Marco Silva, treinador do Benfica (foto: Miguel Nunes)
Marco Silva, treinador do Benfica (foto: Miguel Nunes)

Este Benfica não fica assim

'A Bola é Redonda' é o espaço de opinião quinzenal do jornalista Nélson Feiteirona

Marco Silva tem marcado as suas intervenções públicas por discursos realistas e pragmáticos, mas também vai revelando uma personalidade forte, firme nas convicções e nas ideias. O treinador do Benfica parece interessado em dizer apenas o que quer, quando quer, recusando a pressão pública e a ideia de que deve falar mais do que aquilo que entende ser necessário — ou conveniente.

Até ao momento, será sempre especulativo retirar recados ou mensagens das palavras de Marco Silva, mas há conceitos muito claros na forma como descreve o que pretende para a equipa que lidera e sobre os quais é possível, e pertinente, debater.

Com Marco Silva ao leme, o Benfica joga muito mais para a frente do que para trás, distinguindo-se claramente do plano colocado em prática por José Mourinho, o anterior treinador das águias. O técnico português procura equilíbrio, mas a ideia deste Benfica é, na essência, aquela que motiva o futebol: chegar à frente, criar oportunidades, marcar golos e ganhar jogos. Parece simplista, mas está longe de ser fácil de aplicar. Para o conseguir, há, na minha opinião, um detalhe que fará sempre a diferença, além da qualidade dos jogadores: a fome de vencer. E é precisamente aqui que interpreto as declarações mais recentes de Marco Silva — depois de o Benfica ter carimbado, na Escócia, frente ao Hearts, a qualificação para o play-off da Liga Europa — como uma espécie de recado à Direção e ao plantel. Não necessariamente porque essa tenha sido a intenção do treinador — não o consigo entender dessa forma, precisamente pela maneira objetiva e assertiva como expõe as suas ideias —, mas porque o Benfica faria muito bem em analisar estas palavras como tal.

«Há um detalhe que fará sempre a diferença, além da qualidade dos jogadores: a fome de vencer.

«Se somos Benfica e queremos ganhar jogos e olhar para as competições com ambição, não chega só ter um ou dois jogadores bons. Se queremos ser competitivos ao sábado ou domingo e depois à quinta, temos de ter muita gente a trabalhar e lutar por lugares. Se o jogador andar ali muito sossegadinho não cresce de certeza e eu gosto que eles tenham dúvidas», afirmou Marco Silva. Neste ponto, o plantel do Benfica ainda não oferece, pelo menos olhando de fora, a garantia pretendida pelo treinador. Falta gente, a SAD está a trabalhar na contratação de reforços, mas, posição por posição, fica claro que ainda há trabalho a fazer. Existe tempo, embora não seja muito, mesmo que, como afirmou o presidente do Benfica, Rui Costa, a estratégia passe por evitar precipitações na escolha dos novos jogadores.

Depois, há outro recado. «Prestianni está em grande forma (...) gosto muito deste tipo de jogadores (...) do coração, da alma que mete nos jogos», confessou Marco Silva, a propósito de mais uma exibição convincente do extremo argentino. O Benfica precisa de qualidade, mas, acima de tudo, necessita de jogadores com a mentalidade certa. Além do talento, as águias precisam de construir uma equipa de combate, capaz de esbater diferenças diante de adversários mais fortes e de reduzir ao máximo o risco de deslizes frente a equipas teoricamente mais fracas. Os lances e os jogos nem sempre correm bem a Prestianni, que ainda tem muito para crescer e melhorar, é evidente. Mas não é por acaso que o jovem de 20 anos é um dos jogadores preferidos dos adeptos e que Marco Silva o elogiou: o extremo argentino conjuga aquilo que é mais importante no futebol, talento e coração.

«Prestianni conjuga aquilo que é mais importante no futebol, talento e coração.

Temos visto empenho e vontade nas equipas de Marco Silva neste arranque de temporada, mas ainda falta muito. E há um aspeto em que o treinador dá sinais de insistir particularmente: a agressividade, tanto a atacar como a defender. Essa atitude tem aparecido, mas também tem faltado em alguns momentos, sobretudo no setor defensivo, o que ajuda a explicar, por exemplo, a derrota do Benfica na Suíça frente ao St. Gallen, por 1-2, para a Liga Europa, e o empate diante do Académico de Viseu, por 2-2, na primeira jornada do campeonato. Ainda falta consistência.

Marco Silva e o Benfica precisam de mais tempo, e seria prematuro e injusto tirar conclusões nesta fase. Há, no entanto, uma certeza antecipada por Rui Costa, mas que não deixa de inquietar os benfiquistas pela incerteza que encerra: este Benfica não vai ficar assim.

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