Caso Prestianni/Vini Jr.: o que diz o protocolo da UEFA
Minuto 51:27 do Benfica-Real Madrid da primeira mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões. Vinícius Júnior vai ter com o árbitro do encontro, o francês François Letexier, e aponta para Gianluca Prestianni, denunciando o internacional argentino do Benfica por um alegado insulto racista: «Mono» (macaco em castelhano).
Ao ouvir a queixa de Vini Jr., Letexier fez imediatamente um gesto na direção da bancada principal do Estádio da Luz, mas também do quarto árbitro, do delegado da UEFA e dos bancos de suplentes. O juiz francês cruzou os braços pela zona dos pulsos, à altura da cabeça: estava ativado o protocolo da UEFA para casos de racismo.
O gesto coloca em andamento, desde logo, um procedimento adotado pela UEFA em 2019. «De acordo com as orientações em três passos da UEFA, primeiro o jogo será interrompido e será emitido um aviso público. Depois, o jogo será suspenso durante um determinado período de tempo. Por fim, e num trabalho em parceria com os agentes de segurança, o jogo será abandonado, caso os comportamentos racistas não tenham terminado. Neste caso, a equipa responsável perde o encontro», refere a resolução «Futebol Europeu unido contra o racismo».
Mas o gesto do árbitro serve também para ativar um trabalho mais invisível, por assim dizer. «Não serve apenas para alertar para aquilo que aconteceu, ou aquilo que foi dito que aconteceu – como dá para ver pelas imagens, o árbitro francês não estava perto do incidente e não ouviu. O gesto pede logo ao VAR que vá consultar o registo áudio, para ver se algum microfone apanhou alguma coisa. Informa automaticamente os assistentes e o quarto árbitro sobre aquilo que está a acontecer», explicou, na emissão da CBS Sports, a especialista Christina Unkel, antiga árbitra da FIFA e agora advogada e presidente do clube Tampa Bay Sun.
«Com aquele gesto toda a gente salta para um nível mais elevado de ação, no que diz respeito a procurar algo que confirme aquela alegação. Não pode encarado de forma leviana pelos árbitros», acrescentou.
Neste caso a equipa de arbitragem não encontrou provas para atestar a denúncia, mas Christina Unkel explicou que o gesto de Letexier «é também um sinal para a competição, para o delegado do jogo, relativamente ao momento em que sucede, de forma a que possa começar a fazer o relatório do incidente e depois tentar obter alguma evidência».
«O árbitro tem sempre a decisão de continuar com o jogo ou não. Ver se o ambiente é seguro ou não. Mas, a não ser que ele ouvisse algo, não pode tomar a decisão de abandonar o jogo com base na palavra de uma pessoa contra a palavra de outra, partindo do pressuposto de que não há qualquer evidência de que o árbitro ou alguém tenha ouvido», reforçou a especialista norte-americana.
O jogo foi retomado e concluído, mas a bola está agora do lado da UEFA, que investigará o caso. «Até pode surgir algo que não foi possível obter no imediato, através dos microfones que o VAR tem. Agora é a investigação a determinar. São esses os próximos passos, perceber se há alguma que possa justificar uma ação. Mas isso já sai da esfera do árbitro e passa para quem gere a competição», concluiu.
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