Prova arranca esta quarta-feira em Lisboa e termina a 16 de agosto no Porto

Duas Senhoras da Graça não chegam para fazer milagres

Dupla ascensão ao mítico monte Farinha promete espetáculo na etapa rainha, mas a duração e o calendário continuam a travar a pretendida dinamização do nível desportivo da prova, que arranca esta quarta-feira com prólogo em Lisboa

A Volta a Portugal prepara-se para ligar o país do Centro ao Sul e subindo ao Norte entre esta quarta-feira e o próximo dia 16, num traçado de 1430 quilómetros com partida em Lisboa e chegada ao Porto ao longo de dez dias e nove etapas, numa edição que os organizadores pretendem que seja a primeira de uma nova era na prova.

A escassos passos de celebrar um século de história desde a aventura inaugural em 1927, a corrida mais importante do calendário do ciclismo português renasce sob a batuta da empresa espanhola Emesport, liderada pelo icónico ex-ciclista galego Ezequiel Mosquera. O desafio é ambicioso: virar a página após os episódios de dopagem que ensombraram o passado recente, devolver a credibilidade à prova no pelotão internacional e, acima de tudo, reacender a paixão arrebatadora do público pelas bermas da estrada.

Do ponto de vista estritamente desportivo, contudo, o objetivo de cativar equipas e corredores de escalões superiores afigura-se como um longo e árduo caminho a percorrer pelo novo organizador. Esta ambição esbarra nos condicionalismos inerentes à elevada extensão da prova (10 etapas) e ao período do calendário em que se realiza, encaixada entre a Volta a França e a Volta a Espanha. Este posicionamento demove as grandes formações de apresentar as melhores opções: os ciclistas que alinharam no Tour encontram-se em fase de recuperação do esforço de três semanas, enquanto a elevada dureza e longa duração da corrida portuguesa não se enquadram no plano ideal de preparação para quem visa a Vuelta.

Russo Artem Nych, da Anicolor, (à esquerda na foto) defende os dois títulos consecutivos

Ainda assim, para tornar o espetáculo mais dinâmico, a nova organização apostou em desenhar um percurso mais abrangente no território continental e introduziu alterações cirúrgicas no escalonamento das etapas. A principal novidade reside no posicionamento do contrarrelógio individual, que surge logo à 5.ª etapa, no final da primeira parte da competição, antes do dia de descanso e depois da icónica chegada à Torre, na Serra da Estrela, forçando os candidatos à geral a exporem-se mais cedo. A tradição mantém-se viva com a Senhora da Graça, ao penúltimo dia. 

A competição vai reunir 119 ciclistas distribuídos por 17 equipas, destacando-se a estreia histórica da UAE Emirates, líder do ranking UCI e única formação do escalão WorldTeams em prova. A equipa árabe, que é cabeça de cartaz na estreia da organização, surge despojada de figuras de primeira e até de segunda linha, com exceção de Rui Oliveira, alinhando com um bloco maioritariamente jovem liderado pelo promissor ciclista catalão Adrià Pericas. 

Colombiano David Peña (à esq. na imagem), será candidato agora pela Efapel

Apesar da pretensão dos responsáveis da prova, por elevar o nível qualitativo do pelotão, neste primeiro ano a luta pela camisola amarela deverá voltar a restringir-se a equipas portuguesas e a corredores repetentes, com a Efapel motivada a conquistar o título e a contrariar o favoritismo da Anicolor-Campicarn, vencedora de três das quatro edições mais recentes. Sob a direção de José Azevedo, o conjunto laranja aposta no trepador colombiano Jesús David Peña (4.º em 2025) e em Tiago Antunes (5.º em 2025), a assumirem-se os principais rivais da experiente armada da Anicolor-Campicarn, sob direção desportiva de Rúben Pereira, e de novo liderada pelo fiável russo Artem Nych, vencedor em 2024 e 2025, e pelo francês Aléxis Guérin, segundo classificado no ano transato.

Serra da Estrela será palco de eleição da quarta etapa, com subida à Torre pela vertente da Covilhã

O contingente internacional conta ainda com as ProTeams espanholas Euskaltel-Euskadi - que inclui Txomin Juaristi, segundo em 2023 - e Burgos-Burpellet-BH, além das Continentais NSN Development Team (Suíça), Localiza Meoo-Swift (Brasil) e APS Pro Cycling e Meridian Racing (Estados Unidos). 

Contudo, a maioria dos diretores desportivos das equipas portuguesas (ver colunas nestas páginas) antevê que a principal oposição aos dois blocos mais fortes venha das formações nacionais, como a Tavira-Crédito Agrícola (liderada por Afonso Silva), a Credibom-LA Alumínios (com Emanuel Duarte), a Feira dos Sofás-Boavista (reforçada com Pedro Silva e Fábio Costa), a Feirense-Beeceler (com Abner González), a GI Group Holding-Simoldes-UDO (com Adrián Bustamante), além da caça a etapas por parte do Louletano e da Tavfer, numa edição que marca também a estreia da jovem Óbidos Cycling Team.

Promissoras novidades no percurso 

Serra do Gerês (com empedrado), sobe e desce no Douro e dose dupla (com terra batida) na Sra. da Graça: a nova organização promoveu ajustes profundos no traçado, tornando a prova mais curta (menos 151 km) e com uma altimetria acumulada de 24 mil metros.

-Início plano e regresso ao sul:

Regresso ao Alentejo e ao Algarve marcam as primeiras etapas

A Volta arranca com um prólogo de 6,5 km na Praça do Império, em Lisboa, segue com uma incursão pela Região Oeste, desde a Lourinhã e o final em Queluz, e prossegue com regressos ao Alentejo e Algarve em duas etapas propícias a chegadas ao sprint (Albufeira e Elvas).

Torre e o contrarrelógio 'surpresa'

Serra da Estrela não podia faltar e fará a primeira grande seleção

A primeira grande seleção ocorre na etapa 4, na célebre subida à Torre, na Serra da Estrela, pela vertente da Covilhã, e no dia seguinte, com o contrarrelógio individual de 17,4 km entre Anadia e Águeda, a forçar os favoritos a mostrarem trunfos antes do dia de descanso.

Polémica no Gerês e parte-pernas no Douro

A 7.ª etapa atravessa a Mata de Albergaria no Parque Nacional da Peneda-Gerês, área ecológica cuja passagem será interditada ao público após fortes críticas de associações ambientalistas aceites pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), incluindo ainda a dura subida empedrada ao Alto de Germil. No dia anterior, etapa bastante exigente em sobe e desce constante pelas veredas do Douro Vinhateiro, com final na Régua; e no dia seguinte ao do Gerês uma chegada seletiva a Fafe.

Duas subidas à mítica Senhora da Graça, a primeira por nova vertente com um quilómetros em terra batida (foto Rodrigo Rodrigues)

A inédita dupla no Monte Farinha

A penúltima etapa (9.ª, dia 15) promete ser decisiva: antes da tradicional chegada ao Santuário de Nossa Senhora da Graça, o pelotão enfrenta uma inédita ascensão ao Alto de Carvalhais por outra vertente, com 9,5 km a 6,8% de inclinação, o último em terra batida.

Final agitado na Invicta

À imagem das duas últimas edições do Tour, com a tradicional etapa última de consagração e dedicada a um final para sprinters a dar lugar a um explosivo e espetacular circuito em Montmartre, a última tirada (Maia-Porto) culmina igualmente em três desafiantes passagens pelos centros históricos do Porto e de Vila Nova de Gaia, complicando a vida aos sprinters na Avenida dos Aliados.

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