Neemias Queta: «Sou forreta, não gasto 100 mil dólares para treinar»
— Quais são os aspetos em que está a trabalhar neste verão para evoluir? No que é que está a procurar especificamente?
— Defensivamente estou a trabalhar imenso em trocar [de jogador na movimentação e bloqueios] e ser mais capaz de aguentar com os pequenos no um para um sem ajudas. Sinto-me confiante nesse aspecto, pode-se ter sempre mais à-vontade. Ofensivamente é ter a bola nas mãos. Conseguir ter controle de bola mais apertado, ser capaz de criar um para um a poste baixo, espaçar o campo, ter um lançamento com maior consistência e ter um impacto ofensivo maior.
— Com o novo salário na época que vem a ajudar, seria mais fácil gastar 100 mil dólares [88 mil euros] para treinar uma semana com o Hakeem Olajuwon movimentos de poste? É algo que gostaria de fazer?
— Eu sou forreta. Não, não gasto 100 mil dólares para treinar.
— Nem com o Hakeem Olajuwon?
— Nem com o Hakeem Olajuwon.
— Falemos do novo contrato com os Celtics. Quatro épocas por 56 milhões de dólares, que são €49 milhões. O que é que ele significa para si para além do dinheiro? O que é que este reconhecimento expressou?
— Sim, para mim o dinheiro não foi o mais importante de todo. O mais importante foi mesmo saber que Boston apostou em mim por mais quatro anos. Vou poder continuar a chamar Boston de casa durante esse tempo todo, sem ter de olhar por cima do ombro. Sem ter de me preocupar com a próxima época. O que é que queria ou o que haveria de ser. Existe uma incerteza quando és um jogador livre. Cria certas dificuldades em termos de saber como é que se gere o ano, lesões e tudo mais, e eu não queria estar a pensar nisso. Foi bastante bom para mim e sinto-me lisonjeado por ter essa confiança do front office.
— Quando assinou, ainda que o novo contrato só comece para o ano, ofereceu alguma coisa a si mesmo?
— Ainda não... Ainda não… Pensei que ia ser logo, mas não. Sigo a minha vida da mesma maneira, não deixo que isso me mude.
— E existe algum sonho que esse contrato venha a permitir? E pode-se saber o que é quer oferecer a si?
— O sonho é mesmo ter a minha própria casa. Uma casa de sonho. Criar o meu espaço, o meu mundo. Mas penso que vou ter paciência com isso, não quero apressar. É um projeto que vai demorar muito tempo e quando isso acontecer, esperemos que seja bem conseguido.
— E ainda tem de atravessar a cidade toda de Boston para ir para os treinos?
— Não, agora mudei-me. Estava mais perto do centro de treinos, era mais fácil para ir, só que para os jogos tornava-se mais difícil. Em termos de logística, Boston não é a melhor cidade para se fazer todos os dias, treinos e jogos. Mas nós temos. Mas nós temos todos os recursos para facilitar.
— Para que as pessoas percebam, porque é que era importante durante aquele período das negociações do novo contrato, estar em Boston e não ter vindo à Seleção, que é uma coisa que gosta tanto? Porque é que naquele momento era importante estar lá?
— Sim, tinha de ser. Tinha de ser. Foi mais por proteção de interesses. A maior parte das vezes, não estando lá, pode acontecer um imprevisto ou uma lesão e aquilo pode estragar tudo o que se tem em cima da mesa. Por isso não fazia muito sentido vir jogar pela Seleção. Mas também por parte deles [Celtics], não me permitiram.
— E agora, em agosto, jogar contra a Espanha e a Geórgia, que serão os únicos encontros que vai poder fazer nesta fase, é uma coisa que lhe vai dar muito gosto outra vez?
— Sem dúvida. Adoro jogar na Seleção Nacional. Adoro estar com os meus colegas, foi com eles que eu cresci e é uma oportunidade de ouro para o basquete português. Esperamos que consigamos sair vitoriosos.
— O que é que sentiu quando foi divulgada a votação para o Jogador que mais evoluiu na época e era o quarto mais votado e também foi mencionado para os Cinco Ideais Defensivos. Como se sentiu com tais resultados? Era algo que esperava?
— É mais do mesmo para mim. Acho que, acima de tudo, ninguém celebra o quase. O que se deve celebrar é quando as coisas acontecem. Mas isso aí, ter ficado tão perto, ainda me motiva mais para que no futuro possa vir a acontecer.
— Assistiu aos Finals?
— Sim.
— O que é que achou da vitória dos Knicks? Surpreendeu-o a maneira como jogaram?
— Jogaram muito bem. O Mike Brown fez um trabalho excelente com eles desde o início da época, tiveram uma temporada meio atribulada, mas conseguiram afinar os detalhes e aqueceram no momento ideal, na melhor altura possível. Defenderam muito bem durante os play-offs e a maneira como conseguiram atacar e depois, no fim de cada jogo, meter a bola no [Jalen] Brunson e ele finalizar o encontro. Foi um bom campeonato, conseguiram jogar bem e todas as peças complementaram-se muito bem.
— Mitchell Robinson estava nos Knicks. Vai agora ser seu colega de equipa e a rodar consigo na posição de poste. É alguém que gostava de jogar contra, que puxava por si ou era um jogador que…
— O que eu agradeço é não ter de fazer o box out contra ele porque era muito difícil. Trata-se de um jogador muito forte, muito ágil, capaz de ir e ganhar quase todos os ressaltos ofensivos. Ter um jogador deste nível, que defende tão bem e consegue causar tanto furor na tabela ofensiva vai ser muito bom porque somos basquetebolistas bastante parecidos e conseguimos trazer muitas coisas semelhantes para a equipa, o que é essencial.
— Já se vendem camisolas 88 [de Neemias Queta] sem ser preciso encomendar na loja dos Celtics?
— Não sei, esperemos que sim.
- Quais são os pavilhões que onde lhe dá mais gozo jogar na Liga, sem ser o TD Garden?
— As arenas dos rivais históricos. Ir jogar contra os Knicks no Madison Square Garden é excelente. Existe sempre aquela história toda. Ir à Crypto Arena contra os Lakers é sempre especial porque existe aquela rivalidade. Mas agora também gosto de ir ao dos Clippers [Intuit Dome], agora que é um pavilhão super, topo de gama, cheio de tecnologia e muito futurista. Estes são os principais.
— Com a ida de LeBron James para os 76’ers, vai enfrentá-lo mais vezes. É alguém que sempre gostou de jogar contra e até era um dos objetivos quando veio para a NBA defrontá-lo. Agora, quem é que vai ter de abafar primeiro: LeBron, Jaylen Brown [ex-colega nos Celtics, trocado há um mês para Filadélfia], ou Joel Embiid?
— Já abafei todos dentro de campo, só falta mesmo o Jaylen Brown. Quando jogávamos um contra o outro [nos treinos], dizíamos sempre para nem tentar saltar ou afundar um ao outro. E agora somos rivais... Vai ser um duelo de titãs no cesto.
— Uma última pergunta. A Hoopers [startup que ajuda a organizar o Neemias Queta Training Camp, tem relações comerciais com clubes da NBA a nível tecnológico e na qual Neemias é investidor] tem estado a negociar com a Câmara de Boston para fazer um playground Neemias Queta junto à zona onde está mais a comunidade portuguesa na cidade. O que é que isso significa para si se ele for para a frente?
— Seria excelente ter um campo na comunidade portuguesa, numa cidade que considero casa, que é Boston. Acho que seria bastante gratificante poder contribuir um bocado para a comunidade portuguesa lá e trazer um pouco do DNA da organização para irem lá com as crianças e fazerem o dia delas. Era excelente para mim, iria sentir-me completo.
— 2026/27 é para voltar a ser campeão?
— É o objetivo.