Festa dos jogadores do Real Madrid pela vitória (1-0) frente ao Benfica
Festa dos jogadores do Real Madrid pela vitória (1-0) frente ao Benfica

Agora só uma noite perfeita

Visão de golo é o espaço de opinião de Rui Águas, treinador e antigo avançado internacional português

Era grande a expectativa a envolver esta nova visita do Real Madrid ao Estádio da Luz para defrontar o Benfica na primeira mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões.

Era consensual que o facto de serem dois jogos e o segundo dos quais fora, elevava grandemente a dificuldade deste novo confronto com o gigante espanhol.

As duas equipas tinham, entretanto, cumprido no respetivo campeonato, vencendo os respetivos jogos. Do lado espanhol, a resolução fácil do encontro de receção à Real Sociedad (4-1), permitiu o descanso absoluto de Kylian Mbappé, circunstância bastante inconveniente para o Benfica, por se tratar da principal ameaça do ataque madrileno.

Do lado benfiquista, ao contrário, a ausência de Aursnes era a principal incerteza, que acabaria contrariada pela presença sempre positiva do precioso médio norueguês. Além da desejada integração de Dedic e Aursnes, a escolha de Mourinho voltava a recair em Rafa e não em Sudakov, talvez a única dúvida que subsistia. A velocidade e agressividade de Rafa, que não esteve feliz, terá inclinado para si a preferência do seu treinador.

Quanto ao jogo, foi desta vez bem mais medido taticamente por ambas as equipas, no que diz respeito ao risco, comparado ao jogo anterior, em função das características diferentes do duelo. O respeito tático pelo adversário foi mútuo e bem visível, com as equipas muito juntas, quer na defesa, quer depois na manutenção da posse de bola.

O Real foi mais dominador, com um meio campo que se mostrou mais sólido e agressivo, fundamental para a sua superioridade. Na frente, teve os seus dois avançados a mostrarem-se sempre perigosos mesmo em espaços curtos, apoiados por um setor intermédio agora reforçado por Valverde, um verdadeiro portento que fez diferença.

O único, vistoso e decisivo golo aconteceria logo no reinício da segunda metade por Vinícius Júnior, cujo festejo provocatório acabou por criar uma longa turbulência que em nada ajudou à necessária reação do Benfica.

No seguimento do golo, o avançado brasileiro acusou Prestianni de racismo, algo que a ter acontecido deve ser fortemente criticado. A equipa abanou, mas conseguiu reagir, também pela entrada de Ríos, Sudakov e Sidny Cabral, que animaram a equipa, conseguindo voltar a chegar à frente com mais gente, embora sem criar oportunidades claras.

Nota final para a não amostragem do segundo cartão amarelo a Vinícius, que ainda podia fazer diferença no resultado, em falta claramente merecedora desse castigo. No seguimento acontece a expulsão de José Mourinho, que protestou energicamente, percebendo como importante poderia ainda ser a superioridade numérica no tempo que faltava.

Claro que com este resultado as dificuldades crescem e agora em Madrid procura-se a noite perfeita, como resposta a uma incómoda desvantagem, mas mínima.

Afazeres domésticos

Por cá, enquanto ainda ecoa o escândalo das bolas escondidas, mais uma rábula lusa inesquecível de má, o Benfica vencia nos Açores com alguma segurança, diminuída, embora, por uma intervenção infeliz de Trubin.

Tivemos outro exemplo de como o futebol, e também a vida, nos trazem, em pouco tempo, sentimentos tão opostos. Para alguns dos adeptos, o pobre Trubin regressou à condição de réu vulgar pelo erro cometido, depois de passar por herói imortal, ainda há poucos dias. Nada de novo, portanto. Com a missão então cumprida no campeonato, importava recuperar do desgaste, das emoções e das poças açorianas, antes do complicado teste europeu de ontem.

Quanto ao relvado açoriano, que é o último classificado da Liga no que diz respeito à qualidade, fica mais uma interrogação: Tanto investimento, ano após ano, em jogadores maioritariamente estrangeiros, e por isso teoricamente mais caros, não justificaria alguma renovação do local onde se joga? O arquipélago é lindo, mas o futebol não deixa de ser também um importante veículo de promoção que precisa da melhor imagem.

Os famosos investidores saberão disso ou é-lhes indiferente? E o governo regional, dorme ou não se importa?

Velha escola

Porque há coisas que são cada vez menos admissíveis e ações que devem ser exemplarmente punidas, penso ser um bom motivo para recuperar mais uma história da velha escola, vivida enquanto jogador. Passados tantos anos, voltamos a práticas que, na nossa tenrinha ingenuidade, julgávamos enterradas para sempre. As equipas grandes pedem grandes jogadores, mas também grandes pessoas, que, pelo menos, se respeitem entre si e ao público, através de comportamentos condizentes.

Fui um dos jogadores do Benfica, já lá vão uns anos, que se equipou no corredor de acesso ao balneário visitante do antigo estádio das Antas, também antes de um clássico.

O produto químico que inocentemente alguém tinha derramado antes da nossa chegada ao estádio tornava o ar irrespirável e a nossa presença impossível.

Como agora, imagino que essa feliz e respeitadora iniciativa tenha partido de alguém que nada mandava e que a ideia também lhe tenha surgido sem a ajuda de ninguém...A vantagem em relação ao episódio épico das bolas escondidas é que, dessa vez, como em várias outras, as tropelias aconteciam longe dos olhos do público.

Incompatibilidades

Voltando ao tema dos treinadores e a algo difícil de entender, é como se permite que um mesmo treinador dirija duas equipas, numa mesma época e no mesmo campeonato.

Por exemplo em Itália, por onde passei de raspão como jogador, os treinadores só podiam treinar uma equipa na mesma competição. Nesse âmbito, o clube também estava impedido de oficializar um novo técnico antes de garantir o acordo de rescisão com o anterior.

Não parecendo nada difícil de implementar ou entender, é uma medida lógica que defende o despedido e dá oportunidade a outros, que ainda por cima, são mais que muitos. Ao mesmo tempo, evita incompatibilidades competitivas óbvias, de alguém poder defrontar a equipa que ainda na semana anterior tinha sido sua. Jogar contra e no dia seguinte a favor, faz sentido? Não me parece nada.