Vladyslav Heraskevych treinou com o capacete mas foi proibido de competir com ele. IMAGO
Vladyslav Heraskevych treinou com o capacete mas foi proibido de competir com ele. IMAGO

«Traição»: ucraniano reage à proibição de usar capacete em homenagem a sete atletas mortos

Vladyslav Heraskevych não se conforma com a decisão que o impede de competir nos Jogos Olímpicos de inverno com o equipamento. Apenas um fumo negro e liberdade nas conferências de imprensa foi autorizada

Vladyslav Heraskevych, atleta ucraniano de skeleton, acusou os responsáveis olímpicos de «traição» depois de ter sido proibido de competir com um capacete que homenageia compatriotas mortos desde a invasão russa em 2022. O atleta, que foi o porta-estandarte do seu país na cerimónia de abertura, treinou-se na segunda-feira com o capacete, revelando que alguns dos homenageados eram seus amigos.

A controvérsia surgiu quando um oficial do Comité Olímpico Internacional (COI) visitou Heraskevych na aldeia dos atletas para o informar de que o capacete violava as regras dos Jogos relativas a declarações políticas. Em alternativa, o COI permitiu que o atleta competisse com uma braçadeira preta e que se pronunciasse livremente nas conferências de imprensa.

Numa publicação no Instagram, o atleta de 26 anos expressou a sua desilusão. «O COI proibiu o uso do meu capacete nos treinos oficiais e nas competições», escreveu. «Uma decisão que simplesmente me parte o coração. O sentimento é que o COI está a trair os atletas que fizeram parte do movimento olímpico, não permitindo que sejam homenageados na arena desportiva onde nunca mais poderão competir.»

O capacete de Heraskevych exibia imagens de vários desportistas ucranianos falecidos, incluindo a halterofilista Alina Perehudova, o pugilista Pavlo Ischenko, o jogador de hóquei no gelo Oleksiy Loginov, o ator e atleta Ivan Kononenko, o atleta e treinador de saltos para a água Mykyta Kozubenko, o atirador Oleksiy Habarov e a dançarina Daria Kurdel.

Recorde-se que esta não é a primeira vez que Heraskevych utiliza o palco olímpico para protestar. Nos Jogos de Pequim 2022, dias antes do início da ofensiva russa, exibiu um cartaz com a mensagem «Não à Guerra na Ucrânia». O atleta comparou a reação do COI na altura com a atual, notando uma mudança de postura.

«Há quatro anos, nos Jogos Olímpicos de 2022. Infelizmente, ao longo destes anos, este apelo à paz tornou-se ainda mais relevante», comentou Heraskevych na rede social X, acrescentando: «O COI mudou drasticamente. Naquela altura, viram naquela ação um apelo à paz e não me aplicaram quaisquer sanções. Agora, nos Jogos Olímpicos, já vimos um grande número de bandeiras russas nas bancadas, no capacete de um dos atletas – e para o COI, isto não é uma violação.»

O atleta concluiu a sua crítica, afirmando que «foi encontrada uma violação no 'capacete da memória', que presta homenagem a membros da família desportiva ucraniana que foram mortos desde os últimos Jogos Olímpicos. A verdade está do nosso lado. Espero uma decisão final justa por parte do COI.»

A decisão do COI surge num momento em que a organização enfrenta críticas por uma aparente flexibilização da sua posição em relação à Rússia. A presidente do COI, Kirsty Coventry, sugeriu recentemente que o exílio do país poderia ser levantado. Nos atuais Jogos, competem 13 atletas russos e sete bielorrussos sob estatuto neutro.

O grupo de defesa Global Athlete criticou a posição do COI numa carta aberta, onde se pode ler: «A agressão da Rússia contra a Ucrânia apenas se intensificou desde 2022. O facto de o COI estar a aliviar as restrições contra a Rússia sugere que, mesmo sob a nova presidência de Kirsty Coventry, continua a ser influenciado pelas mesmas forças políticas das quais afirma distanciar-se.»