José Peseiro feliz na Arábia mas coração é português: «Não quero terminar a carreira...»

Após ter orientado Al-Hilal, em 2007, e seleção, entre 2009 e 2011, treinador luso lidera atualmente o Al-Ula e não esconde a ambição. A importância de CR7, claro, e a visão sobre o futebol nacional

COMO — Técnico português vai continuar ao serviço do Al-Ula, da Arábia Saudita, com objetivo de alcançar a subida de divisão que falhou na época passada... por um fio. Astro português mudou tudo na realidade árabe, naturalmente. Ribatejano está longe, mas muito perto da realidade lusa e com ideias claras sobre os três grandes e não só. Regresso a casa é difícil, nesta altura, mas não totalmente impossível.

— Vai para a segunda época no Al-Ula, clube onde chegou com a temporada passada em andamento. Fale-nos sobre este projeto na Arábia Saudita.

— Estou num projeto muito ambicioso do ponto de vista desportivo, mas que também apoia o desenvolvimento cultural. Durante o período em que estive à frente da equipa, fizemos uma média de 2,47 pontos por jogo, o que nos teria colocado em primeiro lugar, com oito pontos de vantagem sobre o segundo classificado. Acabámos ainda por perder três pontos, não por responsabilidade nossa, mas devido a um erro da federação. Informámos que um dos nossos jogadores tinha quatro cartões amarelos, mas disseram-nos que tinha apenas três. Aceitei treinar novamente na segunda divisão porque este é um projeto com qualidade, estrutura, organização e seriedade.

— Como vê a realidade do futebol saudita atualmente?

­— A realidade de hoje não tem nada a ver com aquela que encontrei em 2007 ou em 2010. A chegada de Cristiano Ronaldo coincidiu com uma forte aposta da Arábia Saudita no futebol e acabou por transformar profundamente a competição. Hoje existe muito mais organização, melhores relvados, melhores infraestruturas, jogadores de maior qualidade e uma competição muito mais forte, incluindo a segunda divisão.

— Tem uma carreira bastante preenchida. Ainda pensa em voltar ao futebol português?

— É difícil.

— Porquê?

— Depois de ter treinado clubes como o Sporting, o FC Porto, o SC Braga e o Vitória de Guimarães, não vejo como seja fácil regressar ao futebol português. Gostaria, naturalmente, mas não é simples.

Sporting foi o último clube português que Peseiro treinou (2018/2019) — Foto: IMAGO

— Há projetos de clubes em franco crescimento em Portugal. O Carlos Carvalhal, por exemplo, está agora no Famalicão. Um caso desses não poderia seduzi-lo?

­— Poderia, sim. O Famalicão é uma grande equipa e tem vindo a crescer muito. É verdade que já treinei clubes como o SC Braga e o Vitória de Guimarães, mas hoje existem outros projetos em Portugal que também despertam interesse para um treinador como eu. Neste momento, porém, não é nisso que estou a pensar. Talvez pense nisso no próximo ano ou quando terminar este ciclo, porque no futebol tudo pode acontecer. Há projetos muito interessantes. Falando do Famalicão, apesar de o Carlos Carvalhal estar há pouco tempo no clube, vi uma equipa muito organizada, com jogadores de qualidade e uma boa estrutura. Existem outros clubes portugueses com muita qualidade onde poderia trabalhar. Acompanho o futebol português. Voltar poderá ser uma possibilidade, até porque não quero terminar a carreira sem voltar a treinar em Portugal.

«RUI ALVES ANDA A 'CHATEAR-ME...'»

O percurso de José Peseiro tem tido marca bem vincada em vários clubes. E um deles foi o Nacional, que orientou, com muito sucesso, de 1999 a 2003. E as relações dessa altura mantêm-se fortes. «O presidente do Nacional [Rui Alves] anda a chatear-me todos os anos para vir terminar a carreira no Nacional. Tenho 66 anos e quero continuar a treinar, pelo menos, até aos 70, desde que mantenha esta vitalidade. Nem parece que tenho esta idade, mas isso resulta da paixão que continuo a sentir pelo futebol», assume, com um sorriso à mistura.

«Enquanto sentir essa paixão pelo futebol, estarei disponível para qualquer projeto. E há bons projetos em Portugal, disso não tenho dúvidas», afirma o técnico, natural de Coruche.

José Peseiro e Rui Alves tem uma história forte no Nacional — Foto: Diário de Notícias da Madeira

EQUILÍBRIO PROJETADO ENTRE OS TRÊS GRANDES

— Como perspetiva o próximo campeonato português? Quem lhe parece partir na frente?

— É sempre muito cedo para dizer quem é favorito. É verdade que, se o FC Porto voltar a ser campeão, dirão que era o favorito. Mas acredito que haverá muito equilíbrio entre Sporting, Benfica e FC Porto. Penso que será um campeonato ainda mais competitivo. Neste momento existem algumas dúvidas relativamente à consistência das equipas, porque o Sporting mudou bastante, embora tenha feito essas mudanças com muito critério. Na minha opinião, o Benfica já tinha um grande plantel na época passada, tanto em qualidade como em quantidade. Infelizmente, as coisas não correram como o clube pretendia. Já o FC Porto foi a grande surpresa. Talvez não tivesse o plantel mais forte em quantidade e, aparentemente, muitos consideravam que Sporting e Benfica tinham melhores opções. No entanto, acabou por ser campeão.

— E quanto às restantes equipas?

­— Espero que o SC Braga consiga dar continuidade ao futebol de grande qualidade que apresentou na época passada. Espero igualmente que os restantes clubes, apesar de terem menos recursos financeiros e menor capacidade para contratar jogadores, consigam tornar o campeonato português mais competitivo e mais bem jogado. Há algo que todos os treinadores portugueses têm em comum e pelo qual lhes tiro o chapéu: são extremamente competentes na preparação estratégica e tática de cada jogo. Os treinadores portugueses são muito inteligentes.

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