Aursnes é um jogador fundamental desde que chegou, ainda nos tempos de Roger Schmidt. Lesionou-se e José Mourinho tem de encontrar solução - FOTO: IMAGO
Aursnes é um jogador fundamental desde que chegou, ainda nos tempos de Roger Schmidt. Lesionou-se e José Mourinho tem de encontrar solução - FOTO: IMAGO

O que é Aursnes para vós?

Fredrik Aursnes é primeiro o que querem que ele seja e não precisa de brilhar sozinho: faz toda a equipa parecer melhor. E esta terá de viver sem ele nos próximos tempos

O que realmente vale Aursnes? Esta época, soma três golos e duas assistências. Desde que chegou à Luz, contabiliza 34 remates certeiros e 12 últimos passes em 190 encontros, divididos por 15.653 minutos. Dá uma ação decisiva a cada 340 minutos. A cada 3,8 jogos. Não são números que impressionem, ainda mais porque andou a pisar terrenos mais adiantados do que aqueles em que José Mourinho o quer ver agora.

Dificilmente serão estes os números que sustentam a aposta consistente. Que explicam porque nenhum treinador abdicou do norueguês em campo e porque lhe falta apenas experimentar ser guarda-redes, central e ponta de lança com a camisola dos encarnados vestida. Não só nunca estará obviamente descartado o poder ter acabar de fazer mais uma ou outra posiçã até ao final do contrato, daqui por três épocas e uns poucos meses, como é também normal que o habitual não sabe jogar mal se estenda, no seu caso, a em que posição for.

Não serão também outras estatísticas a defini-lo. Seguramente não os 86% de passes curtos certos, que baixam para 27,8% no meio-campo contrário. Ou os 47% de eficácia nos longos. Ainda menos os 28% de cruzamentos que chegam ao destino procurado. Faz dois desarmes por jogo, recupera uma vez a posse para lá do meio-campo, 4,7 nas duas metades do relvado. Ganha 55% dos dribles que tenta e 51% dos duelos. Eventualmente, talvez os quilómetros percorridos... Mas isso por si só não convenceria quase ninguém que contratasse só pela big data.

Aursnes faz as delícias dos adeptos. É protagonista de piadas, punch line de campanhas de marketing. Não é um driblador ou um criativo nato. Não tem uma técnica de passe brilhante ou um incrivelmente certeiro. Não voa sobre os centrais para cabecear. A sua meia-distância, não sendo má, também está longe de ser fulgurante. Não rouba dezenas de bolas. Não ganha em velocidade. Com bola ou sem esta. A técnica não é o seu forte e há quem seja mais... forte. Não é nada disto e, ao mesmo tempo, é tudo.

Uma ideia parece certeira: faz sempre o colega do lado ser melhor do que é. Se tem Dedic por perto, está lá para colocar o bósnio a jeito, permitindo-lhe massacrar o flanco. Se é Dahl ou Schjelderup, disfarça-se de totem para ajudar a envolver o rival. Já que agora o mandam descer para o lugar para o qual foi contratado, porém raramente desempenhou, será aquele que Leandro Barreiro precisa que seja para que o luxemburguês se vista do 10 que, a dada altura, Mourinho achou que poderia ser o início e o fim de tudo. Se voltar a ser lateral, sê-lo-á como antes, tornando-se tão útil que parecerá que não é preciso mais ninguém, que ele dará sempre conta do recado. Menos que os cruzamentos não saiam sempre perfeitos, ele encontrará um jeito.

Fredrik é, primeiro, o que quiserem que ele seja. Depois, é o que acha que deve ser, mediante o papel que entendem necessário que desempenhe. E isso é entrega. Dedicação. Um homem e uma causa. O verdadeiro exemplo do latim bordado no emblema que tem ao peito. O capitão de um Benfica bem para lá dos que ostentam os habituais símbolos de liderança. Mas um anti-herói, que deixa escapar aquele eu? com sotaque, quase pueril, quando lhe pedem protagonismo.

E, no fundo, é isso que o define. Não os números que se leem em relatórios, nem as estatísticas que aparecem no final de cada encontro realizado, mas a capacidade de ser indispensável sem precisar de brilhar individualmente. Cada passe, cada desarme, cada deslocamento é pensado para que o coletivo funcione melhor — e é essa inteligência silenciosa que faz a diferença quando tudo parece encaixar. Ele sabe sempre o que fazer mesmo que não saiba como fazer. Por isso, está lá para ajudar quem sabe.

Enquanto uns se perdem em estatísticas ou lampejos de genialidade, ele transforma consistência e entrega em vantagem concreta para a equipa. E, se no final de uma época, a balança não mostrar golos ou assistências em abundância, o que aparece a nu é, paradoxalmente, o efeito Aursnes, invisível nos números, mas sentido em todos os setores do campo por jogadores, treinadores, adeptos e até jornalistas. Será para todos, enquanto por cá andar, ele e mais dez.

O que vale Aursnes, portanto, não se medirá apenas em números, golos ou percentagems. Está na paciência com os colegas, na capacidade de interpretar espaços, de cobrir falhas, de criar soluções invisíveis, que só os que jogam ao lado percebem. Vale na quietude com que impõe equilíbrio, na leitura antecipada das jogadas, na entrega sem espetáculo, na forma como simplifica praticamente tudo com ou dois toques na bola. É o tipo de jogador que faz parecer fácil o que seria impossível sem ele, e essa é a sua grande virtude.

O efeito Aursnes manifesta-se em detalhes que escapam ao público — embora ache que o da Luz está há muito convencido —e às estatísticas oficiais. Cada movimento sem bola, cada antecipação, cada troca de posição é calculada para criar linhas de passe, abrir corredores ou neutralizar adversários antes mesmo de serem notados. É essa capacidade de moldar o jogo sem precisar de se mostrar que o torna verdadeiramente indispensável.

No fundo, perguntar «o que realmente vale Aursnes?» é quase uma tarefa tão complicada como tentar medir o vento. Não se vê, mas sente-se e, por vezes, é tão forte que nos faz embalar ou, se for contrário, nos derruba— e quem está ao lado percebe que sem ele, o espetáculo não seria o mesmo. Mais. Para essa mesma pessoa seria tremendamente mais difícil. E é por isso que, no relvado ou fora dele, Aursnes permanece essencial. Não pelos flashes, não pelos números, não pelos elogios fáceis. Mas pelo efeito silencioso, contínuo e profundo que imprime à equipa. Pela entrega que nunca cessa, pelo esforço que ninguém nota, mas que todos sentem em abundância. É o tipo de presença que muda jogos sem precisar de glória, que torna cada colega melhor e transforma o coletivo num organismo quase perfeito. E o Benfica tem agora de aprender a viver sem ele por uns tempos.