mesmo nos meus momentos mais difíceis.

Entrevista decorreu nas instalações de A BOLA, nas Torres de Lisboa

— Partilhou balneário com um sem número de jogadores de craveira mundial, mas houve um que não podia deixar de ser falado: Ricardinho. Era de outro planeta, não era?

— Incrível. Mais do que a capacidade técnica, que a todos deliciava, nunca senti um jogador com tanta alegria a treinar como o Ricardo. Sempre com um sorriso na cara, aquele sentimento de jogo de rua, a tranquilidade, a forma mágica como tratava a bola... Acho que para quem acompanhou a carreira dele, como eu acompanhei, foi também bastante interessante perceber a evolução e inteligência tática que conseguiu alcançar. Teve anos dourados. Treinar contra ele? Havia muita malta que se passava [risos]. E foi sempre alguém que nunca se colocou em bicos dos pés, sabia ser capitão, sempre disposto a ajudar tudo e todos. Foi o nosso grande jogador naquelas conquistas que tivemos na Seleção.

Futuro está tratado: mercado imobiliário

O futsal ficará para sempre cravado no coração e na memória, mas, com 40 anos, a vida continua... E pese embora tenha concluído o percurso académico ao tirar a licenciatura em Ciências do Desporto e Educação Física, na Universidade de Coimbra, e dois Mestrados — um em Educação Física (também em Coimbra) e outro em Treino Desportivo (na Universidade da Beira Interior) —, André Sousa tem o futuro assegurado no mercado imobiliário. Já está no ramo há cerca de cinco anos, em parceria com Donato Sperti, e os objetivos são bem claros.

«É uma paixão antiga e estou absolutamente focado nesta nova fase da minha vida. Trata-se de compra, remodelação e revenda de imóveis, com o epicentro na área da Grande Lisboa e Margem Sul», anuncia.

Um dos grandes: obrigado por tudo, André

André Melo Bandeira Almeida Sousa. Foi a 25 de fevereiro de 1986 que nasceu, em Coimbra, um menino que, anos mais tarde, iria deixar uma marca profunda na história do futsal português.

Ainda tentou o futebol, na mítica Académica — és de Coimbra, és da Académica —, mas pouco tempo depois virou-se para os pavilhões. Nunca se irá saber o que teria dado o André Sousa jogador de futebol, mas hoje todos sabemos o que deu o André Sousa jogador de futsal. E, perante as evidências, Portugal só tem de estar grato a André Sousa pela forma como elevou o futsal nacional.

Da Briosa ao Instituto D. João V, do Operário ao Fundão, do Sporting ao Benfica, até ao ponto final no Leões de Porto Salvo. Foram mais de 20 anos de um percurso sénior que deixou uma marca profunda.

E se haverá quem se recorde daquelas defesas magistrais que fizeram do guarda-redes um dos melhores de sempre, não haverá quem esqueça os títulos que jamais serão apagados da história. Porque André Sousa pode orgulhar-se de ter conquistado cinco Taças de Portugal, quatro Taças da Liga, três Campeonatos, três Supertaças e uma Liga dos Campeões. Não é para todos. Algo só ao alcance dos predestinados. Como foi André Sousa. Mas as páginas douradas não ficam, de todo, pela caminhada realizada pelo guarda-redes nos clubes que representou. Em paralelo, e também durante muitos anos, o conimbricense foi um dos principais rostos de Portugal.

André Sousa foi homenageado pela FPF, que lhe ofereceu uma camisola com o número 118, alusivo às internacionalizações que somou pela Seleção Nacional

Com o símbolo das quinas ao peito, André Sousa escreveu um livro não menos memorável. Foram 118 internacionalizações e quatro títulos que o elevaram a patamares de excelência: dois Europeus (2018 e 2022), um Mundial (2021) e uma Finalíssima Intercontinental (2022). Haja espaço lá em casa para tantas medalhas...

Na hora da despedida, sucederam-se as homenagens de clubes e (antigos) colegas de equipa. E também da FPF, claro. André Sousa fez por merecer todos estes tributos. Não só o (extraordinário) jogador, mas também o (exemplar) homem. Obrigado por tudo, André!

A iniciar sessão com Google...