Camara marcou o segundo golo do Vitória na derrota (2-3) em casa do Arouca
Camara marcou o segundo golo do Vitória na derrota (2-3) em casa do Arouca

'It's football, stupid'

Sentido de pertença é o espaço de opinião de André Coelho Lima, jurista, empresário e associado do Vitória SC

1 — Intitulo este texto inspirado na conhecida frase It’s the economy, stupid, que se tornou célebre nas eleições presidenciais norte-americanas de 1992, na campanha que opôs Bill Clinton a George W. Bush.

Se esta frase se tornou célebre pela importância que a perspetiva económica dos eleitores assume em contexto de opções eleitorais (a versão americana de «os eleitores votam com o bolso»), ela é perfeitamente transponível para o futebol, na sua incerteza, na sua irracionalidade, na sua imprevisibilidade, na forma como numa semana achamos que somos os melhores do Mundo, para no momento seguinte acharmos quase o oposto disto mesmo.

De facto, nós não temos o direito de nos entusiasmarmos, por pouco que seja, que levamos logo com um balde de água gelada por nós abaixo (o que, em fevereiro, custa ainda mais).

No penúltimo texto nas páginas de a A BOLA exultei em júbilo com a conquista da Taça da Liga pelo meu Vitória, tecendo as considerações mais positivas possível. No último texto, apesar de vir na sequência de duas derrotas (contra FCPorto e Estoril), intitulei-o «Nós acreditamos» num texto que assumia o voto de confiança no plantel e equipa técnica do Vitória face ao que iriam conseguir esta época … e agora vejo-me forçado a escrever a seguir a uma derrota inqualificável em Arouca, que fez com que, em quatro jogos na 2.ª volta, o Vitória tenha nada mais nada menos que 3 derrotas.

Até para o mais positivo e confiante dos adeptos, como procuro ser, não há positividade que aguente.

2 — Depois de começar a segunda volta com duas derrotas, o Vitória venceu em sua casa o Moreirense.

Uma vitória sofrida, mas amplamente merecida, uma vitória contra um adversário na luta pelos lugares europeus, uma vitória que tinha o condão de nos poder lançar para a disputa do lugar europeu. Nada de mais errado. Logo na jornada seguinte, numa partida que tínhamos mesmo de vencer se queremos manter as nossas esperanças intactas, o Vitória consegue sair derrotado de Arouca (3-2), após estar a ganhar por 0-2.

Já em Cascais, perdemos 4-2 com o Estoril depois de estar a vencer por duas vezes. E isto não pode ser. Parece-me evidente que não pode ser...

3 — O Vitória dominou totalmente a 1.ª parte do jogo de Arouca. Contrariamente ao que tem sucedido, conseguiu materializar esse domínio em golos, tendo marcado dois sem resposta, um por Saviolo e outro por Camara, as duas grandes esperanças do nosso plantel.

O Arouca não teve qualquer remate à baliza do Vitória durante mais de 40 minutos. A partir deste momento, a vencer por 0-2, sob uma intempérie que fustigava os atletas, mas que dificulta sobretudo o jogo ofensivo (além do terreno que ia ficando mais pesado com a passagem dos minutos), não há nenhuma razão que explique que o Vitória consinta numa reviravolta. Pela segunda vez.

Se é verdade que tenho elogiado — elogio que mantenho — a postura ofensiva do Vitória em campo, a forma como o Vitória, apanhando-se a vencer, não reduz o ritmo ofensivo buscando o segundo e porventura o terceiro golo, beneficiando o espetáculo e acompanhando os nossos pergaminhos, mas que diabo, se estamos a vencer 0-2, fora do nosso terreno, a dominar completamente o jogo e a manietar o adversário, sob um tempo agreste, não é compreensível que uma bola atirada completamente à toa para o nosso meio campo isole o avançado do Arouca, consentindo um golo mesmo no final da 1.ª parte.

Se queremos ter atitude ofensiva, não podemos descurar a segurança defensiva. Se queremos vencer, temos de ser capazes de sofrer.

Não é compreensível que não sejamos capazes de assumir uma postura em campo que salvaguarde o resultado que conquistámos e nos permita procurar mais golos em contra-ataque ao invés de o ser em ataque continuado.

Se queremos conquistar um lugar europeu e se queremos fazer os nossos adeptos acreditar, como aqui apelei no último texto, não podemos ser tão ingénuos na forma de abordar os jogos. Assim, não é fácil.