Prestianni e Vinícius num dos duelos acesos - Foto: IMAGO

Cavalheirismo e choque Prestianni-Vinícius Jr.

A história de um jogo nunca devia estar focada numa situação como a do argentino e do brasileiro; quase nada importou mais, nem mesmo a declaração de Rui Costa

Houve um dia em que o maior ídolo da História do Benfica escondeu nas cuecas a camisola daquele que era o melhor jogador do Real Madrid e sua referência futebolística. Esses eram outros tempos, em que imperavam algumas faltas duras em campo, mas prevalecia o cavalheirismo entre homens de uma mesma batalha.

Havia uma altura, também, em que os jogadores não tinham problemas em falar entre eles sem terem de se esconder atrás de uma mão a tapar a boca ou, como fez Prestianni, atrás de uma camisola. Como disse, e bem, um jornalista espanhol que questionou Mourinho na sala de imprensa, «quem faz isso é porque algo quer esconder».

A acusação sobre o argentino é grave e real, Mbappé afirmou ainda que o alegado insulto foi repetido cinco vezes, e a suspeita aumenta por um gesto de ocultação que se tornou comum nos relvados. À falta de prova concreta, a «verdade» será vista consoante a cor pela qual se torce e por quem se acredita, com uns a argumentarem a espontaneidade e veemência do protesto de Vinícius e outros a lembrarem episódios passados do brasileiro. O que disse Prestianni e o que ouviu Vinícius só eles terão certezas, mas o argentino já não se livra [pelo menos, ver-se-á o que fará a UEFA] da suspeita e o episódio vai acompanhar-lhe toda a carreira, como a de Vinícius Jr é já marcada por situações do género.

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Um problema destes, o racismo, não é clubístico, é muito maior do que uma fronteira ou uma nacionalidade, ou modalidade. Ser jovem e inexperiente ou velho e «veterano de guerra» também não dá o direito a ninguém de insultar um outro pela cor da pele.

Aquele cavalheirismo em campo dos tempos de Eusébio e Di Stéfano é uma ilusão nos dias de hoje. Uma «arte» que tanto Real Madrid e Benfica [e não só] apregoaram como valor diluiu-se no tempo, e o que devia ser regra é agora exceção. Os jogadores de Benfica e Real Madrid deviam saber para o que iam, que um encontro destes tem «pedigree», reflete uma nobreza futebolística - mesmo que hoje, os jogadores dos encarnados não sejam tão bons em comparação com os dos merengues como eram na década de 1960. Houvesse um vislumbre de cavalheirismo na Luz e a beleza do golo de Vinícius Jr. não ficaria para segundo plano, assim como a declaração de Rui Costa a afirmar que Mourinho continuará no Benfica.

Ficámos a saber a ideia do presidente para o Benfica. Faltou, e falta, saber se o treinador o confirma.