Vitinha, Figura do Ano para A BOLA, reconhece que a situação foi estranha na final da Taça Intercontinental, mas que nunca colocará em causa qualquer prémio individual

Vitinha: «Antes precisava de fazer muito mais para ser notado»

Foi o melhor jogador da Taça Intercontinental, apesar de ter jogado o mesmo jogo que Safonov, o melhor em campo na final. Achou estranho, mas não torceu o nariz. No que diz respeito ao que se passou nos Estados Unidos, talvez o melhor seja mesmo não pensar muito

— Final do Mundial de Clubes: já perceberam o que é que realmente aconteceu naquele jogo?

— Não. Posso dizer que foi o cansaço, que foi uma época superlonga, posso dizer que foi o calor, posso dizer que foi muita coisa… Às vezes, não vale a pena pensar muito. Estávamos com tudo. Estávamos a 100% de novo. Não deu! Entrámos até bem no jogo, temos uma oportunidade claríssima de golo do Dési [Désiré Doué], que, e já sabemos como é o futebol, se calhar muda tudo. Não o fizemos. De repente, o Chelsea consegue ir à frente e não conseguimos acertar bem a pressão, acho que foi chave nesse jogo… Não acertámos bem a pressão e da forma como nós pressionamos se não acertas complica-se, porque depois somos castigados lá atrás. E é o que normalmente resulta sempre e depois dá frutos. Não conseguimos acertar bem a pressão e eles conseguiram quase sempre pelo mesmo lado fazer um, dois golos…

— Sempre por um jogador muito frio, o Cole… Cold Palmer

— Palmas, Palmas. Fez um grande jogo. Tem de estar de parabéns por isso e a equipa do Chelsea também. Às vezes, não é preciso pensar muito. Estávamos ali, queríamos… Sabemos a equipa que somos. Queríamos muito ter ganho. Não consigo encontrar uma explicação exata, o porquê de não ter acontecido. É uma pena. Ainda mais pelo ano que fizemos, por ser algo inédito. Um primeiro Mundial de Clubes e ganhá-lo. Nem sei como é que se diz quando se conquista, sete títulos… um septeto. Íamos fazer uma coisa inédita. Os portugueses então iam ganhar oito, que nunca ninguém ganhou. Oito troféus no ano! Nós queríamos muito. Infelizmente, deu para o Chelsea. Lutámos até ao último segundo para que fosse diferente. Não foi.

— Deixou alguma marca?

— Deixou-me triste no momento. Deixa-me triste quando olho agora, por todas essas razões, por ser o Mundial de Clubes, o primeiro Mundial de Clubes, e não sabermos a importância que vai ter nos próximos anos, pelo ano que estava a ser e podermos ter tudo. Pelo torneio também que tive, superpositivo. Depois da época toda que tive também superpositiva, estava outra vez bem depois da Champions e da Liga das Nações. Estava a sentir-me outra vez bem e a fazer um grande campeonato, tanto que até fui o Bola de Prata da competição. E a nível individual isso ainda me deixa ‘espera lá, se tivéssemos ganho, ainda teria sido…’ Mas não ia mudar nada, mesmo se soubesse isso de antemão. O que é que ia mudar? Ia dar o máximo na mesma. Os meus colegas igual. Simplesmente é o que é.

— Não há nada que se pudesse fazer repetindo o jogo que o pudesse mudar?

— Nunca vamos saber. E é preferível não pensar dessa forma, porque não vai mudar. Temos muita coisa de positivo em que nos concentrar também. E não foi por falta de vontade, não foi por falta de investimos no jogo. Não foi por falta de um erro, de algo que não devíamos ter feito. Não, foi uma coisa coletiva. O Chelsea também tem muito mérito na forma como queria ganhar aquele jogo.

Se o Safonov não tivesse recebido o prémio de melhor em campo ter-lhe-ia dado o meu prémio

— E têm talento…

— E têm muito talento também. Calhou para o Chelsea.

— A Intercontinental é uma espécie de compensação? O próprio Vitinha escreveu nas redes sociais ‘Somos campeões do mundo’…

— Intercontinental, entre continentes é mundo…

— É mais ou menos reconhecido que não é um Mundial. Era assumido antes como uma espécie de Campeonato do Mundo, porque não havia o Mundial de Clubes, agora com o Mundial… Mas é um troféu, vale tanto como os outros…

— Nós acreditávamos no primeiro troféu, por que ia ser a primeira Intercontinental para o PSG, para um clube francês e para quase todos os jogadores da equipa. Só o Lucas Hernández é que já tinha ganho uma. Para jogar um jogo daqueles precisamos ganhar a Champions ou a Libertadores, ou num outro continente uma grande competição… E é difícil, sabemos que foi difícil ganhar Champions este ano. Soubemos, portanto, estar ali. Não sabemos se vamos estar ali outra vez, por isso tínhamos que a ganhar.

Vitinha, Figura do Ano de A BOLA, entrevistado por Luís Mateus -  Foto: André Carvalho
Vitinha, Figura do Ano de A BOLA, entrevistado por Luís Mateus - Foto: André Carvalho

— Mas o Mundial perdido não terá, de certa forma, influenciado positivamente a equipa para ganhar este troféu?

— Não, acho que não.

— Estava já no passado…

— Mesmo que estivesse presente, não ia mudar a nossa vontade de ganhar, que já era muita e que se viu, e o Flamengo vendeu-nos caro o jogo.

— Não quero que interprete mal a pergunta, porque não tem mau sentido, mas muitas vezes há jogadores que só pelo nome ganham prémios de melhor futebolista num determinado jogo. Às vezes, nem sequer são bem o melhor jogador, mas acabam por ganhar. Não estou a dizer que acontece isso consigo, mas o Vitinha acabou por ser o melhor jogador da Intercontinental… Sente que também já começa a estar nesse patamar de que às vezes não precisar de estar a 200%, se estiver ali nos 80 já consegue dar um bocadinho a volta a quem analisa?

— Acho que sim. Foi sempre o que me faltou, sinceramente. O que pecava por escassez agora, se calhar, peca por excesso. Nunca iria questionar um prémio individual. Recebo-o todo contente, mas é verdade que foi um bocado bizarro, estranho, porque o Safonov defende quatro penáltis e é o homem do jogo e fiz o mesmo jogo apenas e fui o jogador do torneio. Mas recebo-o de braços abertos. Agradeço. Houve uma vez, no ano passado, em que recebi um troféu de homem do jogo e dei-o ao Gigio, ao Donnarumma, porque foi claríssimo. Não é que tenha feito um mau jogo, estive bem, mas ele esteve muito, muito bem. Foi no Arsenal, fora, e também era positivo para ele, que quase nunca recebia recompensas de homem do jogo. Fica quase sempre, quando uma equipa como a nossa ganha, para jogadores de campo, avançados, um médio ou outro. Foi o melhor e realmente mereceu. Este aqui eu daria ao Safonov se fosse preciso, mas ele também já tinha o do homem do jogo, então guardei-o e com todo o jogo. Mas, sim, é verdade que antes precisava de fazer muito mais para que fosse notado, agora as atenções já estão um pouco viradas para mim. É positivo, pode ser negativo. Cabe-me a mim corresponder às expectativas sempre que possível, porque agora já se espera muito. As expectativas já não estão baixas e tudo o que fizer é positivo, estão altas e é preciso manter esse nível.

— Foi uma final estranha porque se calhar a equipa mais brasileira foi o PSG

— Em termos de…

— Em termos de estilo de jogo. O Flamengo esteve ali  um bocadinho recuado no campo, na expetativa, um pouco contranatura, até pela forma como joga habitualmente…

— Sem dúvida, mas não os condeno. Bola só há uma e, se calhar, se o tentassem fazer de forma diferente, talvez o resultado fosse outro. Também não se meteram atrás o jogo todo. Houve fases em que tentaram. Criaram-nos muito problemas, não em termos de oportunidades de golo, mas no jogo jogado, no sentido de nós não criarmos essas oportunidades. Estiveram muito bem, não tivemos assim nada muito claro. Houve uma ou outra, mas não foi massacre. E respeito o plano de jogo que optaram por seguir. Fomos avisados disso. Defrontaram no Mundial de Clubes Chelsea e Bayern e tiveram mais posse de bola e expected goals nos dois jogos. Fomos avisados que, atenção, não era apenas uma equipa do Brasil, uma equipa sul-americana que íamos defrontar, mas realmente uma equipa supercapaz. Era realmente uma equipa do continente sul-americano, brasileira, mas supercapaz que ia bater de frente connosco. Esses números não mentem, e o Chelsea e o Bayern queriam ganhar esses jogos no Mundial. E para terem esses números é porque há essa capacidade. Também por isso acho que também fomos com tudo, porque sabíamos que a mínima brecha eles iam aproveitá-la. Então, demos tudo por tudo para ganhar. Fizemos um bom jogo. Simplesmente, o Flamengo também esteve muito capaz na sua estratégia.

— Nesse jogo, nesta fase da época, temos alguns jogadores do PSG que estão numa fase mais crítica de nível físico, o Dembélé, por exemplo. O Nuno [Mendes] também acabou de voltar praticamente…

— Tivemos muitos jogos desde que começou a época, em agosto. Também tivemos férias demasiado curtas, ainda que o mister nos tenha dado o máximo que podia. Normalmente temos, como as pessoas sabem, três semanas de preparação antes do primeiro jogo e ainda jogos amigáveis. Voltámos cinco dias antes, sem jogos amigáveis. Viemos de férias cinco dias antes de jogar a Supertaça Europeia. Ele achou que era mesmo importante termos, depois de uma época longa, um descanso merecido, mas mesmo assim, o descanso, mesmo dados esses dias todos, foi curto. Tivemos muito pouco descanso e começámos outra vez. Daí até agora, até dezembro, têm-se visto as consequências na nossa equipa. Tivemos mais lesões que o outro ano inteiro e muitas musculares, quase todas musculares.

— E, apesar disso, a equipa continuou competitiva. Ou seja, o PSG continua a provar que, mesmo não tendo algumas das suas principais figuras no melhor nível físico, continua a ser muito forte e favorito em quase todos os jogos…

— É uma equipa. É mesmo isso. É a equipa, no verdadeiro sentido da palavra. Não está o A, joga o B. Não está o C, joga o D. Não está o E, joga o F. Já sabemos que preferimos os melhores. Preferimos os que já nos garantiram resultados e sabemos que são muito bons. É verdade que que o somos todos ali no clube ou quase todos, mas preferimos os normalmente titulares. Claro que sim. Mas jogaram outros que não costumam jogar tanto e fomos ganhar ao Barcelona, fizemos grandes jogos no campeonato e na Champions. Chegámos a uma fase da época em que estamos em segundo na liga, infelizmente, mas a um ou dois pontos do Lens e em terceiro na fase de campeonato da Champions, e com imensas baixas. Não há um jogador ou quase nenhum jogador que não tivesse estado lesionado até agora, que não tivesse tido um período em que estivesse lesionado. Todos, todos, todos… Uns mais, outros menos, a maior parte problemas musculares. Mas mais importante ainda. Não tivemos desde a final da Champions em Maio o 11 titular desse jogo, já sem contar com o Donnarumma que saiu. Nunca tivemos os outros dez em campo ao mesmo tempo de início.

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