Diante do V. Guimarães Sporting sofreu um apagão na segunda parte, tal como diante do E. Amadora — Foto: MIGUEL NUNES
Diante do V. Guimarães Sporting sofreu um apagão na segunda parte, tal como diante do E. Amadora — Foto: MIGUEL NUNES

Meias partes não chegam para ser campeão

Existe uma tendência que deve ser assumida e corrigida. Urge mesmo ser retificada, sob pena de o Sporting hipotecar demasiado cedo as suas ambições, cabendo a Rui Borges ser lesto e certeiro na prescrição da terapêutica. A Bola é redonda. O Verde é futuro, é o espaço de opinião de Pedro Ângelo, CEO da NAV e sócio do Sporting Clube de Portugal

Volvidas as duas primeiras jornadas, já se podem extrair algumas impressões sobre o futebol jogado que nos acompanhará ao longo de uma época iniciada em pleno período estival e que se prolongará até à primavera do próximo ano. Será, por isso, muito precipitado formular sentenças definitivas com base no desempenho das equipas nesta fase embrionária da temporada e, em particular, projetar quem será o campeão em maio de 2027, tanto mais numa altura em que os clubes continuam a refazer os seus plantéis, com entradas e saídas ainda por fechar até 4 de setembro.

No caso do Sporting, perante um processo de renovação assumido, marcado quer pela saída de jogadores que sustentaram muitas das vitórias dos pretéritos anos, quer pela chegada de vários reforços e pela aposta em jovens ainda em processo de afirmação, seria injusto transformar as primeiras dificuldades da temporada numa condenação antecipada do trabalho desenvolvido pela estrutura na transição para um novo ciclo.

Ainda assim, duas jornadas podem ser suficientes para revelar sinais, confirmar sensações e, sobretudo, identificar comportamentos que não nasceram agora. E aquilo que o Sporting mostrou diante do Estrela da Amadora e do Vitória SC deve inquietar Rui Borges, os jogadores e todos aqueles que ambicionam verdadeiramente a reconquista do campeonato nacional.

Na Reboleira, o Sporting realizou uma primeira parte globalmente positiva, ainda que perdulária, somando remates e várias oportunidades para chegar ao intervalo em vantagem. Entrou depois de forma ainda mais forte no segundo tempo, marcando logo a abrir por Zalazar, justificando o valor investido na sua aquisição não só pelo golo marcado, mas mais até pela forma como inventou sozinho o segundo com uma assistência de morte para Ioannidis ampliar a vantagem.

Quando tudo fazia antever uma vitória tranquila e uma exibição bem conseguida, sobreveio, após o segundo golo, um eclipse da equipa leonina, sem que a ciência da astrofísica o tivesse antecipado ou, depois, conseguido explicar. Os últimos 36 minutos da partida foram penosos de observar, nos quais a equipa se limitou a defender e, diga-se, mal, permitindo dividir o jogo com o adversário e denotando uma incapacidade gritante de gerir emocionalmente os momentos com bola. 

Diante do Vitória, no palco de Alvalade, o filme não foi muito diferente no desempenho, mas perigosamente semelhante no desfecho. O Sporting marcou três golos na primeira parte, apresentando qualidade nas combinações, eficácia na finalização e capacidade para aproveitar os espaços concedidos pelos vimaranenses no primeiro tempo. Não foi propriamente um caudal ofensivo avassalador, mas foi uma demonstração de competência, talento individual e eficácia. 

No reatamento do jogo para a segunda parte, porém, assistimos a um novo apagão. Desde o remate colocado de Sergi Altimira que fez o 3-0, o Sporting não voltou a ameaçar a baliza do Vitória, passando os 59 minutos restantes da partida sem uma única tentativa de remate. O adversário aproveitou para reduzir a desvantagem para a margem mínima, deixando Alvalade em suspenso e o golo do empate a parecer iminente em cada aproximação à área leonina, tal foi a tremedeira patenteada pela equipa. Foi, aliás, assaz audível o silêncio nervoso das bancadas ao verem o Sporting novamente sem qualquer controlo emocional e sem que do banco surgisse uma voz de comando capaz de, usando uma das muletas discursivas do treinador, voltar a ligar os jogadores ao jogo.

No rescaldo, ouvimos um diagnóstico de Rui Borges que é recorrente, alegando que a equipa perdeu a energia, outra das suas expressões preferidas. O problema é que a diagnose identificada não pode ser tratada como um sintoma abstrato que surge misteriosa e reiteradamente depois do intervalo dos jogos. Se a causa está reconhecida, compete ao treinador explicar por que razão se repete e, sobretudo, encontrar uma forma de a corrigir ou, pelo menos, de mitigar as suas consequências.

Desde que Rui Borges assumiu o Sporting, os leões perderam vantagens conquistadas em 12 jogos do campeonato, por 16 vezes se considerarmos todas as competições, com consequências penalizadoras nas aspirações da equipa, sendo que no ano passado chegou a suceder em seis ocasiões no campeonato, duas delas de forma deveras inglória nos instantes finais dos jogos com o SC Braga. Não estamos, portanto, perante um acidente episódico, um acaso estatístico ou a habitual e apaixonante imprevisibilidade do futebol. 

Existe uma tendência que deve ser assumida e corrigida. Urge mesmo ser retificada, sob pena de o Sporting hipotecar demasiado cedo as suas ambições para esta temporada, cabendo ao líder do balneário ser lesto e certeiro na prescrição da terapêutica para o problema que tem em mãos, seja pela vertente física do treino, seja na gestão nas substituições no decorrer dos jogos, seja no lado psicológico do grupo, encontrando as palavras, os estímulos e as decisões capazes de afastar a ansiedade e a nervosidade.

Como afiancei há quinze dias, esta deve ser a época da afirmação definitiva de Rui Borges. Com um plantel agora mais próximo das ideias que preconiza, é também sua, por inteiro, a responsabilidade pelo desfecho da temporada. As duas primeiras jornadas não invalidam essa expectativa, nem concedem juízos definitivos, mas mostraram que a identidade competitiva vencedora, indispensável à conquista de troféus, permanece ainda demasiado ténue. Há talento, qualidade e uma ideia de jogo reconhecível. Falta transformar este processo em consistência, controlo e autoridade ao longo dos noventa minutos.

Será na capacidade de corrigir estas fragilidades e de manter a equipa fiel a si própria, sobretudo nos momentos de maior pressão, que Rui Borges terá de demonstrar estar preparado para conduzir o Sporting aos títulos. Para ser campeão, meio jogo não chega.

O Conselho de Arbitragem nomeou João Gonçalves para o Estrela da Amadora-Sporting e David Silva para o Sporting-Vitória SC, ambos pertencentes à Associação de Futebol do Porto. Este facto, isoladamente, não prova qualquer parcialidade, não permite colocar em causa a honorabilidade dos árbitros e não deve alimentar acusações irresponsáveis. Mas também não pode ser ignorado o peso simbólico de duas nomeações consecutivas da mesma associação para os dois primeiros jogos de um candidato ao título, sobretudo num momento em que o processo de designação dos árbitros continua envolto em polémica e desconfiança. 

O Conselho de Arbitragem deveria considerar que, num futebol marcado por tantos traumas, suspeitas e pressões, não basta ser imparcial, tem também de proteger a perceção pública da sua imparcialidade. É o velho aforismo, não basta ser, tem de parecer. Repetir escolhas que alimentam dúvidas evitáveis e permitir que erros relevantes se somem a essas nomeações não contribui para restabelecer a confiança.

Sim, houve erros nestas duas primeiras jornadas em prejuízo do Sporting, que estão assinaladas nas diferentes análises dos ex-árbitros na imprensa desportiva. E bem fez o Sporting ao não transformar esses erros num álibi para aquilo que não conseguiu resolver dentro de campo. Não usamos comunicações turvas para justificar resultados, contrariamente a outros que sentem necessidade de recorrer a newsletters para se justificarem de pretensos triunfos sem mácula. 

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