Critérios elásticos
Há mercados que se analisam pelos números. Outros analisam-se, sobretudo, pelas reações. E este inverno ficou marcado menos pelo que cada um fez e mais pelo modo como se falou do que cada um fez. No futebol português, tantas vezes o que pesa não é o investimento, mas a narrativa construída à volta dele.
Os factos são objetivos. O Sporting investiu 20,5 milhões de euros em dois jogadores. O Benfica ficou pelos 11. O FC Porto pelos 10. Ainda assim, foi no Dragão que se assistiu ao maior rodopio, quatro entradas e umas quantas saídas, num mês que, segundo a cartilha repetida ano após ano, serve apenas para retoques cirúrgicos, pequenos ajustes, correções pontuais ao que ficou mal resolvido no verão. A teoria é sempre essa. A prática, como se viu, nem sempre acompanha o discurso.
Quando o Benfica ultrapassou os vinte milhões em janeiro passado, a leitura foi imediata e quase unânime. Falou-se em desespero competitivo, em all in, em falha estrutural de planeamento. Disse-se que um clube organizado não precisa de gastar tanto a meio da época. Este ano, com valores praticamente idênticos noutra paragem, o tom foi substancialmente diferente. Análise técnica, contextualização estratégica, explicações ponderadas. O critério, pelos vistos, adapta-se às circunstâncias e, sobretudo, às cores.
O FC Porto apresentou como último reforço um médio de 30 anos. Antes dele tinham chegado um central de 41, um avançado de 26 e um jovem de 17. Um mercado heterogéneo. E é inevitável a pergunta que raramente se faz quando o protagonista veste de azul e branco: o que se diria se fosse o Benfica a construir um mercado com esta lógica? Quantas horas de comentário televisivo seriam dedicadas à falta de planeamento, ao desespero competitivo ou à ausência de rumo?
No Benfica, a contratação de Rafa foi catalogada como um penso rápido, quase um remendo de última hora. Curiosamente, no FC Porto, dois reforços chegaram por empréstimo em poucas semanas e o silêncio foi quase absoluto. Ora, se há solução tipicamente transitória no futebol moderno, é o empréstimo. Mais do que um penso rápido, é uma sutura provisória. Serve para resolver o imediato, raramente para construir o futuro.
Ainda no FC Porto, a renovação de Farioli entra na mesma lógica. Apresentada como visão estratégica, como antecipação inteligente de Villas-Boas, como sinal de estabilidade e confiança num projeto. Recordo bem o que se escreveu quando Rui Costa renovou com Roger Schmidt, tendo ainda dois anos de contrato. Imprudência, precipitação, risco desnecessário, excesso de confiança num treinador que, diziam, ainda tinha muito por provar. Hoje, mesmo com a equipa azul e branca a perder cinco pontos em duas jornadas e a dar sinais evidentes de quebra de rendimento, o tom mantém-se moderado. Não se fala em precipitação. Não se fala em risco. Fala-se em convicção.
Talvez a história venha a ser diferente. Talvez Farioli nem venha a ser campeão uma única vez. Mas uma coisa é certa: a diferença no julgamento já é evidente.
E depois há Alvalade. O capitão ficou de fora frente ao Nacional, sem lesão, sem castigo, sem proposta confirmada. Explicações vagas, declarações que procuram desvalorizar o tema e fechar o assunto rapidamente. A pergunta continua por responder e é simples: por que não jogou Hjulmand? Se não houve recusa, se não houve negociação iminente, se não houve qualquer impedimento disciplinar ou físico, o que justificou a ausência do líder de equipa num jogo oficial? Se fosse com o capitão do Benfica, quantas horas de televisão teríamos dedicado ao tema? Quantas teorias se construiriam? Quantas certezas nasceriam antes mesmo de haver factos?
Vamos agora ao clássico. Esse que tantos anunciaram como decisivo para o título acabou por ser curto de futebol e excessivo em tudo o resto. Dentro das quatro linhas houve pouco para recordar: intensidade irregular, poucas oportunidades claras, demasiada cautela. Fora delas acumulou-se matéria suficiente para regressar a uma velha discussão do futebol português, a de saber se mudam os presidentes mas permanecem certos hábitos.
A tão proclamada lufada de ar fresco que André Villas-Boas prometia trazer teria sido útil, desde logo, no balneário do Sporting, onde o ar condicionado funcionava a temperaturas impróprias e sem possibilidade de regulação.
Vieram depois as cortinas colocadas na bancada dos adeptos leoninos para limitar o apoio, a música em volume elevado a sobrepor-se aos cânticos, as mensagens constantes do speaker lançadas pelo sistema sonoro do estádio, num esforço evidente para controlar o ambiente. Nos minutos finais, a coreografia repetiu-se com os apanha-bolas recolhidos atrás dos painéis publicitários, levando consigo bolas e cones, num expediente antigo, demasiado ensaiado para ser acaso e demasiado conhecido para surpreender quem acompanha o futebol português há tempo suficiente.
No acesso aos balneários, a comitiva sportinguista foi ainda conduzida por um corredor decorado com capas de jornais evocando glórias da casa, quase um museu improvisado para lembrar quem manda naquele espaço. Para quem tem memória longa, foi difícil não recuar aos anos noventa, quando o Benfica chegou a equipar-se em corredores por causa do cheiro nos balneários. Outros tempos, dirão alguns. Talvez. Mas a sensação de repetição foi impossível de ignorar.
O adepto pode discutir opções, criticar mercados, questionar renovações e até relativizar episódios paralelos. Faz parte do jogo. O que já custa mais a aceitar é a elasticidade permanente dos critérios. Quando um investimento é desespero num lado e gestão ponderada no outro, quando uma ausência do capitão gera silêncio aqui e geraria tempestade ali, quando um clássico pobre em futebol mas fértil em episódios paralelos é tratado como simples folclore competitivo, então o problema já não está apenas dentro das quatro linhas. Está na forma como escolhemos olhar para elas. E essa escolha, consciente ou não, acaba sempre por moldar a forma como o futebol é vivido, discutido e, no limite, julgado.