Antigo jogador do Benfica admitiu que ficou «triste» quando Mourinho afirmou que «faltava qualquer coisa» para que pudesse desempenhar as funções de lateral nas águias. «Honestidade», ainda assim, foi exaltada

«Assinei pelo Benfica, estava no carro com a minha namorada e comecei a chorar»

Sidny Lopes Cabral recorda seis meses na Luz marcados por brilho inicial, episódio polémico e parca utilização final. Créditos para o «honesto» e «direto» Mourinho, Otamendi... e Prestianni

Sidny Lopes Cabral vive dias felizes após campanha surpreendente de Cabo Verde na estreia em Mundiais e a  transferência para o Trabzonspor. O conto de fadas norte-americano contrastou com o tempo de jogo diminuto no final da passagem pelo Benfica, com apenas 14 minutos somados nos últimos 11 jogos. As portas do futebol turco abriram-se ainda antes do Mundial, cerca de seis meses depois de ter assinado pelos encarnados. 

O antigo jogador das águias, em conversa com vários meios de comunicação social, relativizou peso do pedido de camisola a Vinícius Júnior, elogiou antigos colegas de equipa e... e chamou um para a Turquia.

— Sente que a passagem pelo Benfica foi demasiado curta?
— Não. Claro que o Benfica é um clube fantástico. Mas, dado o interesse e o plano que o Trabzonspor tem para mim, é uma grande oportunidade para me mostrar ao mais alto nível. Acredito que o plano que o Trabzonspor tem é o melhor para mim neste momento.

— Foi útil ter decidido o futuro antes do Mundial?
—Foi ótimo para mim ter decidido juntar-me ao Trabzonspor antes do Mundial. Eles queriam formar a equipa o mais cedo possível e focar-se na próxima época. Acredito que vai ser uma excelente época e vamos alcançar muita coisa. Temos uma excelente equipa com excelentes jogadores. Por isso, acredito piamente que vamos fazer um excelente trabalho na liga turca e na Liga Europa.

—  Antes do Mundial disse que amava o Benfica e pretendia ficar. Ficou surpreendido por sair?

— Não. Honestamente, a oferta que o Trabzonspor fez também foi excelente para o Benfica. Só estive lá durante seis meses e a oferta que fizeram mostrou o quanto confiam em mim. O clube abordou-me com um excelente plano, não podia dizer não.

— Teve um bom início no Benfica, mas jogou apenas 14’ nos últimos três meses da época. Como é que reagiu ao decréscimo do tempo de jogo?

— Trabalhei todos os dias. Foi um período difícil, honestamente, mas a minha família esteve sempre lá para mim. Quando voltava do treino, divertia-me em casa com a minha namorada, com os meus amigos, com a minha família. Não estava em casa a dar cabo da cabeça devido à minha situação. Trabalhei sempre no duro, fiz a minha parte, depois dos treinos corria para estar pronto para o Campeonato do Mundo, porque na minha mente pensava ‘Esta não é a melhor situação, tenho de me focar em mim e no Campeonato do Mundo’. Dei o meu melhor todos os dias. Foi também o que o Mourinho me disse, que tinha de treinar arduamente e não perder a cabeça, porque as situações podiam mudar muito depressa.

— Como caracteriza a relação que teve com José Mourinho?

—Ele é direto, engraçado e foi sempre honesto comigo. Foi ele que me trouxe para o Benfica. Num jogo perguntou-me: ‘Estás pronto?’. Disse que sim e ele respondeu ‘Estás pronto para matar ou estás apenas pronto para jogar?’. Disse ‘estou pronto para matar’ e fui homem do jogo [Benfica 4-0 Estrela da Amadora, a 25 de janeiro]. Quando não joguei bem, ele vinha ter comigo depois do jogo e dizia: ‘Ontem foste uma m****foca-te no treino, treina melhor’. Foi sempre divertido.

— Como é que se sentiu depois de Mourinho ter dito publicamente que «faltava qualquer coisa» para que pudesse jogar a lateral esquerdo no Benfica?

— Claro que me senti triste porque a minha melhor posição foi sempre a de lateral esquerdo. Mas o facto de um treinador como o Mourinho dizer-te que não estás pronto para jogar a lateral esquerdo no Benfica é ótimo. É melhor do que se ele não me tivesse dito nada e eu não jogasse. Ele disse-me em que é que me tinha de focar e no que é que tinha de evoluir, isso esteve sempre na minha cabeça desde aquele momento. Fez de mim um jogador muito melhor e agradeço a honestidade dele.

—  Como é que reagiu ao interesse do Benfica em janeiro?
— Estava com o meu irmão. Estou habituado a que muitos clubes se interessem por mim, mesmo na Alemanha todos os anos havia seis interessados, no Estrela também. Mas quando o disse Benfica, fiquei: ‘O quê? Estás a mentir’, não acreditei nele. Fiquei tão feliz, fui para casa e contei à minha namorada. Ficámos muito felizes porque viemos de tão longe, de viver num apartamento pequeno. Depois de assinar contrato com o Benfica, estava no carro com a minha namorada e ela disse ‘Tens noção do que fizeste?’. Comecei a chorar.

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— O que é que o impressionou mais quando chegou ao Benfica?

—  Fiquei impressionado com muitos jogadores, mas tenho de destacar a técnica do Schjelderup e a ética de trabalho do Otamendi. Era o nosso capitão, ganhou o Mundia, era quem tinha mais experiência. Estava lá para todos os jogadores, nos bons momentos e nos difíceis. Além da qualidade dos jogadores no treino, destaco os adeptos. São fantásticos. O Benfica é um clube muito grande, nem sequer tinha noção, os adeptos estão em todo o lado. O Benfica é um grande clube com muitos adeptos.

— Qual foi o melhor momento de águia ao peito?

— Assinar contrato e estrear-me na Liga dos Campeões [contra o Real Madrid, a 17 de fevereiro].

— E o pior?

— O que aconteceu depois do jogo fora contra o Real Madrid [pedido de camisola a Vinícius Jr., a 25 de fevereiro]. Foi um período difícil.

O momento em que Sidny pede a camisola a Vinícius Jr. - Foto: IMAGO
O momento em que Sidny pede a camisola a Vinícius Jr. - Foto: IMAGO

— Foi represendido por algum elemento do Benfica no balneário?
— Ninguém falou sobre isso. Alguns jogadores perguntaram-me mesmo depois de cinco ou seis semanas ‘Como estás a aguentar? Como está a tua cabeça? Não te preocupes, és um grande jogado’. Tudo o que saiu nas notícias era falso.  A minha relação com os meus colegas de equipa foi sempre boa, nunca houve problemas. Claro que era mais próximo de uns colegas do que de outros, mas isso é normal no futebol. Dava para ver que quando estava no clube, que eu não era eu próprio, estava um pouco em baixo com a situação e a forma como as pessoas respondiam no instagram. Como jogador, vês tudo. Não respondes, mas vês tudo o que se passa na internet. Mas os jogadores apoiaram-me sempre e disseram ‘sê forte, não te preocupes com isso"'. Estiveram sempre a apoiar-me, por isso a minha relação com os meus colegas de equipa foi sempre boa.

— De quem é que era mais próximo no Benfica?

— O Lukebakio.

— A relação com o Prestianni continuou boa após o pedido da camisola?
—Sim, sempre. O Prestianni é um bom rapaz. Brincávamos sempre. Claro que o que aconteceu não era suposto acontecer, mas a relação com ele foi e continua a ser boa.

— Como é que reagiu às notícias do interesse do Trabzonspor nele? Gostava de voltar a ter o Prestianni como colega de equipa?
—Sim, tomara que ele venha. É um excelente jogador, tem excelentes qualidades e acho que vai ajudar muito a nossa equipa no ataque com a energia e a qualidade dele. Mal posso esperar para me divertir com ele novamente.

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