Supremacia europeia
Iniciam-se hoje, com o França-Marrocos, os quartos de final do Campeonato do Mundo de 2026. E quem são os oito magníficos que chegaram a esta fase adiantada da prova? Seis seleções europeias, uma africana e uma sul-americana. Há quatro anos houve cinco europeias, duas sul-americanas e uma africana (Inglaterra, França, Argentina e Marrocos voltam a estar nos ‘quartos’), e há oito anos apuraram-se seis europeus e dois sul-americanos.
Em 2026, há uma particularidade que não pode deixar de ser realçada: das duas seleções não europeias em prova, os ‘Leões do Atlas’ não têm apresentado jogadores nascidos em Marrocos; são, sim, descendentes de emigrantes, formados no futebol europeu. Nos ‘Albicelestes’, apenas um, entre os titulares, joga na Argentina — Paredes, do Boca Juniors (regressou ao país há um ano, depois de dez épocas na Europa) —, havendo ainda, além dos que atuam no Velho Continente, dois no Inter de Miami.
Assim, é a UEFA, que apresenta, todos os anos, a melhor competição do Mundo, a Liga dos Campeões, e é no espaço UEFA que evoluem aqueles que, de quatro em quatro anos, brilham no Campeonato do Mundo. Será demais dizer que, atualmente, a Europa é a locomotiva do futebol mundial? Não creio. A isto é possível acrescentar — porque a cultura futebolística europeia impera — que temos assistido a uma padronização do jogo, esbatendo-se, cada vez mais, as especificidades regionais que nos faziam dizer, quando alguém era bom de bola, que parecia ‘argentino’; ou admirar o ‘passa, ripassa e chuta’ dos brasileiros; ou mesmo a anarquia tática dos africanos, que ‘partiam’ os jogos e transformavam-nos em momentos de grande espetáculo.
Perante este quadro, será que a UEFA tem, no contexto da FIFA, um peso correspondente ao que realmente ‘vale’ no futebol mundial? São 211 as federações nacionais nos Congressos da FIFA, com direito a um voto cada (a Inglaterra e Vanuatu têm o mesmo peso eleitoral — é uma espécie de ONU sem membros permanentes do Conselho de Segurança), o que torna muito fácil, a quem detém o poder, criar condições para ser reeleito. É por isso que, apesar de ter sido indicado, em 2015, pela UEFA, Gianni Infantino tem tido federações de outras paragens entre aqueles que lhe garantem, sem problemas, a manutenção no cargo, a ponto de ser afrontado por Ceferin: quem vai arbitrar a final da Supertaça Europeia é o somali Omar Artan, escolhido pela FIFA para o Mundial, e impedido de entrar nos Estados Unidos…
* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…