Francisca Veselko mostra ambição para o futuro

«Sempre soube que ser surfista profissional e chegar ao CT era o meu destino»

Em entrevista a A BOLA, Francisca Veselko revisitou o sonho de ter conseguido a qualificação para o circuito mundial, as dificuldades do percurso e a determinação para o que aí vem

Francisca Veselko fez história ao ser a segunda surfista portuguesa - depois de Yolanda Hopkins - a conseguir o apuramento para o Championship Tour (CT), a principal divisão do surf mundial, e a confirmação chegou de forma insólita... com o Instagram à mistura. Entre a surpresa, a festa e a consciência de que o mais difícil começa agora, a atleta de 22 anos falou a A BOLA sobre o caminho até à elite, a importância do treinador Rodrigo Sousa e da ambição de se manter no topo mundial.

- Como é que reagiste quando soubeste que estavas qualificada? Ouvi dizer que há aqui uma história caricata que envolve o Instagram.

- Foi assim um bocadinho diferente. Recebi uma mensagem nos pedidos do Instagram e era um screenshot do ranking. As primeiras três que já estavam qualificadas têm assim um símbolo dourado que indica a qualificação. E eu já tinha visto o meu ranking mais cedo e não tinha nada. Quando fui ao Instagram e vi o screenshot, eu também já tinha lá esse tal símbolo. Ninguém me disse nada, ninguém oficializou. Disse ao meu treinador para ir ver e, quando ele viu, ficámos todos contentes, mas ao mesmo tempo achámos estranho ainda ninguém ter oficializado. Fizemos umas chamadas e disseram que tinham tido um problema no sistema. Quando confirmaram, foi uma festa. Foi incrível.

- Já te caiu a ficha? Já percebeste a magnitude deste teu feito?

- Ainda não caiu bem a ficha. É surreal, mas ao mesmo tempo estou a achar estranho ainda não me ter caído a ficha. Não sei se é por um lado normalizar, porque foi algo que manifestei tanto, trabalhei tanto e sonhei tanto. No ano passado, tive a oportunidade de competir numa etapa em J-Bay [África do Sul] e também já competi no CT de Portugal, já tive a experiência do que é lá estar. Este ano estava a sentir que isto ia acontecer. A ficha vai cair quando estiver a caminho da primeira etapa, em Bells Beach.

Isto não pára aqui. O próximo objetivo é manter-me no CT o máximo tempo possível

- O teu objetivo sempre foi classificares-te para o para o CT?

- Este sonho vem desde os meus oito, nove anos. Comecei a surfar muito pequenina. A minha mãe e o meu pai eram os dois surfistas e, por isso, cresci na praia. Nunca nada forçado, mas desde cedo que criei uma grande ligação com o mar. Com nove anos, estive no meu primeiro campeonato e fiquei completamente viciada em competir. Sempre fui uma pessoa supercompetitiva, mesmo quando jogava ténis, fazia karaté... e juntou-se o útil ao agradável. Foram muitos anos a ver o CT e a sonhar lá estar. Toda a gente tem um propósito nesta vida e eu sempre soube que ser surfista profissional e chegar ao CT era o meu destino e o meu propósito neste mundo. Tem sido um longo caminho de muito trabalho, muita dedicação, muita resiliência, muito tempo fora, longe de família, de amigos. Tive que abdicar de muitas coisas, mas isto, agora, são os frutos do trabalho e tudo o que fiz está a ser recompensado. Mas não pára aqui. Vou continuar a trabalhar igualmente ou mais, porque o objetivo era chegar ao CT, agora, o próximo objetivo é manter-me lá o máximo tempo possível.

Francisca Veselko esteve nas instalações de A BOLA. Foto: Miguel Nunes

- Tens mais uma etapa esta temporada e o CT só começa em abril. O que esperas?

- Nos últimos anos tenho vindo a trabalhar muito a consistência. A qualificação para o CT são sete etapas e tens que ser muito consistente para conseguir fazer pontos suficientes. Nos outros anos, senti não conseguia surfar bem em muitas etapas. Às vezes também depende do mar e da sorte. O surf tem muito isso porque é jogar com a mãe natureza, não depende tudo de nós. Agora, no CT, para não cair, é preciso ter essa consistência. O nível é mesmo muito, muito elevado e vou ter que estar no meu máximo o tempo todo para não cair. Tenho muita garra e dou sempre o meu melhor. Estou muito entusiasmada e quero aproveitar este momento, não pensar demasiado no que vai para a frente, mas sim no presente. Aproveitar cada etapa ao máximo, puxar os meus limites e sair da minha zona de conforto.

- A próxima temporada vai ser diferente do habitual no CT. Já não haverá o cut como antes e o Finals Five. O que sentes em relação a isto?

- Ter-me qualificado este ano foi perfeito porque acabou-se o cut. Vou ter a oportunidade de surfar 12 etapas se conseguir que corra bem.

- Porque continua a haver um cut, mas não tão grande como antes.

- Sim, há um cut mas temos a oportunidade de surfar muitas etapas. Existe o cut para duas etapas [Portugal e Abu Dhabi] e depois voltam todos em Pipeline, para a última etapa. Toda a gente queria que o cut acabasse e que o circuito voltasse a ser o que era. Vai voltar a ser o tour de sonho que toda a gente esperava há tantos anos.

- Também vão regressar duas lendas femininas, a Carissa Moore e a Stephanie Gilmore.

- A minha surfista preferida é a Stephanie Gilmore desde muito nova e continua a ser. Tem um estilo incrível e um flow completamente diferenciado. Também sempre olhei muito para a Carissa, por ser uma surfista mais forte, com muito power. Identifico-me muito com as duas. Fico superrealizada por ter a oportunidade de competir com elas.

- Que importância teve o teu treinador nesta tua jornada?

- Ele conhece-me desde os oito anos. Era treinador na primeira escola de surf, a SurfTechnique. Às quartas-feiras, o Rodrigo Sousa era o treinador do nosso grupo, que eram só rapazes. Não cresci a surfar com outras raparigas, o que acho que também foi bom para puxar por mim. Ainda estive em muitos campeonatos com rapazes e ganhei alguns. Eles tinham vergonha de subir ao pódio, porque eu lhes tinha ganho e era a única surfista feminina a competir. O Rodrigo era o meu treinador e com ele o mar estava sempre gigante, era impressionante. Quando eu era muito nova, os meus pais — o meu pai é americano e a minha mãe portuguesa — separaram-se e o Rodrigo esteve lá para mim. Foi quem me ajudou mais a ultrapassar esse momento. Tenho uma consideração enorme por ele e é como se fosse um pai, por tudo o que já passámos juntos. Mais tarde, o Rodrigo saiu dessa escola, criou a sua própria escola de surf, eu também tive outro treinador e depois reencontramo-nos mais para a frente na vida. Há uns oito anos que estamos a trabalhar juntos.

- Já disseste que os primeiros tempos nas Challenger Series foram difíceis para ti, isso ajudou-te a aprender e a melhorar?

- Sim. Estava a ter bons resultados aqui em Portugal. Fui para as Challenger Series e não passava nada. Depois, no segundo ano já fui passando um ou outro, no terceiro ano, ainda consegui um terceiro lugar e um quinto. E este ano... Parece que foi tudo muito rápido. No ano passado, em fevereiro, fui para Marrocos e precisava de ganhar o evento ou de ter um grande resultado para me qualificar para as Challenger Series, porque estava quase fora. Acabei por ganhar esse 3000 em Marrocos. Depois, ganhei o 1000 na Caparica. Qualifiquei-me para as Challenger e agora qualifiquei-me para o CT.

- Já falaste com a Yolanda Hopkins depois da qualificação?

- Ainda não vi a Yolanda depois da minha qualificação, mas mandou-me uma mensagem de parabéns pelo resultado e por fazer parte do Tour também. Conhecemo-nos há muitos anos e já competimos muitas vezes juntas. Temos uma boa relação.