Será pedir muito que deixem os miúdos em paz? - Foto: Imago
Será pedir muito que deixem os miúdos em paz? - Foto: Imago

O futebol e o patriarcado

'Verde à Vista' é o espaço de opinião semanal de Carmen Garcia, enfermeira, sportinguista e autora do blogue 'Mãe Imperfeita'

Escrevo esta crónica duas horas antes do jogo que vai colocar frente a frente o FC Porto e o meu Sporting. E sim, o meu Sporting. Porque ao contrário do que insinuam semanalmente em alguns comentários, eu não devo rigorosamente nada à isenção nem tenho o dever de disfarçar coisa nenhuma. Sou colunista deste jornal, não jornalista. E isso dá-me a feliz liberdade de poder escrever sob a única perspectiva possível no meu caso: a perspectiva de uma sportinguista.

Conhecem a fábula da rã e do escorpião? Assim de forma muito resumida, havia um escorpião que precisava de atravessar um rio e, não sabendo nadar, pediu a uma rã que o transportasse às costas. Ora, a rã, conhecendo a fama do escorpião, disse-lhe inicialmente que nem pensar, mas o escorpião acabou por convencê-la. Os argumentos que o escorpião utilizou, na verdade, foram lógicos e sensatos e a rã começou a pensar que, de facto, ele não tinha qualquer interesse em fazer-lhe mal — afinal de contas o escorpião precisava mesmo de atravessar o rio e, sem ela, não poderia fazê-lo. Assim, a rã acabou por ceder e permitiu que o escorpião se montasse nas suas costas. E a travessia até começou bem, mas exatamente a meio do caminho a rã sentiu a ferroada. Desesperada perguntou ao escorpião porque é que lhe mordera sabendo que, assim, para além de não conseguir atravessar o rio, iria acabar por morrer. E foi aí que ele lhe respondeu que até tinha tentado, mas que lhe fora impossível contrariar a natureza porque, por muito que se esforçasse, um escorpião seria sempre um escorpião.

E é isto. Aqui no meu caso, uma leoa será sempre uma leoa e não vale a pena tentar ser outra coisa. Porque eu posso conseguir ser objetiva na análise de factos e lances, mas jamais poderei ser isenta. Mesmo que até queira e mesmo que me esforce, o sportinguismo acabará sempre por fazer-se notar. E é exatamente por isso que acho que mais vale assumi-lo e pronto — e sim, outra excelente opção seria não ler os comentários às minhas crónicas, mas há qualquer coisa de sádica em mim que me impele a abrir semanalmente a caixa de Pandora. Mas adiante.

Esta semana, apesar de haver jogo grande, decidi escrever sobre um tema que não tem nada a ver com o campeonato português. E que tema é esse? O apelo que se tem vindo a acentuar em Espanha para que o futebol passe a ser proibido nos recreios escolares. E sim, leram bem. Há mesmo um movimento, respaldado por um partido político, que quer proibir o futebol nas escolas por considerá-lo um dos maiores promotores da desigualdade de género.

O Podemos, partido espanhol que tomou esta iniciativa, por exemplo, em Sant Antoni (Ibiza), alega então que o futebol nas escolas perpetua os modelos patriarcais. E porquê? Em primeiro lugar porque ocupa uma parte importante do recreio acabando, muitas vezes, por centralizá-lo - e isto, segundo os defensores da proibição, acaba por empurrar as meninas e os rapazes que não gostam de futebol para as margens e perpetuar a ideia de que quem domina fisicamente o espaço tem o poder. Em segundo lugar porque, segundo eles, os papéis tradicionais de género se reproduzem quando os rapazes jogam e as meninas ficam de lado, à margem do mais importante.

Ora, de acordo com esta corrente de pensamento, os recreios devem ser olhados como um laboratório social onde se moldam comportamentos futuros e, por isso, ao permitirmos o futebol estamos a ensinar às crianças que quem manda são os rapazes mais fortes fisicamente que, por isso, merecem o centro do espaço. A solução que propõem? A proibição, pois claro.

Reparem, eu acho isto tudo tão ridículo que quase me parece mal ter de estar a rebater estes argumentos. Ainda assim, sinto que não posso ficar calada perante tamanha aberração. Dito isto, importa que alguém explique urgentemente a estas pessoas que se os campos de futebol ocupam 80% do espaço dos recreios, se calhar é na dimensão dos recreios que reside o problema. Mas sim, eu percebo o fascínio pelos atalhos ideológicos em detrimento das soluções pedagógicas.

O que já não percebo é como é que em 2026, mulheres ditas feministas dizem que o futebol é coisa de rapazes. E ainda por cima em Espanha onde o futebol feminino vive uma fase particularmente forte e feliz. Honestamente? Parece-me que quando dizem estas coisas o que estes grupos fazem é reforçar os estereótipos que dizem estar a combater.

Vivemos numa sociedade onde a obesidade infantil é um flagelo e o futebol jogado nos recreios é o único momento de desporto para muitas crianças. E ainda assim há quem considere proibi-lo por pura ideologia politizando os recreios e instrumentalizando a infância. Será pedir muito que deixem os miúdos em paz?

Eu não sei em que escola estudaram estas pessoas ou os filhos delas, mas na minha sempre existiu campo de futebol e sempre houve espaço para todos. Quem gostava de futebol jogava, fosse menino ou menina, e quem não gostava fazia outra coisa qualquer — desde saltar à corda, a jogar à apanhada, a pintar ou a ler um livro. E não, não crescemos traumatizadas a replicar modelos do tempo da outra senhora ou a achar que somos inferiores porque os meninos ocupavam o campo de futebol.

O futebol tem muitas coisas positivas. Coisas essas que estas pessoas escolheram antes não ver. É a jogar futebol na escola (até porque, infelizmente, já muito pouco se joga na rua) que muitos miúdos aprendem valores fundamentais como o respeito pelas regras, a importância da cooperação em equipa, a resolução de conflitos, o treino do autocontrolo e a gestão da frustração. E estes valores, que se ganham ali com os amigos, com o cabelo colado à testa pelo suor e o rosto afogueado pelo calor, servem para a vida inteira. Sejamos meninos ou meninas.

Eu percebo, juro que percebo, a lógica de que o futebol não pode ocupar todo o recreio. E é por isso que defendo que os espaços de recreio devem ser aumentados e que devem ser-lhes acrescentadas árvores, espaços verdes e espaços para outras atividades ou modalidades. Mas proibir o futebol? E a seguir ao futebol, vamos proibir o quê? O rugby que também é tendencialmente mais jogado por rapazes? E depois o basquete? E o andebol? O melhor, se calhar, é proibirmos os desportos todos e pronto. Quando tivermos os miúdos todos obesos e profundamente sedentários ficamos satisfeitos. É que, nessa altura, até podem todos ter alto risco de evento cardiovascular, mas pelo menos esta gente sente que deu um pontapé no patriarcado. E esse, está mais que visto, será o único pontapé que alguma vez darão na vida. Porque uma bola, garanto-vos, esta gente nunca chutou de certeza.

No pódio
Sei que já venho com algum atraso, mas não podia deixar de trazer a este pódio simbólico a Seleção Nacional de andebol que alcançou o seu melhor resultado de sempre num europeu ao conquistar o quinto lugar com uma vitória no último segundo frente à Suécia. Com este resultado, Portugal garantiu a qualificação directa para o próximo campeonato do mundo e confirmou-se como uma potência da modalidade. Parabéns, equipa!
Na bancada
Confesso que estive até agora indecisa sobre se deveria ou não colocar aqui Mack Hollins, jogador dos New England Patriots que chegou ao balneário da Super Bowl vestido de prisioneiro e com uma máscara no rosto a fazer lembrar Hannibal Lecter. Já vi várias justificações diferentes para a sua indumentária, algumas mais nobres do que outras, mas continua a parecer-me realmente, até pela ausência de declarações do jogador, que não houve mensagem no personagem, mas apenas vontade de ser falado como é, aliás, seu apanágio. E esta necessidade excessiva de atenção de Hollins complica-me um bocadinho os circuitos, confesso. Quer holofotes? Marque touchdowns. Para espetáculo fora do jogo a organização já tinha contratado o Bad Bunny.