Gonçalo Moreira com o prémio de melhor jogador do torneio Mário Wilson, em Oeiras, em 2017 — Foto: D. R.
Gonçalo Moreira com o prémio de melhor jogador do torneio Mário Wilson, em Oeiras, em 2017 — Foto: D. R.

Viagem ao mundo de Gonçalo Moreira, uma das joias mais valiosas do Benfica

Gonçalo Moreira bateu um bonito recorde pelo clube do seu coração, ao tornar-se o melhor marcador de sempre do Benfica na UEFA Youth League. A BOLA falou com quem conhece bem este craque, por quem Mourinho já admitiu ter um «fraquinho»

Franzino de cabelo encaracolado, camisola por dentro dos calções e muita magia no pé. A quem pertence esta descrição? A um reguila que, desde muito cedo, impressionou no Complexo Municipal de Pedrouços e que, por acaso, é também o melhor marcador de sempre do Benfica, na UEFA Youth League.

Gonçalo Moreira fez história, esta quarta-feira, ao apontar o seu 12.º tento na competição em 16 jogos (repartidos por três épocas), superando, assim, Zé Gomes e Diogo Gonçalves que precisaram, respetivamente, de 18 e 19 jogos para chegar aos onze golos.

Puxando a fita12 anos atrás, A BOLA foi até Pedrouços, onde o sonho começou. Foi, também, ali que o mister Bruno Cristiano o viu pela primeira vez: «Exatamente aqui, num sábado de manhã. Estávamos num convívio de academias. O Gonçalo tinha sete anos e jogava nos sub-8 do Pedrouços. Quando o vi a tocar na bola, nunca mais esqueci aquele toque», recorda Bruno Cristiano, como se tivesse sido há poucos dias.

«Talento puro»

Bruno Cristiano, 40 anos, à data treinador dos sub-8 do Clip Teams, sabia que estava perante um talento raro. Aquela criança não enganava: «Com sete anos, a relação do Gonçalo com a bola já era fantástica. Era um miúdo com uma alegria diferente dos outros. Tinha uma condução e um drible curtinhos. Ninguém ficava indiferente ao vê-lo tocar na bola. Tinha um talento puro que hoje ainda tem.»

Bruno Cristiano partilhou com a A BOLA a felicidade que é acompanhar de perto o médio ofensivo de 20 anos, com quem foi construindo uma relação de irmãos, estimulada pelos treinos que continuam a fazer sempre que o jogador do Benfica volta ao Norte.

Choro antes do sonho

Quem também conhece bem o craque benfiquista é Rui Marques: amigo próximo da família. Entende Gonçalo Moreira como poucos. «É uma amizade muito forte. (…) Temos uma relação quase diária, falamos antes dos jogos, depois dos jogos… Estou sempre ao lado dele», começa por situar.

Rui Marques foi um grande suporte daquele menino que aos 12 anos saiu de Pedrouços para ir, sozinho, para o Seixal, atrás do sonho de uma vida. Ouviu-o chorar, dizendo que «queria vir embora», mas nunca o deixou desistir.

Gonçalo Moreira jogou pelo clube da terra, que faz agora questão de acompanhar sempre que volta a casa, até aos nove anos. Após três épocas divididas entre as Casas do Benfica da Póvoa de Lanhoso e de Fafe, aceitou, em 2018, o duro desafio de deixar casa, família e amigos para ir para o Benfica a sério.

Dois anos mais tarde, viu chegar ao clube encarnado o mister Bruno Cristiano. O técnico portuense entrou para a estrutura benfiquista na temporada 2020/21, na qual desempenhou funções de treinador de desenvolvimento individual. Mas, aí, os, agora, irmãos pouco contacto tinham.

Mais que um craque

Bruno Cristiano, entretanto, saiu dos encarnados para ser adjunto no Sagrada Esperança, de Angola, onde esteve um ano. Regressou a Portugal, com a mesma equipa técnica, para o São João de Ver. E no ano seguinte, em 2023/2024, voltou ao Benfica, para desempenhar funções de coordenador da formação. Dessa vez, já com presença assídua no Seixal e contacto direto com o seu mais novo.

Bruno conta que o maiato foi fundamental na sua integração na margem Sul. E que, apesar de criança, Gonçalo Moreira já demonstrava grande preocupação pelo bem-estar dos outros: «Fazia-me sempre companhia, (…) mandava-me mensagem para irmos almoçar, porque via que não conhecia ninguém e estava sempre sozinho.»

Gonçalo Moreira e Tomás Soares — Foto: D. R.

«Uma vez, a vir do Estádio da Luz, apanhei dois acidentes nas pontes [25 de abril e Vasco Gama] e já só cheguei ao Seixal às 11 da noite, sem jantar. Sem dizer nada, o Gonçalo avisou as senhoras do refeitório que iria chegar tarde e pediu-lhes para me deixarem qualquer coisa preparada para comer», recordou, sublinhando o grande homem que já se fazia ver por trás daquele menino.

Gonçalo Oliveira, Gonçalo Moreira e Miguel Vieira, apanha-bolas na Luz — Foto: D. R.

O também ex-jogador de futebol — foi campeão nacional de juniores pelo Boavista em 2002/03 — reconhece em Gonçalo uma bondade sem igual, que é bem patente nos gestos de carinho e gratidão do craque.

Benfiquista orgulhoso

Sobre camisolas e amizade verdadeira, Rui também tem de falar. É benfiquista,  «daqueles doentes,» e, para ele, ter o amigo a jogar no seu clube de coração é, «sem dúvida, um orgulho».

No dia em que Gonçalo Moreira assinou contrato profissional pelo Benfica (28 de junho de 2022), o craque cumpriu uma bonita promessa: autografou uma camisola para o filho de Rui, o pequeno Duarte, e assinou-a com aquela data tão especial para os dois.

No dia do 14.º aniversário, no Seixal, com Jair Monteiro — Foto: D. R.

«Fraquinho de Mourinho»

Dentro de campo, Gonçalo Moreira é igualmente excecional. É um dos 'meninos do Seixal' que estão na linha da frente para jogarem na equipa principal.

Prémio de mérito social entregue por Rodrigo Magalhães, ex-diretor técnico da formação do Benfica — Foto: D. R.

O médio-ofensivo, por quem Mourinho já confessou ter «um fraquinho», fez um poker frente ao Qarabag (já lá iremos), em setembro, para a UEFA Youth League. Na semana seguinte, foi integrado nos treinos da equipa principal e foi convocado para o jogo frente ao Gil Vicente.

Com prémio de melhor marcador do Venice Trophy Champions, em 2016 — Foto: D. R.

Apesar de não se ter estreado, naquela que foi uma vitória muito sofrida (2-1) para as águias, em pleno Estádio da Luz, o 77 das águias mereceu elogios do special one, no final do jogo: «Não entrou o Gonçalo Moreira, por quem tenho um fraquinho, não foi jogo para ele. Tinha-o no banco para poder entrar no caso de a situação estar dramática, ou no caso de estar fantástica. Não estava nem dramática nem fantástica, por isso não foi a hora dele.»

«10 à moda antiga»

Bruno Cristiano vê ali um jogador como não vê no Benfica desde o tempo de Pablo Aimar: «Na minha infância, os meus grandes ídolos eram o João Vieira Pinto, o Rui Costa, o Pablo Aimar, jogadores da posição 10, na qual o Gonçalo hoje joga — e eu vejo-o um bocadinho com essas características: um 10 à moda antiga, criativo.»

«Consegue ocupar bem o espaço, é muito inteligente, tem passe e tem golo. É aquele jogador que nós, treinadores, gostamos de ter em qualquer equipa», acrescentou.

Gonçalo Moreira no jogo com o Qarabag, no qual marcou quatro golos — Foto: IMAGO

4 golos em 45 minutos

É tempo, agora, de voltar a mencionar o jogaço de Gonçalo frente ao Qarabag (7-1), na primeira jornada da UEFA Youth League, a 16 de setembro. A jogar a extremo, fez um poker na primeira parte. E saiu ao intervalo — talvez com um pouquinho de «azia». Quem o revela é o seu confidente, Rui Marques: «Disse-me que achava que teria marcado mais quatro se jogasse mais 15 minutos.»

«Um dia vai valer mesmo a pena»
Gonçalo Moreira foi convocado por José Mourinho para o jogo com o Gil Vicente, mas não saiu do banco de suplentes. Recordou, recentemente, em declarações ao Canal 11, «a emoção muito grande» que tomou conta dele e acrescentou que «já foi muito bom pisar o relvado da Luz». Foi um «dia incrível» que o encheu de «orgulho», mas assinalou que é para isso que trabalha. O médio-ofensivo descreve-se como «menino da casa» e tem bem claro que «o objetivo é chegar à equipa principal». Com vontade extra de quem é «benfiquista desde pequenino». Numa reportagem mais antiga, também ao Canal 11, contou que foi viver para o Seixal com 12 anos e como isso foi complicado. «Deixei os meus pais, passei mal ao início, é normal. Foi uma decisão que os meus pais sempre apoiaram, Teve de ser, porque sei que tenho de fazer alguns esforços se é isto que quero. Fiz tanto esforço para chegar ao objetivo... Ainda faço. Como sou filho único, sou ainda mais chegado aos meus. Um dia vai valer mesmo a pena», partilhou com emoção. Aproveitou a ocasião, ainda, para se descrever: «Sou um bocadinho chato, na Seleção dizem-me isso, é feitio, talvez por ser do Norte. Gosto de ter a bola no pé, fazer os meus colegas jogar, assistir, marcar e jogar perto da baliza.»

Quem bem o conhece sabe que o menino quer sempre mais, mas que é também inteligente para compreender a gestão feita pelos treinadores. «O Gonçalo quer jogar sempre, não tenho dúvidas de que queria e iria fazer mais, mas também não tenho dúvidas de que foi inteligente para perceber que é importante fazer gestão e que tinha um jogo importante passado uns dias», defendeu Bruno Cristiano.

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Chato

«O Gonçalo é muito competitivo, não gosta de perder por nada e durante o jogo é muito comunicativo. É líder. Aliás, por onde tem passado, tem sido sempre capitão, seja na Seleção ou no Benfica. Acredito que dentro de campo seja um bocadinho chato, por essa competitividade de querer sempre ganhar», disse o mister, explicando a alcunha (fácil de explicar) de «chato» dada por colegas e adversários.

O que não parece chatear nada Gonçalo é mesmo a relação com o golo. Em agosto, o maiato marcou quando se estreou pela equipa B, frente ao Chaves.

Em 2022/23, sagrou-se campeão nacional de juvenis, com grande destaque, ao ser o melhor marcador da competição com 28 golos apontados. Esta época, juntando os oito nos sub-19 (sete na UEFA Youth League), os quatro pela equipa B e os dois com os sub-23, o craque já leva 14 golos.

Num encontro promovido por Marcelo Rebelo de Sousa, no Palácio de Belém, em 2019, entre Telma Monteiro e jovens estudantes — Foto: D. R.