Se o Porto fosse mulher casava com ela
Defendi neste espaço, aquando da eleição, que a chegada de André Villas Boas à presidência do FC Porto poderia muito bem ser uma das melhores notícias dos últimos anos para o futebol português. Coloquei essa esperança sob teste. Um teste difícil de ser superado, com muita pena minha. Mas não perdi a esperança. Continuo a ver no presidente do FC Porto a urbanidade e capacidade de retirar o FC Porto de onde nunca entendi que se tivesse acantonado, projetando-o de um clube bairrista para um clube de dimensão mundial. É esse o lugar do FC Porto.
A dignidade do combate não se mede pela tentativa de humilhar o adversário, mas pela elevação do nosso próprio carácter diante dele. Logo, a quantidade de tropelias feitas na receção ao Sporting são, necessariamente, um recuo. As primeiras páginas de jornais no balneário leonino com os feitos do FC Porto - e felizmente para o clube tem tanto por onde escolher - pode, não ter sido colocados para este jogo, mas não deixa dde ser algo de mau gosto e podiam ter sido retirados: passando pelo ar condicionado no máximo ou as bolas que desapareceram nos últimos minutos de jogo, terminando no condicionamento dos adeptos do Sporting; nada disto dignifica. E das duas uma: ou foi maldade ou crença de que poderia mesmo ajudar a vencer o jogo com o Sporting. Entre o mal e o péssimo, perdoem-me a ironia, até preferia a maldade, porque um clube acreditar que para ganhar um jogo precisa destes artifícios seria desencorajador para o próprio adepto.
Não sei quem foi o mentor nem o grau de conhecimento/aprovação de André Villas-Boas. Nem posso jurar que foi tudo na dimensão do que veio a público, admito um ou outro exagero, mas o que pode ser dado como certo é já de si grave. E algumas das explicações que «fontes do FC Porto» deram aos jornalistas para justificar o inegável entraram direto no domínio do ataque à inteligência.
Nada disto se passa noutros estádios? Então não nos lembramos da rega à equipa do FC Porto e do apagar da luz na... Luz? O problema deste tipo de argumentos é que quem os usa tenta apenas, não pedir equidade, mas desculpar as ações. E como eu não quero recuar à fundação do futebol, limito-me a lamentar o que aconteceu no momento.
Quem me acompanha sabe que já aqui dei o meu testemunho do quanto a cidade do Porto impactou na minha vida. De um tempo em que fui acolhido nas Antas por um cota que se passou por meu pai para entrar e ver os jogos. Ia apenas por gostar de ver grandes artistas e grande futebol, com Futre à cabeça. E os cotas achavam graça a um autodesignado lisboeta do... Minho. Que bonito seria ver um FC Porto sempre com a mesma capacidade de acolhimento que a cidade que o acolhe...
Abro um velho caderno de notas e volto a ler um texto que escrevi há algum tempo. Gostei de reler o texto que escrevi numa das viagens que fiz à Invicta:
«Se o Porto fosse uma mulher, haveria de ser uma mulher madura, vivida, charmosa, sedutora.
Se o Porto fosse uma mulher, haveria de ser também austera, nada me daria de graça, exigiria ser conquistada, consumia-me os músculos antes de me insuflar a alma. Teria de correr atrás dela até ela me conquistar.
Se o Porto fosse uma mulher, teria peitos fartos e braços fortes. Já alguns cabelos grisalhos e algumas rugas no sítio certo a pedir que as percorresse com a ponta dos dedos.
Se o Porto fosse uma mulher, saberia que quando se entregasse, seria para toda a vida.
Se o Porto fosse uma mulher, haveria de querer casar com ela.»
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