Imagem das bolas recolhidas no Dragão - SPORT TV
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Chico-espertice à moda do Porto

O que aconteceu no Dragão no clássico entre FC Porto-Sporting, e foi visto em todo o lado onde o jogo passou (que bela propaganda para o campeonato), não pode acontecer. Este é o ‘Nunca mais é sábado’, espaço de opinião de Nuno Raposo

Balneário decorado (com intervenção do Querido mudei a casa recente ou menos recente, não importa), adeptos em interação com adeptos, portas fechadas ou entreabertas ao staff, colunas para abafar adeptos, beijinhos de presidente, ar condicionado abrasador, queixinha contra queixinha… O rol de acusações e contra-acusações no pós-clássico do Dragão é extenso e leva o jogo entre FC Porto e Sporting (1-1) a estender-se por dias desde segunda-feira. O motivo não é, nem podia ser, a qualidade do jogo no relvado mas tudo o que se passou ou se diz ter passado fora dele. Sinceramente não vou por qualquer dos assuntos referidos, porque um clube acusa e o outro defende-se, o que se defende acusa depois e o que acusa passa a defender-se… Um diz e outro desdiz.

Vou pelo que vi. E para isso recuou a outubro de 2024. Na jornada 8 da Liga, na vitória do FC Porto sobre o SB Braga, 2-1 no Dragão, Nico González entregou o prémio de melhor em campo ao jovem apanha-bolas Gonçalo Cruz, que repôs rapidamente a bola para jogo e na sequência Pepê marcou o segundo dos dragões. Não foi a primeira situação do género, lembro-me de há uns bons anos treinadores adversários fazerem referência aos apanha-bolas de Alvalade de rápidos que eram.

Confesso que nessa altura não concordei com o elogio, muito menos com o prémio entregue ao jovem dragão. Porque no fim de tudo, o que está na base é uma chico-espertice, para não dizer batota — não uma baatooootaa, mas uma batotinha. Sim, porque a rapidez a dar a bola para campo acontece quando dá jeito à equipa da casa e a lentidão também quando dá jeito à mesma equipa. Fair-play seria que a rapidez fosse em igual velocidade para a equipa visitante e o exemplo do último clássico revela que até para os apanha-bolas, jovens apanha-bolas, aspirante a futuros jogadores, há uma tática e essa tática não é didática e é ensinada em tenra idade e vai servir de exemplo de que para ganhar vale tudo — não nos poderemos queixar das futuras gerações quando lhe ensinamos esquemas desde cedo…

No final do jogo com o Viktoria Plzen — 1-1 na Chéquia na jornada 7 da Liga Europa, a 22 de janeiro —, o treinador do FC Porto queixou-se de haver muitas bolas em campo. «Acho que o tempo-extra foi curto. Eles perderam muito tempo a cada pontapé de baliza, só havia quatro bolas à volta do campo e numa prova UEFA isto não pode ser permitido», apontou Francesco Farioli.

Ora, numa prova da Liga portuguesa também o que aconteceu no Dragão, e foi visto em todo o lado onde o jogo passou (que bela propaganda para o campeonato), não pode acontecer. Mas Farioli certamente não se incomodou e talvez tivesse oferecido um prémio para melhor em campo a um dos apanha-bola se Luis Suárez não tivesse empatado o jogo aos 90+10’.

Podia ter escrito sobre o balneário decorado, os adeptos em interação com jogadores, as portas fechadas ou entreabertas ao staff, as colunas para abafar adeptos, os beijinhos do presidente leonino, o ar condicionado abrasador, a queixinha contra queixinha… (podia até ter voltado à TV no balneário de Fábio Veríssimo no Dragão, mais um caso, para mim o mais grave, numa casa em se esperava uma lufada de ar fresco em vez de bafio…) E até podia, imagine-se, falar do futebol jogado, que foi pouco. Mas não, escrevi só da chico-espertice que mostra bem o ridículo em que tudo isto se tornou.