Álcool nos estádios: o tabu português que dá milhões na Europa desenvolvida
Em Portugal, o consumo de álcool nos estádios de futebol continua a ser tratado como um problema, e não como uma oportuna realidade a gerir. A legislação mantém a proibição, assente numa lógica preventiva herdada de décadas passadas, em que a violência no desporto era combatida sobretudo pela via da interdição. O contraste com vários países europeus, referência de desenvolvimento social e desportivo, é evidente — e levanta uma questão legítima: será que Portugal está isolado numa solução que já não reflete a realidade social, desportiva e económica atual?
Consideremos alguns exemplos.
Em Inglaterra, a abordagem é mais específica e sofisticada do que muitas vezes se reconhece. O consumo de álcool nas bancadas continua proibido, uma herança direta do combate ao hooliganismo dos anos 1980. No entanto, a venda e o consumo de álcool dentro dos estádios são permitidos em zonas interiores e comuns, fora da visão direta do relvado. O modelo inglês não assenta numa demonização do álcool, mas numa separação clara entre consumo e espaço das bancadas. Mesmo este sistema, criado para um contexto muito particular, começa hoje a ser reavaliado, com testes a acontecerem com sucesso no futebol feminino.
Em Itália, o cenário é diferente. O consumo de álcool — sobretudo cerveja — é geralmente permitido nos estádios, incluindo nas bancadas, sempre em copos de plástico e sob mecanismos claros de controlo. Em jogos considerados de risco elevado, as autoridades podem restringir ou suspender a venda, mas a regra base é a permissão responsável. O foco está na gestão do risco e na adaptação ao contexto, não na proibição generalizada.
A Alemanha vai ainda mais longe. A cerveja faz parte da cultura desportiva e social, e o seu consumo nos estádios é amplamente aceite. As sociedades desportivas, em articulação com as autoridades locais, regulam quantidades, horários e formatos de venda. O dado relevante não é cultural, é empírico: a presença de álcool, quando regulada, não corresponde automaticamente a mais violência.
Na Holanda, um país que podemos considerar ter algumas semelhanças a Portugal, em termos desportivos, a abordagem é igualmente pragmática e baseada na gestão de risco. O consumo de álcool é permitido nos estádios, incluindo nas bancadas, com regras claras quanto ao tipo de bebidas, recipientes e quantidades. Em jogos considerados sensíveis, podem existir restrições temporárias, mas não uma proibição cega e permanente. Os clubes trabalham em articulação com municípios e forças de segurança, assumindo um papel ativo na prevenção de excessos, nomeadamente através de formação do staff e políticas de responsible serving. Tal como na Alemanha, a experiência holandesa demonstra que a normalização do consumo moderado, integrada num sistema de controlo eficaz, contribui para um ambiente mais previsível, mais seguro e financeiramente sustentável — desmontando a ideia de que álcool e futebol são, por definição, incompatíveis.
Agora os números. Veja-se o exemplo de um clube como Twente. Na época 2022-2023 gerou cerca de 5 milhões de euros de receita através da venda de cerveja no estádio — um valor superior ao lucro obtido com transferências de jogadores na mesma época. Este exemplo mostra como a venda regulada de álcool pode ser uma fonte de receita estrutural para os clubes.
Face a estes exemplos, Portugal surge como uma exceção, não apenas do ponto de vista social, mas também financeiro e fiscal.
Se olharmos para a realidade nacional, percebemos rapidamente a dimensão da oportunidade perdida. Fazendo um exercício simples, num cenário conservador — com o preço da cerveja estipulado em 3€, consumo de 40% dos espectadores e duas cervejas por pessoa — a venda de cerveja poderia gerar cerca de 752 mil euros por época no Vitória SC, clube que tem uma assistência média de 18 447 adeptos. No Benfica, com uma média de 58 746 espectadores por jogo, os mesmos 40% significariam uma receita de 2,4 milhões de euros por época. No caso do Estrela da Amadora, com uma assistência média de 3 704 espectadores, a receita estimada rondaria os 150 mil euros anuais. Em todos os casos, trata-se de um encaixe financeiro recorrente, previsível e gerado exclusivamente em dias de jogo. (Os dados sobre a quantidade de espectadores foram fornecidos pelo Transfermarkt e são referentes à época 2024-25).
A proibição total do consumo de álcool nos estádios não eliminou o consumo. Apenas o deslocou para o exterior dos recintos, para rulotes e estabelecimentos nas imediações, onde o volume de cerveja vendida é elevado, mas o controlo é praticamente inexistente. Em muitos casos não há faturação, não há registo e não há impostos cobrados. É dinheiro que o Estado não recebe e que escapa completamente a qualquer lógica de economia formal.
Há ainda um efeito perverso raramente discutido: ao proibir o consumo dentro dos estádios, incentiva-se o consumo intensivo antes da entrada. Muitos adeptos chegam já alcoolizados ao recinto, sem qualquer controlo de quantidades, contexto ou comportamento, o que pode aumentar — e não reduzir — o risco de incidentes. Em vez de promover um consumo moderado, distribuído ao longo do tempo e sujeito a regras claras, o atual modelo empurra para padrões de consumo mais concentrados e potencialmente mais problemáticos, contrariando precisamente o objetivo de segurança que a proibição pretende alcançar.
Ao mesmo tempo, está em causa a receita que as sociedades desportivas perdem. Que poderia ser canalizada para infraestruturas, segurança, formação ou melhoria da experiência do adepto – áreas absolutamente cruciais para a valorização do produto. Com o consumo fora do estádio, acabam prejudicados clubes, competições, adeptos... e o Estado.
No cenário atual é ainda prejudicado um parceiro absolutamente crucial: o sponsor, entenda-se, as cervejeiras enquanto patrocinadores. Sem venda efetiva dentro dos estádios, torna-se praticamente impossível medir o impacto real dos acordos de patrocínio. Não há dados fiáveis, não há métricas de consumo, não há capacidade analítica para avaliar retorno, alcance ou hábitos dos adeptos. Numa indústria cada vez mais dependente de dados e de métricas comerciais, Portugal continua a operar às cegas.
Ou seja, a proibição não só falha nos objetivos de segurança como cria um sistema economicamente ineficiente, fiscalmente opaco e comercialmente desatualizado.
Se a intenção for permitir o álcool de forma responsável, há várias soluções concretas e testadas:
1. Introdução gradual e controlada
Permitir, numa primeira fase, a venda de bebidas de baixo teor alcoólico, em copos de plástico reutilizáveis, em jogos de baixo risco, com avaliação contínua dos resultados.
2. Diferenciação por tipologia de jogo
Jogos de elevado risco justificam regimes mais restritivos; jogos regulares não precisam de ser tratados como situações de exceção permanente.
3. Limitação de horários e quantidades
Definir limites claros de venda por pessoa e por período do jogo, reduzindo excessos sem penalizar o consumo moderado.
4. Responsabilização das sociedades desportivas e das forças de segurança
Envolver as sociedades desportivas na gestão do modelo, com formação de staff, recusa de venda a pessoas alcoolizadas e cooperação com as forças de segurança — mas também com responsabilidade económica e fiscal.
Importa sublinhar que este não é um tema marginal nem ignorado pelo setor. A questão do álcool nos estádios surgiu nos programas eleitorais de todos os candidatos à Liga Portugal e à Federação Portuguesa de Futebol, incluindo daqueles que vieram a ser eleitos. Existe, portanto, consciência institucional do problema e reconhecimento da necessidade de o enfrentar.
O que se impõe agora é a capacidade de o futebol português se unir em torno desta causa — como de tantas outras — e fazer valer a sua força coletiva junto de quem legisla. Um setor que mobiliza milhões de pessoas, gera impacto económico relevante e tem peso social evidente e, sobretudo, que carece de financiamento para reinvestimento e valorização internacional, não pode continuar a abdicar de influenciar decisões que afetam diretamente a sua sustentabilidade.
Permitir o consumo de álcool nos estádios, de forma controlada, não é uma cedência ao descontrolo — é um sinal de maturidade. Enquanto outros países modernizam o espetáculo, reforçam receitas e aumentam a transparência, Portugal insiste num modelo que empurra o consumo para a informalidade, prejudica clubes, Estado e patrocinadores e trata os adeptos como suspeitos permanentes.
No fim, a pergunta é inevitável: queremos continuar a proibir por reflexo ou começar, finalmente, a governar com inteligência?
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