Curso de treinadores em 2006 — há 20 anos a gestão da carga cognitiva ainda era filão por explorar. Foto A BOLA
Curso de treinadores em 2006 — há 20 anos a gestão da carga cognitiva ainda era filão por explorar. Foto A BOLA

Do treino à leitura do jogo: a importância da cognição no futebol

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Sérgio Loureiro Nuno, Fisioterapeuta olímpico dedicado a performance e recuperação de lesões desportivas; Professor universitário; Doutorado em Ciências da Saúde e Motricidade Humana argos do convidado

A gestão da carga cognitiva é o próximo passo na periodização de treino, especialmente agora que sabemos que a fadiga mental afeta diretamente a tomada de decisão e o tempo de reação.

A cognição não é mais considerada um fator extra, antes pelo contrário. É um fio condutor que está presente em todo o processo. É por isso que Bernardo Silva e Pep Guardiola foram os melhores amigos durante 9 anos. Trabalharam juntos no Manchester City desde a chegada do médio português no verão de 2017 até à saída de ambos no final da época 2025/2026. Quando Bernardo Silva confirmou a sua saída oficialmente, o treinador não poupou elogios ao internacional português: «Gostaria de agradecer, em nome deste clube, por tudo o que Bernardo fez. Ele provou que o futebol começa na cabeça e termina nos pés», afirmou Guardiola. Para o técnico, a maior qualidade de Bernardo não estava na sua velocidade, mas na capacidade de interpretar o jogo e de ter a decisão certa em cada momento.

Temos o hábito de periodizar rigorosamente a carga física ao longo das semanas competitivas, ao planear força, velocidade, trabalho tático e recuperação de acordo com as exigências de cada dia. Então, porque não aplicar os mesmos princípios à carga cognitiva?

São questões como esta que surgem em contexto académico e que, posteriormente, procuramos transformar em valor no plano prático. Nem todos os dias devemos exigir o mesmo nível de atenção, tomada de decisão, perceção e velocidade de reação.

No dia seguinte ao jogo, a prioridade terá de ser sempre a recuperação. Depois do jogo, também o cérebro precisa de recuperar. Por isso, se houver algum estímulo cognitivo, deve ser simples, curto e, idealmente, divertido, sem acrescentar fadiga. Nem sempre fazer mais significa treinar melhor.

No dia subsequente, pode começar-se a aumentar progressivamente a exigência.

É um bom momento para trabalhar a perceção visual, a velocidade de decisão, a reação e a agilidade. O objetivo é voltar a dar vários estímulos e preparar o corpo para as exigências do treino. Nos outros dias (ou dia) antes do próximo jogo, pode-se aumentar a complexidade e, sobretudo, integrar a cognição no próprio futebol. Um passe, uma receção, um sprint ou uma finalização não são apenas ações técnicas. Por isso, em vez de treinar estas ações de forma isolada, podem acrescentar-se estímulos e decisões que aproximem o exercício às exigências do jogo.

Mesmo no treino de força, podem ser estimuladas algumas capacidades cognitivas entre séries, como a atenção, a memória de trabalho ou o controlo inibitório, sem retirar o foco do objetivo principal da sessão de trabalho.

No dia de jogo, a necessidade de estímulo cognitivo pode variar de jogador para jogador. Alguns podem beneficiar de uma breve ativação antes do jogo, enquanto outros podem não precisar de qualquer estímulo adicional. A individualização é fundamental. Nesse momento, a exigência pode assumir outra forma. Como existe maior acumulação de fadiga, pode procurar-se que os jogadores mantenham a qualidade das decisões mesmo quando estão cansados. Afinal, o futebol não é jogado com o corpo e o cérebro sempre frescos.

No fundo, o objetivo não passa por simplesmente acrescentar um tipo de treino cognitivo ao futebol. Deve tornar-se o próprio treino mais rico cognitivamente, aproximando-o das exigências reais do jogo e preparando jogadores capazes de tomar boas decisões sob pressão.

Para além deste tipo de abordagem, o treino visual também tem feito parte da semana dos desportistas de alta competição. O desempenho visual é indissociável da cognição, da antecipação, da tomada de decisão e do movimento sob pressão.

O verdadeiro objetivo não é simplesmente melhorar a acuidade visual, mas ajudar os atletas a captar, processar e utilizar a informação de forma mais eficaz num ambiente dinâmico. É por isso que o treino deve integrar desafios visuais com movimento, reação, equilíbrio, coordenação e tomada de decisão, em vez de tratar a visão como uma competência isolada.

As competências visuais que mais se destacam são a coordenação olho-membro, a acuidade visual estática e dinâmica, a visão periférica, a capacidade de focagem espacial e a perceção da velocidade e distância de pessoas e objetos, como a bola.

Por outro lado, a capacidade de perceber a profundidade através da integração da informação proveniente dos dois olhos é uma função particularmente relevante em modalidades nas quais o atleta tem de avaliar rapidamente distâncias, trajetórias e relações espaciais entre si, a bola, os colegas e os adversários. No futebol, a exigência visual é especialmente complexa. No entanto, ainda não está completamente esclarecido se os atletas de elite desenvolvem melhores capacidades visuais através da prática ou se, por outro lado, determinadas capacidades visuais favorecem a aquisição de maior competência desportiva.

Depois de ser trabalhado a componente cognitiva e visual, a inteligência espacial também surge como uma capacidade fundamental no futebol. É a capacidade de perceber onde o jogador está em campo, onde estão os colegas e adversários e como o espaço está a mudar. No jogo, esta informação permite ao jogador antecipar movimentos, encontrar espaços e ajustar a sua posição antes mesmo de receber a bola. O cérebro cria uma espécie de mapa mental do campo, que é atualizado constantemente à medida que o jogo acontece. Por isso, exercícios que estimulem a perceção do espaço, a orientação corporal e a tomada de decisão podem ajudar a desenvolver esta capacidade, sendo preciso compreender o espaço para antecipar o que vai acontecer.

O desempenho de elite não é construído apenas através do talento. É construído através dos ambientes que permitem ao talento desenvolver-se.

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