Javian Davis, à direita, foi um dos alvos dos insultos racistas e ameaças de ódio       Fotografia Miguel Nunes/A BOLA
Javian Davis, à direita, foi um dos alvos dos insultos racistas e ameaças de ódio Fotografia Miguel Nunes/A BOLA

Do Dragão ao insulto no Alentejo

Há um problema em Portugal que não é ético, é estrutural e vai dos estádios aos pavilhões

O futebol tem vindo, há anos, a normalizar um conjunto de maus hábitos nos clubes de topo que, pela força do exemplo, acabam inevitavelmente replicados pelos clubes mais pequenos e, de forma particularmente preocupante, na formação.

O problema não está só na existência desses comportamentos, mas na legitimação pública que lhes é dada, seja por instituições com responsabilidades, seja pelos adeptos, que não se limitam a encolher os ombros, como validam esse comportamento, desde que haja uma vitória. Alguns dos vícios mais enraizados é a cultura da desculpabilização permanente e a constante acusação ao outro. No resultado ao árbitro, noutros comportamentos aos rivais. O que só leva a uma conclusão: todos têm telhados de vidro e nenhuma moral para falar sobre ética.

Não sei quem deu a indicação aos apanha-bolas do FC Porto para recolherem as mesmas quando se jogava a compensação do clássico com o Sporting. Pelo discurso que tem tido, seguramente não terá sido André Villas-Boas. Já agora, não precisa de ser um presidente a ter tal iniciativa, basta dela ter conhecimento e não agir para ser responsabilizado por tal.

Outro hábito nocivo é a banalização da agressividade verbal e institucional. Comunicados inflamados e até ataques pessoais tornaram-se ferramentas estratégicas. Isto resume-se a uma ideia: vale tudo para ganhar. E não há inocentes nesta matéria. O problema é muito maior porque os mais pequenos, sejam eles clubes, jogadores ou adeptos replicam o que veem na TV. «Se fazem na I Liga, porque não podemos fazer nós?»

Esta retórica é copiada com menos filtros e mais fragilidade emocional, criam-se ambientes tóxicos à volta de jogos de iniciados ou juvenis, onde pais, treinadores e dirigentes reproduzem comportamentos inaceitáveis. Num país em que o consumo de futebol é elevado comparado com outras modalidades, é óbvia a influência que o desporto-rei tem no que se passa nos pavilhões deste país. No sábado, no jogo de basquetebol entre leões e dragões, o FC Porto denunciou insultos racistas a dois jogadores e no Alentejo um árbitro foi insultado num jogo de basquetebol de sub-14: foi chamado de «preto» e «macaco».

Não terão a atenção do público como o que se passou no FC Porto-Sporting em futebol, mas se calhar temos de começar a achar que o que se passa com apanha-bolas num campo de I Liga está mais relacionado com o insulto racista num pavilhão, num jogo de camadas jovens, do que realmente achamos. O problema não é apenas ético, mas estrutural. O problema é de nós todos, e não apenas do idiota que aparece no vídeo a chamar coisas que não devia a um ser humano, dentro de um pavilhão onde jogavam miúdos.

O vídeo da publicação abaixo do Instagram (segundo slide) fala por si...