Com Roberto Martínez, Portugal conquistou a Liga das Nações, mas ficou-se pelos 'quartos' no Euro e pelos 'oitavos' no Mundial - Foto: IMAGO
Com Roberto Martínez, Portugal conquistou a Liga das Nações, mas ficou-se pelos 'quartos' no Euro e pelos 'oitavos' no Mundial - Foto: IMAGO

A seleção mais sem sal da história

Na mais indolor derrota de Portugal fica a melancolia de uma oportunidade perdida. Mais uma…Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal do meu Livro do Desassossego

A Praça do Comércio, bem no centro de Lisboa, ficou vazia num ápice. A debandada começou no golo da Espanha e acelerou após o apito final. Portugal cai nos oitavos do Mundial.

Que estranho… Entre milhares de pessoas, ninguém protestou, ninguém insultou o selecionador ou os jogadores, ninguém exigiu que tomássemos posse de Olivença para salvar a honra … Nem um coro de assobios para disfarçar. Nada! No autocarro onde entrei, e que estava à pinha, conversas banais. Quase parecia estar numa outra dimensão. Apeteceu-me gritar: mas vocês têm a noção de que Portugal perdeu?

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Não disse nada porque depois percebi que eu próprio estava a viver a mais estranha e indolor derrota da Seleção. Mesmo durante o jogo, o ambiente foi entre o morno e o frio. Ninguém ficou surpreendido com o golo de Espanha. Ninguém o achou injusto. Os males estavam lá todos à mostra. Afinal, nada se aprendeu, nada mudou. E nem deu para sofrer... O filme estava à frente dos nossos olhos desde o jogo com a RD Congo. Foi a competição, que me lembre – e já tenho idade para lembrar de muito – em que uma seleção de Portugal menos puxou pelos adeptos. E vice-versa.

Mais uma oportunidade perdida. Não tivemos um condutor com mãozinhas para este Ferrari? Ou andamos todos iludidos e, afinal, não passamos de um utilitário? Talvez a meio, um topo de gama com peças trocadas e mal montadas.

Quando vejo esta seleção, vejo um Hamlet de chuteiras. No génio de Shakespeare, Hamlet não é um homem limitado pelas circunstâncias nem pela falta de capacidade. Mas pensa demasiado, hesita demasiado e espera demasiado. Enquanto decide, o tempo passa. Enquanto pondera, outros agem. Quando finalmente se move, o momento ideal já desapareceu.

Há seleções que perdem porque são inferiores. Há seleções que perdem porque o adversário teve um dia melhor, teve a estrelinha, destacou-se no pormenor. E depois há equipas que perdem porque, apesar de terem jogadores, qualidade e experiência para discutir a história, entram nos grandes jogos como se estivessem à espera de autorização para serem grandes. Ou às espera de saber como reproduzir em campo essa grandeza.

A tragédia de Hamlet não é morrer. A tragédia de Hamlet é o leitor passar toda a obra convencido de que ele podia ter sido muito mais do que foi. Talvez seja essa a sensação que fica quando se olha para certas gerações douradas do futebol português, em especial esta: não a dor da derrota, mas a melancolia da possibilidade perdida.

O futebol perdoa a falta de talento, não perdoa a falta de ideias, a hesitação, a falta de audácia e de desejo. Não ajuda quem não sabe por onde vai. Não ajuda quem ou não se vê grande ou não sabe o que fazer com a sua grandeza.

Martínez foi um tiro falhado. Que termina a falar de coisas que ninguém viu. A querer escrever um legado que não existe. Que não deixa. Que venha Jorge Jesus. Uma ideia que comecei por estranhar, sempre o vi como um animal de treino, jogo, balneário, dia a dia com os jogadores. É possível que arranje uma ou outra confusão, que se meta onde não é chamado, até que se incompatibilize com um ou outro jogador. Vai ter epifanias que só ele vê… Mas é treinador. E tem ideias. E não pede autorização para as aplicar. Portugal vai ter uma ideia e vai jogar futebol. Não digo que vai jogar o dobro ou o triplo, porque o dobro de zero… zero continua a ser.  Podemos até falhar de novo. Mas vamos falhar a tentar, não a ser Hamlet: «Ser ou não ser… Eis a questão»

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