Malinin, o menino com nome russo que se tornou Deus do gelo
Ilia Malinin, patinador artístico norte-americano, já gravou o seu nome na história da modalidade com feitos que pareciam inatingíveis. É o primeiro e único atleta a executar um Axel quádruplo em competição, considerado o salto mais difícil de todos, e a completar sete saltos quádruplos sem falhas num único programa.
Não satisfeito, nos JO2026 decidiu recuperar um elemento proibido... Com o backflip com uma só perna, Malinin tornou-se o primeiro patinador a executar este elemento desde a francesa Surya Bonaly nos Jogos de Inverno de Nagano em 1998. Bonaly aterrou então numa só lâmina, o que lhe valeu uma penalização na pontuação.
Facing racism in the sport head on, Surya Bonaly landed the banned backflip on one foot and made history anyway ⛸️ 💥 pic.twitter.com/0PspGCJFKb
— Christopher Webb (@cwebbonline) February 8, 2026
Bicampeão do mundo e tricampeão dos Estados Unidos, Malinin é o grande favorito ao ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão. A sua ascensão meteórica é fruto de um talento nato e de uma ética de trabalho implacável, que o leva a treinar entre cinco a seis horas diárias, seis dias por semana. Esta terça-feira volta a entrar em ação e ninguém sabe o que poderá mostrar!
A nova alcunha «Quadg0d», ou seja Deus dos Quádruplos, é mais do que um voto de confiança no que já mostrou, é, sobretudo, uma enorme expetativa para perceber até onde pode ir. E ninguém arrisca o limite, é caso para dizer que para este Deus o céu é o limite.
🗣️Ilia Malinin on Novak Djokovic:
— Danny (@DjokovicFan_) February 9, 2026
"I did see Novak. It's so unreal. I heard that after I landed my backflip he was like, he had his hands over his head. That's incredible. That's a once-in-a-lifetime moment. I'm absolutely blown away." pic.twitter.com/l7JmLNmC5g
A patinagem no sangue
Nascido a 2 de dezembro de 2004, em Fairfax, Virgínia, Ilia Malinin tem a patinagem no ADN. Os seus pais, Tatiana Malinina e Roman Skorniakov, nascidos na Rússia, foram patinadores olímpicos pelo Uzbequistão. Curiosamente, receando a pressão da alta competição, não o incentivaram a seguir-lhes as pisadas. «Pensámos que talvez tivesse uma vida diferente da nossa», chegou a admitir a mãe.
🚨 Ilia Malinin revolucionou nas Olimpíadas de inverno de 2026 - o patinador artística americano deu um salto mortal que havia sido banido por quase 50 anos
— Vox Liberdade (@VoxLiberdade) February 9, 2026
O elemento foi considerado muito perigoso e só foi permitido novamente em 2024.
Malinin, de 21 anos, tornou-se o primeiro… pic.twitter.com/TewszydmoM
Contudo, o jovem Ilia passava muito tempo no rinque onde os pais davam treinos e, aos 10 anos, já competia. Inicialmente, adotou a alcunha «Lutzboy» nas redes sociais, em homenagem ao famoso triplo Lutz da sua mãe, mas a sua ambição e talento rapidamente o levaram a voos mais altos.
A desilusão que serviu de motor
Greatness recognising greatness 🐐
— TNT Sports (@tntsports) February 9, 2026
Novak Djokovic couldn’t believe what he was watching from Ilia Malinin 🤯 pic.twitter.com/CFnpa9eKMi
Em 2022, com apenas 17 anos, Malinin conquistou uma surpreendente medalha de prata no campeonato nacional sénior, mas foi preterido na convocatória para os Jogos de Inverno de Pequim, com os responsáveis norte-americanos a optarem por atletas mais experientes. A desilusão foi grande, mas deu-lhe ainda mais força. «Não ter ido realmente impulsionou-me... para desafiar os meus próprios limites físicos e mentais», confessou mais tarde.
A resposta surgiu em setembro de 2022, quando se tornou o primeiro patinador da história a aterrar um Axel quádruplo, um salto de complexidade extrema que exige quatro rotações e meia no ar. Foi nessa altura que a sua alcunha mudou para «Quadg0d» - Deus dos Quádruplos-, um reflexo da sua capacidade única.
A busca incessante pela perfeição
O ano de 2023 trouxe-lhe o primeiro título nacional e o bronze nos Mundiais. Contudo, foi no Campeonato do Mundo de 2024, no Canadá, que Malinin se consagrou. Após um programa livre memorável ao som da banda sonora da série «Succession», que incluiu seis saltos quádruplos, obteve a pontuação mais alta da história da modalidade e o seu primeiro título mundial.
🤯 ¡ESTÁ REESCRIBIENDO LA HISTORIA DEL PATINAJE!
— Eurosport.es (@Eurosport_ES) December 6, 2025
⛸️👑 Ilia Malinin saca las lágrimas del público de Nagoya en la Final del Grand Prix con RÉCORD DEL MUNDO del programa libre (238.24)
7️⃣ cúadruples de ensueño 🪄🥹
📺 La leyenda del #ISUfigure, en Eurosport y @StreamMaxES pic.twitter.com/KnsRxSdTCc
Em 2025, revalidou o título com uma margem de 31 pontos, mas a sua reação no final da prova revelou a sua mentalidade. Malinin caiu no gelo, não de alegria, mas de frustração por ter falhado um dos sete saltos quádruplos que planeava executar. «Não foi a patinagem que eu gostaria de ter feito», afirmou, demonstrando uma busca incessante pela perfeição que o define. Para ele, o sucesso é claro:
Ilia Malinin confirmed his mother and coach, Tatyana Malinina will NOT come to the 2026 Winter Olympic Games. pic.twitter.com/HT9ZStTDqC
— Ilia Malinin Daily (@TheIliaSociety) February 4, 2026
«Qual é a minha definição de sucesso? Criar algo que mais ninguém consegue.»
Ilia Malinin, o patinador de 21 anos, alcançou um feito inédito na Final do Grand Prix em Nagoia, no Japão, ao executar uma rotina com sete saltos quádruplos limpos. A performance valeu-lhe não só a vitória na competição, mas também um novo recorde mundial no programa livre, com 238,24 pontos.
Ilia Malinin does stuff on the ice that nobody else has ever been able to do. These four moves have made Ilia Malinin a contender to take two Olympic gold medals in Milan Cortina. 🔗 https://t.co/0fnTKFrfYU pic.twitter.com/NtYgQiWKe8
— The Wall Street Journal (@WSJ) February 9, 2026
O atleta, que não perdia há mais de dois anos, partiu para o programa livre de sábado numa posição pouco habitual: o terceiro lugar. Um erro no programa curto de quinta-feira, onde uma aterragem instável no seu característico Axel quádruplo o impediu de completar uma combinação, deixou-o a mais de 14 pontos da liderança, ocupada pelos japoneses Yuma Kagiyama e Shun Sato.
Contudo, no programa livre, o patinador apelidado de «Deus dos Quádruplos» demonstrou toda a sua mestria. Com uma exibição que Ted Barton, comentador da União Internacional de Patinagem, descreveu como «uma das melhores na história da patinagem artística masculina», Malinin somou um total de 332,29 pontos. O resultado permitiu-lhe superar confortavelmente Kagiyama, que terminou em segundo com 302,41 pontos, e Sato, que completou o pódio com 292,08.
«Esta foi uma das melhores exibições que já tive», confessou Malinin. «Entrei no gelo e tive de lutar por cada elemento. Fico muito contente por ter conseguido fazê-lo perante o público japonês.» O patinador revelou ainda a sua estratégia: «A Final do Grand Prix é um lugar para eu experimentar coisas novas e novos elementos, para perceber o que é possível, especialmente este ano com os Jogos Olímpicos. Decidi arriscar tudo e estabelecer uma base para o que o meu programa pode vir a ser.»
“Congratulations! And thank you so much, my dear son. I love you, I support you, always be with you no matter what. Big hugs and kisses from your mom. You make me cry with this message.”
— Ilia Malinin Daily (@TheIliaSociety) January 29, 2024
Ilia's mother, Tatyana Malinina replied to his wish! https://t.co/tVkR5u1uNx pic.twitter.com/0WQwDq4KCX
A pontuação total do norte-americano ficou muito próxima do recorde mundial de 335,30, estabelecido pelo seu compatriota Nathan Chen em 2019.
Um jovem com ambições de gigante
Fora do gelo, Ilia Malinin é um jovem de 21 anos que vive com os pais, estuda em regime parcial na George Mason University e gosta de andar de skate e bicicleta, embora evite estas atividades por receio de lesões. A sua ligação à música é evidente, colaborando de perto com o seu coreógrafo e sendo frequentemente visto a cantarolar durante as atuações.
Apesar da fama, um episódio em 2023 marcou o seu percurso. Um comentário infeliz sobre a sua orientação sexual, que sugeria que patinadores LGBTQ+ recebiam pontuações mais altas, levou a um pedido de desculpas imediato. Numa entrevista em 2025, refletiu sobre o momento: «Não diria que era jovem, porque tinha 18 anos, mas considero-me imaturo... Era altura de crescer».
Com os olhos postos nos Jogos Olímpicos de 2026, as expectativas são enormes. O comentador e antigo patinador Johnny Weir não tem dúvidas sobre o impacto do atleta: «Vejo uma história ao estilo de Simone Biles, pela forma como ele revolucionou o nosso desporto. Todos acreditam .que ele pode ganhar o ouro».
No entanto, as ambições de Malinin vão além do ouro olímpico. O seu próximo grande objetivo é executar um salto quíntuplo, algo que espera conseguir «nos próximos anos». Além disso, o patinador aspira a transcender o seu desporto e tornar-se uma celebridade global, à semelhança de Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo. «Quero estar a esse nível», confessou.