«Vencer uma medalha de ouro nos JO por Portugal seria um sonho»
Para lá da qualificação histórica para o Championship Tour (CT), Francisca Veselko revela a A BOLA o lado menos visível da carreira: os custos, os sacrifícios, a rotina exigente e o sonho olímpico. Uma história que começou com medo do mar e cresce até à ambição de conquistar Los Angeles 2028.
- Como é ser uma surfista, em termos financeiros? Tiveste de gastar muito dinheiro na tua carreira?
- Só tenho a agradecer aos meus patrocinadores por toda a ajuda. Sem eles seria muito difícil. Até se chegar ao World Tour, pagas para surfar. Infelizmente, é verdade, porque os prize moneys não são muito elevados e todas as viagens, as pranchas, tudo, sou eu que tenho de pagar. Pagar ao meu treinador também. É difícil. A maior parte dos meus prize moneys foram reinvestidos. Se não fosse dessa maneira, não conseguiria fazer o circuito. Mas não me posso queixar porque acabo de chegar ao CT, consegui fazer todas as etapas e nunca me faltou nada. E agora sim, vai melhorar um bocadinho. Posso dizer que a minha vida desde dia 7 de fevereiro de 2026, mudou para sempre para melhor.
- Como é o teu dia a dia, quando não estás em competição?
- Acordo sempre muito cedo. Faço a minha meditação, os meus exercícios. Também gosto de escrever no meu caderno. Depois sim, tenho dois treinos de surf normalmente, umas ou duas horas cada treino. Costumo ir para dentro de água, depois quando saímos, analisamos filmagens. A segunda surfada é uma hora e pouco, depende. Fazemos um intervalozinho e voltamos para dentro de água para pôr em prática aquilo que estivemos a analisar. O treino é dividido por tempo e por objetivos. Acaba o treino e vou para o ginásio ou pilates. O meu dia passa a voar, mas acabo o dia realizada.
- Vais mudar alguma coisa dos treinos agora para o CT?
- Antes do COVID não treinava a parte física, de todo. Foi só em 2020 que comecei também a treinar o físico mais a sério, com um treinador. Pilates também tem sido superimportante para poder ter mais flexibilidade e no surf é preciso ser-se ágil. Não é só ir para dentro de água e passar horas. Todos esses detalhes ajudam depois a performance dentro de água. Estou num bom caminho e o que fiz até agora vai ser o que vou manter.
- A tua primeira experiência no surf nem correu assim tão bem…
- Correu tão mal que eu ainda me lembro. Era muito pequenina, não sabia nadar e um amigo da minha mãe, a brincar, decidiu empurrar-me numa onda e eu caí. A prancha virou ao contrário, ficou em cima da minha cabeça e parecia quase que me ia afogar. Nesse dia, assustei-me e não quis saber de surf durante muitos anos. Mais tarde, a minha mãe estava com o meu irmão mais velho na água, eu fui ter com ela e disse que também queria. Ficou supercontente. Os meus pais eram os dois surfistas, mas nunca fomos forçados a ser surfistas. Sempre tivemos a escolha de sermos o que quiséssemos. Eu é que decidi ser e quero ser. O meu irmão mais novo, o Jaime, também está a surfar muito bem. Teve uma chance de ser campeão nacional este ano. Está nos genes.
- Quando percebeste que querias ser profissional?
- Quando andava na escola, ficava o dia todo à espera do momento que a carrinha me apanhasse para ir para os treinos de surf. Só queria surfar. Era só nisso que pensava. Às vezes estava nas aulas um bocadinho distraída porque só queria era ir surfar. Talvez ali com uns 13 anos foi quando comecei a perceber que queria mesmo ser profissional.
- O que torna o surf tão especial para ti?
- Primeiro, a sensação de liberdade. Tenho a sorte de estar num ambiente em que muitas pessoas procuram ir à praia. Com o stress, com o trabalho, é na praia que querem estar e eu tenho essa sorte de lá estar todos os dias. É no mar que me consigo sentir livre. Todos os problemas ficam de lado, porque tens de estar concentrada nas ondas, nas manobras…. Não tens muito tempo para divagar e pensar noutras coisas. O surf também é especial porque todos os dias as ondas estão diferentes e por isso é que é difícil de ser o melhor, porque temos que nos adaptar a todo o tipo de condições. Também o fator mãe natureza. Viajamos para sítios incríveis, temos oportunidade de conhecer outras culturas. O surf traz-me momentos inesquecíveis. Acho que toda a gente deveria experimentar.
- Qual é o teu sítio preferido para surfar?
- Ainda tenho muitos sítios para ir. Mas eu sempre tive uma grande ligação com a Gold Coast, na Austrália. Gosto muito, foi assim das primeiras viagens que fiz quando era mais nova e foi onde me conectei mais. Todo o ambiente, toda a cultura do surf.... São pessoas que têm rotinas, acordam cedo e toda a vibe dentro de água, água quentinha, boas ondas. Gosto imenso. J-Bay [na África do Sul] também foi incrível, mas não é um sítio onde eu moraria. Em Portugal, Carcavelos. É onde me sinto bem e foi onde comecei a surfar. É uma praia pela qual tenho um carinho muito especial.
- Consideras que o surf português está em evolução? Em termos de condições e de talento até onde é que Portugal pode ir no surf?
- Temos muito potencial. Também gostava de ver mais homens a estarem próximos de qualificação para o Challenger, primeiro, e, depois, para o World Tour. Temos surfistas muito talentosos aqui em Portugal.
O surf em Portugal está numa trajetória ascendente
- O que é preciso melhorar ainda mais?
- Os apoios financeiros, mas também os próprios surfistas saírem mais da zona de conforto, viajarem mais. Eu sinto que fiz isso desde muito nova. Fui para surf camps onde não conhecia ninguém. Inscrevi-me e fui para o Peru e depois fui para o Brasil. Também fui para a Gold Coast, para um centro de alto rendimento. Desde nova, saí da minha zona de conforto e penso que é o que falta à nova geração, não ficarem tão confortáveis cá. Mas o surf em Portugal está numa trajetória ascendente. O surf feminino português tem crescido que é uma loucura. Antigamente, eu não via miúdas na água. Atualmente, as provas já começam a estar cheias de mulheres e fico supercontente e orgulhosa de ver isso.
- É esse o impacto que queres que este teu feito tenha? Trazer mais raparigas para o surf?
- Sem dúvida e espero que o faça. Ver muitas raparigas na água deixa-me contente e quero mesmo que acreditem que é possível e que não é só sonhar, mas sim trabalhar para isso.
- Já pensaste em estar nos Jogos Olímpicos a representar Portugal?
- Lutei por uma vaga para os Jogos de Paris, mas não consegui a qualificação. Quero participar nos de Los Angeles 2028, no estado onde nasci. Nasci na Califórnia, mas cresci em Portugal, com um mês de vida e fará sempre sentido representar Portugal nos Jogos e conseguir uma medalha de ouro. Era um sonho.
- Disseste que esta qualificação era «o sonho de uma menina com dois totós, pequenina, cheia de raça, completamente apaixonada pelo mar, pelo surf e pela competição». Se pudesses falar com essa menina agora, o que lhe dirias?
- Para continuar, para não relaxar, para continuar a ser essa menina raçuda, com vontade. Estou orgulhosa dessa menina dos dois totós. É engraçado porque, quando penso nessa miúda, vem-me à cabeça essa garra e determinação. Em momentos em que estou um bocadinho mais off, o Rodrigo [treinador] fala-me dessa miúda para acordar a fera, para eu me lembrar de toda essa raça que eu tenho.