Benfica-Real Madrid: ser ou não ser audaz, eis a questão!
Já se sabia de antemão que o Benfica-Real Madrid não teria quaisquer semelhanças com o último embate entre ambas as equipas.
Em primeiro lugar porque Arbeloa aprendeu com a derrota em Lisboa. O antigo lateral direito madridista fez os devidos ajustes e transformou um conjunto de indivíduos equipados da mesma forma numa equipa equilibrada sem bola, sem que isso limitasse a preponderância ofensiva de Vinícius Júnior e Mbappé.
Depois porque seria expectável uma abordagem encarnada mais estratégica e menos corajosa nesta primeira mão do play-off da UEFA Champions League. Ao contrário do que vimos no 4-2 que ditou a continuidade das águias na maior prova de clubes da Europa, Mourinho apostou mais no equilíbrio e menos no provocar do erro, optando pelas transições ofensivas e não pelo retirar da bola aos espanhóis.
Os cinco minutos iniciais até pertenceram ao Benfica. Agressivos no pressing, rápidos na reacção à perda de bola, com linhas bem subidas e setores compactos, os encarnados conseguiram empurrar os merengues para as proximidades da sua grande área.
Seguiram-se cerca de vinte minutos de algum equilíbrio, com aproximações e remates em ambas as balizas, mas a partir minuto 25 o Real Madrid tomou conta do jogo.
Aproveitando a postura expectante do Benfica, cada vez menos preocupado em provocar o erro e mais interessado em manter-se equilibrado e compacto, os merengues começaram a circular a bola com critério e inteligência.
Com uma Fase de Construção composta por Courtois + Rudiger + Tchouameni + Hujsen, Camavinga abria na esquerda e Trent-Alexander Arnold na direita. Valverde derivava para dentro de modo a se juntar a Guler e Carreras surgia sobre a meia esquerda. Vinícius Júnior e Mbappé deambulavam pela frente de ataque, tendo o francês mais capacidade para descair para o lado esquerdo do que o brasileiro para surgir sobre o lado direito.
Esta configuração em 1x3x5x2 foi fatal para um Benfica em 1x4x4x2 clássico em organização defensiva. Ora porque havia sempre um homem livre sobre a intermediária (tanto por dentro, como por fora), ora porque Camavinga e Carreras sobre a esquerda e Guler e Valverde entre a meia direita e o corredor central promoviam trocas posicionais que dificultavam a tarefa da linha de quatro médios do Benfica.
Outro fator determinante foram as coberturas defensivas do Real Madrid sempre que a equipa se aproximava da baliza de Trubin. Sem referência fixa junto aos centrais encarnados e com muitas unidades sobre o centro do jogo (lado em que se encontra a bola), os merengues tinham sempre duas linhas preparadas para reagir à perda de bola (uma primeira linha composta por médios e uma segunda linha composta pela dupla de centrais).
Ou seja, sempre que o Real Madrid perdia a bola e o Benfica procurava a saída para o contra-ataque, Camavinga, Tchoumameni e Valverde estavam preparados para reagir rapidamente e de forma agressiva sobre o portador da bola.
De nada valeu ao Benfica a aposta em Rafa como 10/segundo avançado. O n.º 27 das águias raramente teve espaço para ser solicitado e os colegas raramente tiveram tempo e espaço para pensar e executar na procura da velocidade do ex-Besiktas.
Mais do que alongar os passes para a transição ofensiva, faltou aos encarnados associarem-se através de tabelas com recurso ao apoio frontal e apoio à retaguarda para sair das zonas de pressão, fosse pelo mesmo centro de jogo, fosse através de variação do centro de jogo e/ou de flanco.
Outra das possibilidades não exploradas foram os contramovimentos de Rafa e Pavlidis. Mas para que isso tivesse sido possível, Barreiro teria de estar menos próximo da sua grande área, Prestianni e Schelderup deveriam estar mais preparados para surgir de fora para dentro nos espaços abertos por Pavlidis e Rafa quando estes baixassem no terreno. Ter mais um médio com capacidade para ter bola de forma temporizada também teria sido importante, mas Sudakov estava no banco de suplentes.
Trubin foi aguentando o 0-0 até ao intervalo com um conjunto de boas intervenções, mas nada pôde fazer no lance do golo de Vinícius Júnior.
O brasileiro aproveitou a ausência de cobertura defensiva a Dedic para rematar para o fundo da baliza encarnada num gesto técnico de excelência. Faltou claramente ao Benfica alguém que ajudasse o seu lateral direito a promover uma situação de 2 vs 1 defensivo sobre o astro canarinho.
A perder, com Prestianni e Rafa em sub-rendimento e sem capacidade para ter posse de bola prolongada em meio-campo ofensivo, Mourinho demorou a mexer na equipa. E quando o fez, retirou Rafa e Schjelderup, que estava a ser muito mais assertivo e criterioso do que Prestianni, pese embora o menor número de acções ofensivas, para lançar Ríos como médio mais ofensivo sobre o corredor central e Sudakov como médio ofensivo sobre a esquerda.
Sem um lateral esquerdo ofensivo e devidamente projectado sobre o seu flanco, o Benfica acabou por centralizar em demasia o seu jogo. Mourinho percebeu a necessidade de explorar ambos os corredores laterais e lançou Lopes Cabral e Lukebakio. Dois aceleradores, dois jogadores com mais propensão para a iniciativa individual do que para a associação colectiva. Apesar da maior presença em meio-campo ofensivo, faltou discernimento ao momento ofensivo encarnado.
Num mundo cada vez mais bipolarizado e incapaz de perceber a riqueza existente na variabilidade de ideias, os pragmáticos dirão que a eliminatória ainda está em aberto e que a abordagem de hoje foi a mais correcta para um play-off a duas mãos. Os que preferem a ousadia à estratégia (os românticos, segundo se lê por aí) dirão que teria sido melhor ver uma abordagem semelhante ao jogo anterior, mesmo que isso implicasse um resultado diferente.
A verdade é que, em poucas semanas, Arbeloa conseguiu melhorar a sua equipa, tornando-a mentalmente competitiva a ponto de se superiorizar a um Benfica que, em Madrid, terá de ser mais audaz e corajoso do que foi esta noite.
Melhor do Benfica: Tomás Araújo
Melhor do Real Madrid: Valverde