«Estou vivo graças à patinagem»
O patinador ucraniano Kyrylo Marsak terminou o programa curto das provas dos Jogos Olímpicos de Milão Cortina na 11.ª posição e, ao ver a sua pontuação, quase saltou de alegria.
86,89 pontos podem não parecer impressionantes comparados aos 108,16 do líder Ilia Malinin, mas para Kyrylo significam muito mais do que apenas alguns números. No verão passado, o atleta de 21 anos sentia-se exausto, dominado pela ansiedade e incapaz de dormir, preocupado com a família na Ucrânia.
O pai luta na frente de batalha, a mãe permaneceu em Kiev, enquanto os avós se abrigavam dos ataques de drones na cidade natal do patinador, Kherson. E ele tinha de se preparar para a estreia nos Jogos Olímpicos.
🔥 Кирило Марсак просто розірвав коротку програму у фігурному катанні – і покращив свій найкращий результат в карʼєрі на майже 10 балів!
— Tribuna.com Україна (@tribunaua) February 10, 2026
Його реакція на оцінки – неймовірно щира 😍
Він вже достроково кваліфікувався у довільну програму – вболіваємо за нього 13 лютого о 20:00! pic.twitter.com/hqqCHxcrV6
Pouco depois do início da guerra, Marsak mudou-se para a Finlândia para treinar com Alina Mayer-Virtanen, a convite do patinador Valtter Virtanen, na Academia de Patinagem Peurunka. No entanto, manteve-se ligado e preocupado com a evolução da situação na Ucrânia. «Afeta tudo, o nosso modo de vida, o nosso modo de pensar e o nosso modo de treinar», disse à AP.
Acabou por procurar ajuda especializada, fez terapia e tomou a medicação recomendada, e os resultados foram visíveis. Na terça-feira, 10 de fevereiro, competiu em Milão no programa curto dos JO, sendo o único representante do seu país na patinagem artística. A música de acompanhamento foi Fall on me de Andrea Bocelli e do seu filho, Matteo.
Para Kyrylo, foi uma escolha simbólica, vendo-se ao lado do seu pai, Andriy, na melodia. O patinador viu o pai pela última vez em abril de 2025, nos Nacionais da Ucrânia, quando o pai conseguiu uma licença para assistir à prova que o filho venceu pela terceira vez. Depois da festa regressou à frente de batalha.
«Temos um relacionamento muito forte, eu e o meu pai. Sentimos falta um do outro e trocamos mensagens de texto todas as noites e todos os dias. Apenas boa noite, boa noite, para ter certeza de que estamos ambos bem. E sinto essa conexão quando patino e quando estou no gelo», contou o atleta. «É isso que quero mostrar no meu show, a nossa conexão, mesmo não estando juntos, mas posso fechar os olhos e vê-lo em todos os lugares.»
«Mesmo que não nos possamos ver, estamos juntos, sentimos esta ligação entre nós», disse Marsak. Nas bancadas da Milano Ice Skating Arena, alguns espetadores exibiram bandeiras ucranianas e aplaudiram o compatriota pela sua atuação.
Kyrylo prepara-se agora para o programa livre na sexta-feira, quando usará um fato criado pela mãe, Zoya, que viajou de Kiev para Milão para o ver competir.
A sua atuação será acompanhada por uma combinação das músicas I´m tires – Labrinth - e The feels – Zendaya - que para ele representam a sua jornada sobre patins através da guerra que destruiu grande parte da Ucrânia, incluindo Kherson.
Um míssil atingiu o apartamento de Marsak na cidade. Outro ataque aéreo destruiu a escola onde estudou do primeiro ao oitavo ano, um dos edifícios mais antigos da cidade. Em abril, o rinque de patinagem Favorit, onde Marsak calçou os patins pela primeira vez e que era a sede do clube de hóquei no gelo Dnipro – agora forçado a mudar-se para a região de Ivano-Frankivsk, no oeste da Ucrânia – foi transformado em ruínas.
«O que é significativo na minha vida? Especialmente em Kherson, tudo foi destruído. A escola que frequentei do 1.º ao 8.º ano foi despedaçada. A pista de patinagem foi destruída. O meu apartamento foi destruído. A bomba caiu um andar abaixo... Graças à patinagem ainda estou vivo. É o lugar onde me sinto vivo e posso mostrar as minhas emoções», confessou Kyrylo Marsak.
A vida real, porém, não fica à porta dos Jogos e Kyrylo Marsak enfrenta o russo Petr Gumennik, com uma posição firme que não agradou ao COI, já que os russos não deveriam competir de qualquer forma, mesmo sob bandeira neutra, porque «a sua nação é representante do terrorismo».
Embora devastada pela guerra iniciada pela Rússia, a Ucrânia enviou 46 atletas aos Jogos Olímpicos de Milão Cortina, e a delegação amarelo-azul foi recebida com aplausos na cerimónia de abertura. Muitos competidores preparam-se no estrangeiro, mas o ministro ucraniano da Juventude e Desporto, Matvii Bidnyi, disse que estes querem transmitir uma mensagem importante à Rússia e ao resto do mundo.
«Temos a oportunidade de erguer a nossa bandeira para mostrar que a Ucrânia é resiliente, que a Ucrânia é forte», disse o governante. «Temos a vontade de vencer e continuamos a ser uma das delegações desportivas de maior sucesso no mundo, porque o sucesso no desporto sempre fez parte da imagem nacional da Ucrânia», concluiu.