Em dia de aniversário, Kristin roubou ao SC Marinhense o presente e o passado, depois de ter visto ruir o mítico Pavilhão da Embra

Kristin fez ruir pavilhão mítico! «Parte da minha vida abateu-se aqui»

Em dia de aniversário, Kristin roubou ao SC Marinhense o presente e o passado. O futuro é uma incógnita, mas não falta força às gentes da Marinha Grande para recomeçar do zero, depois de ter visto ruir o mítico Pavilhão da Embra

Alberto Maia caminha lentamente entre destroços. E nem é tanto a irregularidade do que pisa que lhe trava o passo. É o peso do sentimento. Isso é que lhe derruba o ânimo e o faz arrastar os movimentos.

Vista aérea do Pavilhão da Embra, destruído pela depressão Kristin -Foto: SC Marinhense
Vista aérea do Pavilhão da Embra, destruído pela depressão Kristin -Foto: SC Marinhense

Afinal, aquele homem de 75 anos calca agora paredes que ajudou a erguer quando era um miúdo cheio de sonhos. Quando nem percebia bem o que era isso de «um pavilhão». Sabia apenas que não havia nenhum num raio de muitos quilómetros. E que aquela estrutura que estava a ajudar a construir ia permitir substituir o rinque onde lançava ao velho cesto com os rapazes da idade dele.

Para se conseguir ver céu do sítio exato onde estamos agora com o senhor Alberto, é preciso recuar a 1964 quando ele, criança, andava por ali com os pedreiros a colaborar no que conseguia fazer.

Pavilhão da Embra quando estava a ser construído, na década de 60 Foto: SC Marinhense

«Para nós, estar a ajudar a construir isto era uma forma de diversão. Trazíamos a areia, o cimento. Acartávamos tijolos, amassávamos a massa», enumera.

Agora, é possível voltar a ver o céu dali. Mas é um céu que chora. Um céu que tornou demasiado escuros os dias. Que arrastou penosamente a última semana, desde que a depressão Kristin varreu, literalmente do mapa, a casa do Sporting Clube Marinhense.

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No dia do aniversário do clube! No dia em que o SC Marinhense chegou aos 87 anos, uma tempestade roubou-lhes o presente.

«A minha vida e a minha alma estão aqui desde o nascimento deste pavilhão. A forma como vi isto na madrugada de 28 para 29 de janeiro… Quando saí de casa às 6 da manhã e vi este drama terrível, parte da minha vida abateu-se aqui nesta catástrofe quando caiu este pavilhão», confidencia, com dificuldade em segurar as lágrimas.

Alberto Maia ajudou a construir o Pavilhão da Embra, onde jogou basquetebol e continua a ser treinador - Foto: Miguel Nunes
Alberto Maia ajudou a construir o Pavilhão da Embra, onde jogou basquetebol e continua a ser treinador - Foto: Miguel Nunes

E esse sentimento de perda não muda com o avançar dos dias. Não há cura para a ferida aberta pelo ruir daquelas paredes que lhe guardavam tantas histórias, alegrias, sorrisos e mesmo desilusões.

«Passo aqui todos os dias porque moro aqui ao lado. Saio daqui para o trabalho, do trabalho venho para aqui. Todos os dias venho ao clube e é uma amargura imensa. Uma amargura que nos abate de uma forma física e psicológica. Não há remédio que nos possa curar de uma catástrofe como esta», lamenta.

Uma tabela de basquetebol entre os destroços do pavilhão do SC Marinhense - Foto: Niguel Nunes
Uma tabela de basquetebol entre os destroços do pavilhão do SC Marinhense - Foto: Niguel Nunes

Não há recanto ou história do pavilhão da Embra que Alberto não saiba de cor. Um conhecimento que vem dos anos em que aquela foi «muitas vezes a primeira casa, nem sequer a segunda».

O menino que jogava basquetebol a poucos metros dali, fez parte da primeira equipa da formação do Marinhense, criada em 1961. Cresceu rapaz a lançar aos cestos do novo pavilhão, e foi envelhecendo como jogador, treinador e sempre, mas sempre, adepto na bancada.

Teto caiu sobre jogadores
A poucos metros do pavilhão da Embra ficam as instalações que abrigam alguns jogadores de fora da Marinha Grande que representam o SC Marinhense. E três deles não ganharam para o susto. Somachi Agbapu, Luckeny Alberto e Nic Thomas não ganharam para o susto, quando o telhado voou. O último, norte-americano, viu mesmo o teto cair em cima da cama onde dormia. E perante o susto, ao fugir da casa, fez uma entorse no tornozelo que o vai afastar da competição durante algumas semanas. Já Luckeny além do pânico provocado pela situação, leva do episódio braços e pernas cortadas por uma porta de vidro quando tentava refugiar-se na casa que abrigava os jogadores de hóquei do clube. Os dez jogadores que viviam junto ao pavilhão foram abrigados, entretanto, numa casa em Leiria.
O teto do quarto onde dormia um dos jogadores da equipa de baquetebol cedeu durante a tempestade - Foto: Miguel Nunes
O teto do quarto onde dormia um dos jogadores da equipa de baquetebol cedeu durante a tempestade - Foto: Miguel Nunes

«Vim aqui, espreitei e tive de ir embora»

Lado a lado com Alberto, caminha João Frade. Com o mesmo peso no andar. Com uma carga semelhante na alma. As histórias de ambos confundem-se com a do pavilhão da Embra. Ou vice-versa. São existências difíceis de separar.

João Frade jogou em várias equipas de hóquei do SC Marinhense, foi treinador e é mecânico da equipa atual - Foto: Miguel Nunes
João Frade jogou em várias equipas de hóquei do SC Marinhense, foi treinador e é mecânico da equipa atual - Foto: Miguel Nunes

Também ele mini-servente na construção. Igualmente jogador desde criança, mas com os patins calçados, com carreira sénior, longo percurso como treinador e, mais recentemente, mecânico da sua equipa de hóquei. Claro, e adepto de todas as horas.

«Andei aqui quando era puto a dar serventia aos pedreiros. Não havia suficientes para uma obra destas. E joguei aqui desde os 13. Estreei-me na equipa sénior aqui neste piso, contra o Benfica, e o resultado ainda aqui está na memória: empatámos 17-1», brinca, a tentar sorrir, apesar da dor que se percebe que lhe tolda a voz.

Se Alberto veio ver o que tinha acontecido logo na madrugada fatídica, João confessa que só conseguiu fazer aquele caminho, que tantas vezes percorreu de sorriso no rosto, ao fim de três dias.

«Só vim na sexta. E mesmo assim, espreitei ali por aquela porta e tive de me ir logo embora», diz, acompanhando com um gesto como quem desabou.

«Não consigo, sou franco. Custa muito», acrescenta, com a voz embargada. «Esta é só a segunda vez que venho aqui. Mas isto há de passar. Tem de passar. Há de se fazer de novo. E há muita malta com vontade, mas se não houver apoio do Estado, acho que não vai chegar», antecipa.

Uma baliza de hóquei em patins entre os destroços do pavilhão da Embra, destruído pela depressão Kristin - Foto: Miguel Nunes
Uma baliza de hóquei em patins entre os destroços do pavilhão da Embra, destruído pela depressão Kristin - Foto: Miguel Nunes

Do Barcelona à Argentina: solidariedade sem fronteiras

Fundado a 29 de janeiro de 1939, o SC Marinhense tem cerca de 240 atletas, divididos por basquetebol, hóquei e patinagem artística. Se descontarmos os cerca de 30 atletas seniores, percebemos que são mais de 200 as crianças que vão ficar sem ter onde treinar.

Impedir essa situação é uma das grandes preocupações dos responsáveis do clube, pessoas que como toda a população da Marinha Grande, foi também afetada pela tempestade.

«O que nós marinhenses vivemos foi um cenário de guerra. Foi difícil sairmos das nossas casas, vê-las sem telhados, sem portões, sem janelas. E depois chegar aqui à nossa segunda casa, que é a primeira casa de muita gente, e ver o estado em que estava. Foi um momento difícil, vivido com muita emoção. Já não há lágrimas que consigam descrever aquilo que nós sentimos», confessa Miguel Bataglia, presidente do clube.

Miguel Bataglia, presidente do SC Marinhense - Foto: Miguel Nunes
Miguel Bataglia, presidente do SC Marinhense - Foto: Miguel Nunes

Porém, de ter sido tão mau, há coisas positivas a tirar. Principalmente o movimento solidário que se criou e que «veio de todo o mundo».

Um dia depois de ter estado em direto num programa sobre hóquei da Argentina, o líder do clube realça ao jornal A BOLA o quão importante tem sido o apoio recebido pelo clube num momento tão delicado.

«Só temos de agradecer esta onda de solidariedade. Desde a equipa do Barcelona, ao Infante Sagres, Barcelos, Turquel, Juventude de Viana, Alenquer, o BIR e o Alcobaça. Não quero ser injusto e esquecer-me de algum. Tem havido uma solidariedade fantástica do mundo do hóquei, do mundo do basquetebol», enaltece.

A destruição provocada pela depressão Kristin no pavilhão da Embra, na Marinha Grande - Foto: Miguel Nunes

Toda a ajuda será pouca para ajudar a reerguer o pavilhão da Embra e não deixar morrer o clube. Um cenário que nem se coloca para Miguel Bataglia, apesar das dificuldades que antevê.

«Será uma tarefa árdua, mas cada um vai fazer aquilo que sabe e o que não sabe para que no mais curto espaço de tempo tenhamos uma casa digna para receber os nossos atletas, adversários e provas», aponta.

O que também pode socorrer novamente o clube são os conhecimentos de Alberto Maia. Que não se nega a voltar a arregaçar as mangas como quando era miúdo. Quem levanta um pavilhão levanta dois!

«Ainda me sinto com força suficiente, nos poucos anos que tenho de vida, para poder ver este pavilhão erigido», atira. Até porque vê renovado todos os dias o amor que ele sente pelo clube.

«Todos os dias entram ainda por aquela porta crianças que olham aqui para dentro e esvaem-se em lágrimas. Crianças com seis, sete, 10 anos. Jovens atletas deste clube que quando entram aqui e veem este pavilhão, não se contêm. Porque sentem também eles que esta também já é uma parte da sua vida», orgulha-se.

Parece a história de Alberto e João a repetir-se. Agora serão essas crianças a ver o pavilhão da Embra (re)nascer.

O início das obras do Pavilhão da Embra, em 1964 - Foto: SC Marinhense
O ‘mítico’ que coroou tantos campeões nacionais
«O mítico Pavilhão da Embra». Era quase sempre assim que era feita a referência à velhinha casa do SC Marinhense. E a denominação não era das gentes da Marinha Grande. Era geral. Não existia «o Pavilhão da Embra». Era sempre «O mítico Pavilhão da Embra». A explicação é dada por Alberto Maia. E remonta ao tempo em que não abundavam complexos desportivos pelo país. «A partir do momento em que foi construído, em 1966, jogavam-se aqui quase todas as finais nacionais de várias modalidades. Havia o campeão da zona norte e o da zona sul, e juntavam-se aqui para definir o campeão», relata, orgulhoso. «Vocês nem fazem ideia do que era ver este pavilhão completamente lotado, com 2200 pessoas. Claro que as federações gostavam que todas as finais fossem aqui feitas porque também tiravam bom rendimento», acrescenta. Alberto Maia refere-se a um tempo em que nem os chamados clubes grandes tinham casa própria para as modalidades. «Nós jogávamos contra o Benfica, e eles não tinham pavilhão, jogavam no Pavilhão da Ajuda. O FC Porto jogava no Pavilhão do Infante de Sagres e do CDUP [Centro de Desporto da Universidade do Porto]. Por isso é que este era um pavilhão se tornou mítico, porque tinha uma dimensão pouco habitual e abrangia todo o desporto nacional», resume.