«É um desafio olhar para o desporto além do futebol», assume n' A BOLA a CEO da Shire Sports que se encarrega do outro lado da carreira. «Somos facilitadores na gestão do dia a dia»

Foi afilhada de Eusébio e mulher de Pacheco, agora gere carreiras no desporto

Cristina Moreno, CEO da Shire Sports, quer potenciar a imagem de atletas e encarrega-se do outro lado da carreira. «Somos facilitadores na gestão do dia a dia»

São várias camisolas que espelham o sonho de quem quer vingar. Não apenas no futebol. No desporto. Pany Varela, Tunha ou Paçó, do futsal, João Rodrigues e Ana Catarina , do hóquei em patins, Carlos Andrade, do basquetebol, ou Rute Costa, do futebol feminino. Todas estão em destaque nas instalações da Shire Sports, empresa de agenciamento de atletas, da qual Cristina Moreno é CEO.

«Achamos que o desporto vai muito para além do futebol. Quando começámos era esse o nosso objetivo: tirar o foco da modalidade que já tem tanto. O futebol é onde toda a gente quer investir. É onde há maior notoriedade. Nós somos uma empresa com três anos e meio e os grandes tubarões já estavam muito implementados no futebol masculino. Nós optámos logo por um investimento no futebol feminino. Começámos por aí, mas quisemos também chegar a outras modalidades, como o andebol. Temos o João Pinto [antigo internacional português] e queremos investir mais, porque é uma modalidade com enorme potencial e por isso também temos connosco o Salvador Salvador. Há modalidades onde é mais difícil alcançar um retorno financeiro, mas acaba por não ser esse o nosso objetivo principal.»

Consciente que «nenhuma empresa consegue sobreviver sem ter retorno financeiro», Cristina Moreno explica o que a faz acreditar que pode fazer diferente. «A Shire Sports acredita mesmo no desporto e quer que as pessoas e os atletas evoluam. Queremos que os nossos atletas se foquem na performance, enquanto nós seremos facilitadores na gestão de tudo aquilo que faz parte do dia-a-dia deles», começa por dizer, clarificando o raciocínio. «A maior parte das pessoas olha para eles quando estão no auge, mas esse auge também lhes traz muito medo. É um desafio olhar para o desporto além do futebol.»

Esta equipa de agenciamento quis dar-se a conhecer depois de ter sido criada durante a pandemia de Covid-19, quando ganhou mais projeção no mercado da criação de quadros táticos para treinadores, de diversas modalidades. Dos quadros táticos para o agenciamento foi um salto, estratégico, com destaque no futebol feminino. «As atletas femininas já começam a valer. Os mercados internacionais começam a ter olho nelas, porque a nível europeu já têm alguma notoriedade. Não é só a Arábia Saudita que está interessada, também os Estados Unidos, por exemplo, já começam a olhar para as atletas porque querem investir. A Andreia Faria [transferida para o Al Nassr] é um dos casos. Ela está a adorar a experiência. A cultura é muito diferente, mas ela respeita-a e não sente nenhuma condicionante.»

«Carlos Queiroz aniquilou a vida do Pacheco, cortou-lhe autenticamente as pernas»

Cristina Moreno é o rosto da determinação. Cresceu como afilhada de Eusébio, orgulhosa do sucesso do Pantera Negra. Apaixonou-se por António Pacheco, extremo que no final dos anos 80 e início de 90 se destacou no futebol nacional. Depois de dar nas vistas no Portimonense, em 1986/87, foi contratado pelo Benfica, no qual durantev seis épocas conquistou dois campeonatos, uma Taça de Portugal e uma Supertaça. Participou ainda em duas finais europeias, que perdeu, frente a PSV e Milan. Pacheco representou por seis ocasiões a Seleção Nacional. Cristina acompanhou-o em toda a carreira e recorda o quanto traumatizante foi a transferência para o Sporting, no Verão Quente de 1993, quando trocou o Benfica pelo Sporting.

«Foi uma aprendizagem e tinha a pessoa certa ao meu lado para viver aquilo. O António sabia muito bem o que queria. Mais tarde houve um arrependimento, que ele próprio assumiu, mas fez aquilo com o intuito de crescimento. Então, toda a envolvência do País não conseguiu perceber isso. Naquela altura foi extremamente condenável. Incomodava-me, mas ele dizia-me sempre para não me deixar incomodar. As pessoas insultavam-no, furaram-lhe os pneus, riscaram-lhe o carro... Fomos ofendidos a toda a hora. Ele sofreu mais por não ter conseguido ter tanto protagonismo no Sporting por todas as condições que se criaram», recorda-nos.

Pacheco trocou o Benfica pelo Sporting no  Verão Quente de 1993

O célebre verão em que Pacheco decidiu, juntamente com Paulo Sousa, rescindir de forma unilateral o contrato com o Benfica e assinar pelo Sporting, reclamando salários em atraso, marcam-lhe a história de vida. Pacheco representou os leões durante duas épocas, conquistando uma Taça de Portugal, mas perdeu espaço em Alvalade com a chegada de Carlos Queiroz. Cristina não tem dúvidas em apontar o culpado. «O professor Carlos Queiroz aniquilou a vida do António, cortou-lhe autenticamente as pernas. Lembro-me de uma vez ele ter perguntado ao professor por que tinha feito aquilo e ele respondeu: ‘Por nada de especial.’ Quando o António morreu, estive tentada a fazer essa pergunta ao professor Carlos Queiroz. Houve uma vontade de aniquilar a carreira de uma pessoa. A tristeza do António relativamente ao futebol começou com o professor Carlos Queiroz, não tenho dúvida nenhuma.»

Pacheco e Queiroz já tinham tido «alguns atritos na Seleção» antes de se cruzarem em Alvalade e de viverem momentos que, segundo Cristina, marcaram negativamente a vida do malogrado futebolista, que deixou de jogar com uma mágoa que o marcou até ao fim da vida.

«Ele sempre achou que poderia ter dado mais e não lhe deram essa oportunidade. O orgulho dele também falou mais alto. Se houvesse uma estrutura que olhasse para aquele atleta, que na altura tinha muito potencial, teria sido diferente. O protagonismo dele foi muito usado por outras pessoas. Poderia ter sido tudo muito mais fluído se houvesse alguém a gerir-lhe a carreira e a aconselhá-lo. Dou muitas vezes exemplos vividos por mim a atletas que não querem aproveitar oportunidades, seja por um relacionamento ou por não quererem sair de Portugal. Eu digo-lhes: ‘aproveitem a oportunidade, o tempo passa depressa’.»

«Eusébio foi o primeiro a perceber o marketing»

A vida pessoal deu a Cristina Moreno uma experiência que, acredita, a tornará melhor profissionalmente. «O Eusébio se calhar foi a primeira pessoa aqui na Europa a ter uma real noção da importância do marketing desportivo à volta dele. O Eusébio jogava muito, tinha muito protagonismo, e depois teve a oportunidade de ter esse crescimento e toda essa envolvente de marca que ainda hoje é potenciada. Ele tinha um pavor enorme de andar de avião, transpirava imenso, mas tinha noção do estatuto que tinha conquistado e tinha de voar», frisa, sublinhando que ainda há muito por explorar. Há que acreditar. Sem hesitações.

«Portugal é um país que ainda tem um grande potencial. O desporto continua a salvar vidas, por isso, não desistam. E não olhem para as agências ou agentes como pessoas que só querem tirar dinheiro, porque nós damos o nosso melhor para que os atletas tenham uma carreira brilhante e se possam focar verdadeiramente na parte desportiva», deixa bem vincado.