Despenalização de Bolagun fez correr muita tinta
Despenalização de Bolagun fez correr muita tinta - Foto: IMAGO

Mais um dia no escritório da FIFA

'The Big Picture - o Mundial que não se vê' é o espaço de crónica diário durante o Campeonato do Mundo de Luís Mateus, editor-executivo de A BOLA

Um dia sem Mundial. E sem o barulho da bola, do golaço e da festa, o que é negativo ainda mais ecoa. Propaga-se pelo ar. Hoje, já depois de um Balogun sem chama, esmagado pelo fardo da injustiça que lhe colocaram às costas, ter sido eliminado e, com ele, todas as ilusões empoladas por Mauricio Pochettino, ainda criticamos, chocados, a ingerência da Casa Branca.

Ao argentino não terá faltado também quem apontasse o dedo. Não terá sido karma, por aceitar algo tão profundamente errado, atirando-se bem para fora de pé? Quantos não terão mudado de trincheira para o lado belga ao ver que o técnico tentava escapar ao desportivismo, moldando-lhe a forma consoante os seus interesses.

Se o ator principal muda quase sempre, quem está inequivocamente do lado errado da ingerência, aquele que a consente, não. Chama-se FIFA e, ainda que se julgue uma estrela e não veja que se transforma numa supernova, é apenas um astro dentro de outro, com as suas próprias leis. Muito mais maleáveis. Contornáveis. Criadas para o bem próprio e não para o bem maior. É assim que se promovem jantares de árbitros com Mussolini em 1934, que 'seu' Mané Garrincha, suspenso, joga a final de 1962, que o boicote africano em 1966 acaba por garantir vaga direta para uma seleção africana, que se apenas se estranhem, sem questionar, os 6-0 da Argentina a um bom Peru, resultado que afasta o Brasil da final em 1978.

Depois, as escolhas da Rússia e do Qatar, em que, no segundo caso, até obrigam a recalendarização do evento, porque o calor não tinha sido argumento suficiente para impedir jogos, imaginem, ali ao lado do deserto. Apenas o dinheiro, o petróleo, os acordos comerciais interessavam. Aquilo que hoje escandaliza o planeta, e porque é Trump escandaliza ainda mais, com aquela imagem de impunidade, que se associa e exponencia cada barbaridade saída da sua boca, é apenas mais um dia no escritório para o organismo. Que há demasiado tempo, mesmo com todas as acusações de corrupção que abanam desde sempre as fundações do jogo, perdeu o bom senso.

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