Jorge Valdano é um dos comentadores de futebol mais afamados em Espanha - Foto: A BOLA
Jorge Valdano é um dos comentadores de futebol mais afamados em Espanha - Foto: A BOLA

Valdano em entrevista: «Se eu tivesse sido o treinador de Ronaldo, não lhe teria tocado»

Uma análise detalhada sobre o desempenho do capitão e o que ele representou para Portugal, seleção que não o desiludiu. Diz que não guarda «rancor» a José Mourinho

Qual foi a seleção revelação do Mundial?

— Talvez a Noruega, que chegou mais longe do que se esperava. A França parecia demolidora, até que apareceu a Espanha a roubar-lhe a bola e tudo se acabou. A Espanha continua a ser subestimada, mas é dona de uma cultura, de um estilo que se está a prolongar no tempo.

Portugal estava no grupo dos favoritos. Desiludiu-o?

— Não, não me desiludiu. Simplesmente creio que chegar em plenitude física a um Mundial é importantíssimo. Alguns dos melhores jogadores de Portugal chegaram muito desgastados, tal como chegou desgastada a Argentina à final. Ficou sem pernas, e isso é o pior que pode acontecer quando se tem de jogar contra uma equipa tão dominadora como a Espanha.

Que o Vitinha não tenha terminado alguns jogos é sintoma de cansaço. O Vitinha é o Rodri de Espanha

Então acha que foi o físico que falhou?

— Que o Vitinha não tenha terminado alguns jogos é sintoma de cansaço. O Vitinha é o Rodri de Espanha, o jogador à volta do qual acontecem muitas coisas. É quase um treinador dentro de campo. Por outro lado, a pouca participação do Bernardo Silva é outro sintoma. Aconteceram coisas que afastaram Portugal do futebol de topo que, neste momento, é capaz de desenvolver.

Uma das grandes polémicas que Portugal viveu esteve à volta da insistência do selecionador em manter Cristiano Ronaldo tanto tempo na equipa…

— O percurso de Cristiano Ronaldo torna-o merecedor de todos os privilégios do mundo. Se eu tivesse sido o treinador, não lhe teria tocado. Se vai à seleção, tem de ser intocável: é um privilégio que ele ganhou a pulso. O futebol português deu, graças a Cristiano Ronaldo, um grande salto de prestígio, e isso há que agradecer não só com palavras, mas também com gestos.

Mas este não terá sido o Mundial sonhado por ele e por Messi: nenhum dos dois alcançou os seus objetivos…

— Jamais pensei que Messi tivesse a influência que teve no jogo da Argentina. Foi uma máquina de gerar perigo, praticamente a andar, mas com um nível de sabedoria futebolística deslumbrante. A mim parece-me que Messi está a terminar a sua carreira verdadeiramente em grande.

No seu programa de televisão, Universo Valdano, entrevistou Roberto Martínez. Que impressão lhe deixou?

— Ótima impressão humana e profissional. Tem um percurso impecável e humanamente é uma pessoa muito nobre. Acho que está no futebol mundial no lugar que lhe corresponde.

O percurso da Argentina no Mundial foi um pouco acidentado. Acha que mereceu mesmo estar na final?

— Houve mais ferocidade competitiva, mais orgulho competitivo do que futebol. Praticamente o melhor jogo da Argentina concentrou-se na segunda parte frente a Inglaterra: aí sim, a Argentina foi a equipa total, capaz de jogar com muita emotividade e com muito bom futebol.

E como estava o coração de Jorge Valdano na final? Dividido em dois?

— Escrevi um artigo sobre isso no qual dizia que, se ganhasse a Argentina, eu seria feliz, e se ganhasse a Espanha, eu não ficaria triste. Essa era a minha equação. Fui jogador argentino, fui campeão do mundo com a Argentina... O futebol é algo que nasce na infância e, por isso, o meu coração estava com a Argentina. Mas vivo há cinquenta anos em Espanha, tenho muitas coisas a agradecer a este país, estou totalmente identificado com a tendência do seu jogo e, por isso, não só reconheço a justiça do seu triunfo, como não fiquei triste perante a sua vitória.

Considera que a arbitragem da final foi justa?

— Justíssima.

Mas há imensos compatriotas seus que defendem a ideia de que tudo foi orquestrado a favor de Espanha…

— É uma estupidez que as redes sociais fazem crescer até extremos ridículos. Não participo de nenhuma dessas teorias.

E a Argentina demonstrou que sabe perder? Porque no fim houve ali alguns episódios pouco edificantes…

— Sim, o orgulho às vezes perde os seus limites. Aconteceram coisas, e dá-me mais prazer ver como o Ayala, por exemplo, pediu desculpa publicamente do que ver os atos com que o jogo terminou, porque não me identifico minimamente com eles.

Mas os argentinos vivem tão intensamente o futebol que estas coisas podem acontecer…

— Sim, isso também há que dizê-lo. Ou seja, para entender o jogador argentino há que entender o que significa o futebol para os argentinos. De qualquer maneira, isso não justifica os incidentes que ocorreram depois do jogo.

Daqui a quatro anos vamos ter outro Mundial, com a mesma fórmula de sedes em vários países. Concorda ou acha melhor que tudo aconteça num só país?

— Gostaria que se concentrasse apenas num país, porque isso faz com que a festa se viva com muito mais intensidade. Mas passámos de organizá-lo numa cidade, em Doha (Qatar), a fazê-lo num continente, e o seguinte já vai ser em três continentes: Europa, África e na América do Sul, no Uruguai e Argentina.

O que achou da inovação da pausa para hidratação?

— Pareceu-me uma contradição. Tem-se vindo a ajustar o regulamento para tornar o futebol muito mais ágil, mais ativo, e depois suspendemo-lo durante três minutos! Parece-me que é um ponto a mais para a metodologia e um a menos para a intuição, porque esse tempo é aproveitado pelo treinador para dar novas instruções. Agora não há duas partes: há quatro. Lançamentos laterais, pontapé de baliza e substituições estão mais rápidas, mas faz-se um espetáculo musical de meia hora na final, depois do qual a segunda parte parecia que era outro jogo. O espetáculo está a invadir o futebol, mas o futebol é muito resistente e não o vão matar assim tão facilmente.

«Não guardo rancor a José Mourinho»

José Mourinho está de volta ao Real. O que pensa deste regresso?

— É a sua segunda oportunidade. Passaram quase quinze anos: o futebol não é o mesmo, a sociedade não é a mesma, o Florentino não é o mesmo e o Mourinho seguramente também não será o mesmo. Portanto, ver-se-á qual é o resultado perante este novo cenário.

Porque acha que a escolha recaiu em José Mourinho?

— Xabi Alonso era um treinador jovem, com metodologias novas. Não sei os motivos, mas, claramente, não resultou e o Florentino optou por outro modelo de treinador. A verdade é que também não há assim tantos que possam chegar ao Real Madrid. As opções estão a esgotar-se. Não sei qual é o sentido de oportunidade para que seja o José Mourinho a estar outra vez perante esta responsabilidade, isso só o clube sabe.

Mas acha que ele pode ter êxito?

— Eu sou sócio do Real Madrid: se me representar bem, aplaudirei; se me representar mal, ponho-me em stand by até um pouco mais adiante. Mas suceda o que suceder, continuarei a ser sócio do Real Madrid.

Valdano com José Mourinho no Real Madrid - Foto: Eduardo Oliveira

Durante o tempo em que ambos coincidiram no Real Madrid, as vossas relações não foram nada boas…

— Não, não foram. São duas sensibilidades diferentes que acabaram por chocar, embora eu esteja convencido de que duas pessoas inteligentes acabam por encontrar um ponto de encontro. Com ele, claramente, isso não aconteceu. Ou seja, essa teoria nem sempre se cumpre.

Se o encontrar, estende-lhe a mão?

— Sou a pessoa menos rancorosa do mundo, os conflitos não me duram nada, viro a página com muita facilidade.

Acha que Bernardo Silva pode ser um bom reforço?

— Tiro o chapéu ao Bernardo Silva e ao seu percurso. Ainda está em plena atividade e numa idade ainda muito aproveitável. Basta ver o que fez a temporada passada no City para sabermos que estamos perante um jogador ainda com muita energia e com um talento futebolístico tão enorme que é indiscutível.

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