Vender ou ter de vender?
Durante muitos anos, o futebol português aprendeu a fazer muito com menos recursos do que os seus principais concorrentes. Formámos jogadores, desenvolvemos treinadores, descobrimos talento antes dos outros e construímos equipas capazes de competir internacionalmente com organizações de dimensão económica muito superior. Essa capacidade tornou-se parte da nossa identidade e uma das maiores forças do futebol português.
Mas o futebol mudou. As diferenças económicas aumentaram, os grandes mercados cresceram e a capacidade financeira tornou-se cada vez mais determinante. Perante esta realidade, há uma discussão que devemos fazer sem preconceitos: o futebol português precisa de mais investimento externo para continuar a crescer e competir?
E esta necessidade não diz respeito apenas aos clubes de média dimensão ou àqueles que enfrentam maiores dificuldades financeiras. Também os grandes clubes portugueses terão provavelmente de encontrar novas formas de capitalização se quiserem manter, de forma sustentada, a capacidade de competir com a elite europeia.
Portugal continuará a ter uma vantagem importante: sabemos formar e valorizar talento. O nosso modelo tem produzido jogadores para os melhores campeonatos do mundo e gerado receitas muito relevantes através das transferências. Não devemos abandonar aquilo que fazemos bem. Devemos fazê-lo cada vez melhor.
Mas existe uma diferença fundamental: vender talento faz parte do modelo português. Ter de vender talento é diferente.
Um clube forte não é necessariamente aquele que não vende. É aquele que consegue escolher quando vende, quem vende e em que condições vende. A verdadeira autonomia não está em recusar o mercado, mas em não depender permanentemente dele para equilibrar a sua atividade.
Quando uma venda resulta de uma decisão estratégica, o clube controla o processo. Pode avaliar o momento desportivo, o potencial de valorização, a capacidade de substituição e a proposta recebida. Quando a venda é uma necessidade financeira, essa margem de decisão diminui.
Construir uma equipa competitiva exige qualidade, mas também continuidade. Se os melhores jogadores permanecem pouco tempo, os treinadores são obrigados a reconstruir constantemente processos e dinâmicas. Portugal tem demonstrado enorme capacidade para encontrar substitutos, mas existe um valor competitivo associado ao tempo que nenhum mercado consegue substituir.
É aqui que o investimento externo pode assumir uma importância estratégica.
Não para impedir os clubes portugueses de venderem, nem para alterar a nossa capacidade de desenvolver jogadores. Mas para permitir que vendam por estratégia e não por obrigação. Para que um jogador possa permanecer mais uma época quando fizer sentido, para que uma proposta possa ser recusada quando não corresponde ao valor pretendido e para que a construção da equipa não esteja sempre condicionada pela necessidade do próximo mercado.
Nos grandes clubes portugueses esta discussão ganha particular relevância.
Benfica, FC Porto e Sporting possuem história, dimensão, marcas internacionais, milhões de adeptos e uma reconhecida capacidade de gerar talento. Mas nas competições europeias enfrentam organizações inseridas em realidades económicas profundamente diferentes, com receitas televisivas e comerciais muito superiores e uma capacidade de investimento difícil de acompanhar. E esse é um desafio que não podemos continuar a adiar.
Discutir novas formas de capitalização não significa diminuir os nossos clubes. Pode significar precisamente aumentar a sua capacidade competitiva.
Nos restantes clubes profissionais, o investimento poderá ter um impacto ainda mais estrutural. Muitos necessitam de melhorar centros de treino, academias, scouting, áreas médicas, tecnologia e recursos humanos. Sem capital, algumas dessas transformações serão inevitavelmente mais lentas.
Mas há uma distinção essencial: investir não é simplesmente financiar.
Colocar dinheiro num clube para contratar jogadores pode melhorar uma equipa durante uma época. Construir uma academia, melhorar um centro de treino, profissionalizar departamentos, desenvolver novas receitas ou introduzir conhecimento e tecnologia pode melhorar um clube durante muitos anos.
Por isso, a pergunta não pode ser apenas quanto está disposto a investir. Devemos perguntar qual é o projeto, qual o horizonte temporal, que conhecimento traz, onde pretende investir e que clube existirá cinco ou dez anos depois.
Existe ainda uma dimensão que nunca poderá ser ignorada: a identidade.
Um clube de futebol não é uma empresa como qualquer outra. Representa uma cidade, uma região, famílias e gerações de adeptos. Carrega símbolos, memórias e sentimentos que nenhum balanço financeiro consegue quantificar.
Quem investe num clube não adquire apenas uma participação numa sociedade. Assume responsabilidade sobre uma instituição que existia antes de chegar e que deverá continuar depois de partir.
É possível internacionalizar uma estrutura acionista sem internacionalizar a alma de um clube. Capital externo, acompanhado por regras claras, boa governação e respeito pela história das instituições, pode coexistir com a preservação daquilo que torna cada clube único.
Portugal também não deve esperar que os investidores apareçam apenas quando os clubes precisam urgentemente de dinheiro. Deve criar condições para atrair capital quando existe capacidade de escolher.
Há uma enorme diferença entre procurar investimento por necessidade e escolher investimento por estratégia.
Capital sério procura projetos credíveis, organizações transparentes, estabilidade regulamentar, informação financeira clara e boa governação. Quanto melhor organizarmos o futebol português, melhores investidores poderemos atrair.
A discussão não deve, portanto, ser simplesmente entre aceitar ou rejeitar investidores. Deve ser sobre que capital queremos, com que regras e para cumprir que objetivos.
O investimento externo pode ser uma das ferramentas para acelerar esse crescimento, desde que seja utilizado para fortalecer os clubes e não apenas as equipas.
O objetivo não pode ser simplesmente ter mais dinheiro para gastar. Deve ser construir organizações mais fortes, criar património, aumentar receitas, melhorar infraestruturas, reter talento e dar aos decisores maior liberdade para escolher.
Porque vender continuará a fazer parte do futebol português. E ainda bem que assim é. Desenvolver jogadores e colocá-los nos melhores campeonatos do mundo é também uma demonstração da qualidade do nosso trabalho.
O que devemos procurar é outra coisa: deixar de vender porque temos de vender e passar, cada vez mais, a vender porque decidimos que é o momento certo.
Talvez seja essa uma das maiores diferenças entre sobreviver no mercado e ter força para competir nele.
E talvez seja também por aí que deva começar a discussão sobre o próximo passo do futebol português.