Nelson Évora: «Não sou só o atleta que salta. Sou muitas outras coisas, tenho outras paixões»
Doze dias após se ter sagrado campeão nacional do triplo salto aos 42 anos — conquista (16,03 m) que alcançou pela 13.ª vez, mas que não concretizava desde 2017 (16,78 m) —, Nelson Évora regressou ao Estádio Universitário de Lisboa para o Último Salto. O adeus definitivo ao atletismo… como atleta.
Para quem voltara a competir, depois de três anos parado, aceitando o desafio lançado por Mário Aníbal para que a despedida acontecesse na pista e no Nacional com a camisola do Juventude Ilhas Verdes, dos Açores, Évora — que defendeu as cores do FC Porto, Benfica e Sporting — teve um dia de Último Salto exigente, tantas foram as vezes que executou saltos para filmagens do seu patrocinador, assim como para aquecer e garantir que a despedida não era marcada por qualquer lesão.
Tudo começara às 17h, mas quando, perante cerca de oito dezenas de pessoas, finalmente voou pela última vez sobre a caixa de areia que se situa à entrada da reta dos 100 metros da pista do Universitário, passava já das 20h e começava a cair a noite.
A BOLA quis saber se este último momento tinha sido algo nostálgico ou se o afastamento de três anos ajudara a que não fosse tão triste dizer adeus ao atletismo. «É um momento sempre nostálgico. Ainda não caí em mim, mas é sempre nostálgico. O período em que estive fora das pistas ajudou, mas não sou uma pessoa de estar muito a recordar o passado, prefiro estar com as pessoas que me acompanharam durante o processo. É sempre bastante mais alegre essa nostalgia partilhada com quem também lá esteve. Mas, tirando isso, sim, acho que chegará o momento de ficar mais nostálgico e realmente chorar de emoção», respondeu o multimedalhado português..
No estádio encontravam-se igualmente antigos e atuais juízes de atletismo. Quando chegou a hora, Nélson queria saltar apenas uma vez. O público pediu pelo menos três, mas o antigo juiz e dirigente Jorge Salcedo disse logo que teriam de ser seis, porque era como uma competição oficial. Salcedo encontrava-se estava sentado no enfiamento da tábua com as bandeiras para validar ou não o salto e não teve problemas em assinalar nulo no primeiro ensaio, levantando a bandeirola vermelha.
«Estou a saltar com o vento contra, peço palmas ao público e, quando começo a estar preparado, sinto o vento a soprar. Baixo a cabeça, corro — o salto até foi bom para o meu nível de cansaço — e, quando olho para trás, o árbitro dá-me nulo… Quero ver a repetição!», gritou Nelson, a rir-se. No ensaio seguinte nem saltou. Desconcentrou-se e acabou por passar a correr pela tábua após recear voltar a pisar a plasticina.
Teve-se mesmo de esperar pelo terceiro, para acontecer o Último Salto. Foi medido à seria, mas foi anunciado um resultado de amigos: 16,72m, para quem tem como recorde pessoal ao ar livre 17,74m.
Diz a cronologia da Carreira de Nelson Évora que a medalha de ouro no Mundial de Osaka-2007 (17,74 m) foi conseguida a 27 de agosto; o histórico título olímpico nos Jogos de Pequim-2008 (17,67 m), a 21 de agosto; e a vitória no Europeu de Berlim-2018 (17,10 m), a 12 de agosto.
Será que o Último Salto acontecer a 6 de agosto tinha algum significado especial? «Estava mais ou menos programado assim. Fizemos uma época curta, poucas provas, mas correu tudo bem, graças a Deus. O corpo reagiu bem, respondeu bem e achávamos que agora seria o momento para o fazer», responde, antes de ser confrontado com as três datas das suas maiores conquistas.
Era só esperar uns dias. Não gostava que tivesse sido numa dessas datas ou nem sequer pensou nisso? [risos] «Não, não pensei nelas. Essas datas vão ser sempre especiais por si próprias. Não conciliei a despedida com uma data em que seja o aniversário de um título. Não pensei nisso, nunca pensámos nisso. É hoje, tinha de ser hoje», responde.
Para ir de férias, tranquilo? «Sim!», diz sem hesitar. Perdeu 11 quilos para ser campeão nacional outra vez… «Mais! Tinha 84,900 kg e estou com 71,900 kg... São 14 quilos», confirma.
Pensa que os vai recuperar muito depressa? «Espero bem manter-me assim. Prometo que vou manter-me assim. Mas foi um processo difícil. Foi engraçado, senti-me normal. Toda a vida estive em forma e ter de passar dos 84 para os 71 kg foi um processo longo e difícil, mas foi bom sentir que realmente não somos super-heróis, somos pessoas normais e também ganham peso, também passam pelo mesmo que os outros passam: dores nos pés, dores nas costas. Mas foi realizado com sucesso», completa, satisfeito.
Notei que estiveram cerca de sete dezenas de pessoas a assistir — deviam ser mais —, mas não quis trazer representantes oficiais do IPDJ ou o Secretário de Estado do Desporto, sendo o Nelson um dos portugueses campeões olímpicos e mundiais? «Tenho a agradecer ao Estádio Universitário, o presidente sabe o quão importante é este espaço para mim. Praticamente cresci aqui, foi cá, e no Jamor, que conheci o que é mesmo a pista, na pista. Tínhamos como objetivo que fosse simbolicamente aqui. E foi aqui. Agora, em termos de representatividade, não fui eu que fiz esses convites, não sei o que foi dito em relação a eles», explica.
A Seleção está toda a preparar-se para o Europeu, mas, por outro lado, não gostaria de ter a nata do atletismo português — embora haja muita gente de férias — no Último Salto? «Muitas pessoas foram-se despedindo de mim, sabem que um atleta com a minha idade não vai ficar. Acho que é melhor assim do que ser anunciado e tornar-se num grande evento. Foi à minha imagem: sou uma pessoa simples, não gosto de tanto alarido e emoção», vai contando.
«Já foi emotivo para mim, imagino como seria se isto estivesse cheio de pessoas… Até esteve mais gente do que esperava. Mas fui-me despedindo aos poucos e, sempre que as pessoas me viam na pista, era uma despedida. É uma despedida», reforça.
Mas estava a sua família, que era importante para si, e esteve a sua filha [Isabella], que andou a ensaiar um bocadinho consigo no aquecimento. Gostaria que ela seguisse o atletismo? E não diga o triplo salto. «Vou apoiá-la, mas ela vai fazer aquilo que quiser. Só quero que faça desporto. Vai depender dela. Não lhe vou esconder o atletismo, mas também não lho vou impingir. Primeiro fará atletismo para brincar e depois, se realmente quiser realizar alguma carreira, vai ter todo o meu apoio e vou ficar encantado», acaba por confessar.
«Mas, para já, não é algo em que pense. Ela adora saltar comprimento, partir de blocos e brincar ao atletismo porque, sempre que há oportunidade, vemos as provas na televisão. Mas fará o que quiser», garante novamente o quatro vezes medalhado em Mundiais ao ar livre e duas em pista coberta.
E o seu futuro, o que deseja agora para a vida? Continuar ligado à modalidade? Muitos saltadores — e não só — com o seu nível e experiência passaram para uma carreira de treinador. O próprio Nelson treinou com um em Madrid. É algo que o atrai? Gostaria de ser treinador um dia ou isso nunca lhe passou pela cabeça? «Vejo-me em vários projetos ligados ao desporto, e ser treinador é um deles. Não digo não a esse papel, mas terá de ser quando fizer realmente sentido para mim. Não quero seguir aquela ordem clássica ou estereotipada de que um grande atleta tem de ser um grande treinador», começa por declarar.
«Há pessoas que defendem que o atleta, assim que sai, deve entrar logo de cabeça em outros projetos para ter algo a realizar e não sentir tanto o baque do final da carreira. Acho que são decisões muito importantes, porque eu, o Nelson Évora, não sou só o atleta que salta. Sou muitas outras coisas, tenho muitas outras paixões. Por isso, é um período em que terei de refletir bastante bem sobre qual é a direção que vou tomar daqui para a frente, embora já haja muitas portas abertas para vários projetos. Não digo sim já a nenhum porque não tenho pressa. Prefiro refletir bem e ponderar, foi sempre desta maneira que fiz as coisas e fui ensinado. Quando me virem em algo, é para valer, é para fazê-lo bem», assegurou.
Ofereceu [sorteou] aqui algumas camisolas com que competiu, ou pelo menos da Seleção. Com certeza que as das medalhas de que falávamos estão guardadas e têm um significado especial. Mas deixou ali no chão os últimos sapatos com que saltou. Esses são para guardar? «Sem dúvida, sem dúvida.»
Num lugar especial em casa? «Sim, tenho um local onde os guardo, como sabem. Tenho lá os sapatos, a areia e os objetos de hoje. Estes são os objetos, os sapatos também», diz.
E a areia, já a recolheu? «Não, preciso de uma garrafa de água, mas vou recolhê-la». Quando o fez já havia pouca luz, a noite começava a tomar conta do Estádio Universitário e algumas horas mais tarde haveria de surgir um novo dia. A carreira de Nelson Évora terminara, começou outra nova etapa vida.