O desalento de Ilia Malinin
O desalento de Ilia Malinin

Quando o favorito não ganha

Ilia Malinin tinha tudo para vencer e caiu; que controlo temos sobre os resultados apesar de todas as qualidades?; 'Para lá da linha' é uma opinião semanal

Estava entusiasmada com os Jogos Olímpicos de Inverno e não me estou a desiludir. Polémica com as injeções de ácido hialurónico nas partes sensíveis, batota no curling, um ucraniano banido por usar capacete político, raiva na patinagem de velocidade, um ouro inédito para a América do Sul e drama na patinagem artística.

O americano Ilia Malinin tinha tudo para sair de Milão-Cortina com o ouro. Foi primeiro no programa curto e parecia lançado para a vitória, mas um programa livre de pesadelo - não só para ele, é certo – atirou-o para fora do pódio mas até para o 8.º lugar. O jovem de 21 anos chegava com toda a aura, como se diz agora: não perdia uma prova há dois anos, é o único a fazer um salto Axel quádruplo - e tem o modesto nome nas redes sociais de «quadGod/Deus dos quádruplos» - e voltou a realizar um backflip, aterrando em apenas uma lâmina, elemento que esteve proibido por décadas, e apenas a francesa Surya Bonaly me lembro ver fazer, em protesto contra a discriminação que sentia.

Cedeu à pressão, sentida assim que entrou no gelo: o último da noite, a minutos de se consagrar campeão, como todo o pavilhão esperava. Outros concorrentes já tinham caído antes, pelo que uma atuação até mediana lhe teria bastado.

«São os Jogos Olímpicos, e acho que as pessoas só se apercebem da pressão e do nervosismo quando estão por dentro. Foi algo que me ultrapassou, senti que não tinha qualquer controlo», confessou.

É o desporto, e já David tinha dado o mote ao derrotar Golias. Por vezes o favorito não ganha e mesmo durante a competição, quem vai à frente não acaba aí, por isso é sempre preciso jogar, patinar, lançar, no fundo aparecer: foi assim que a seleção de andebol conseguiu vencer a Dinamarca, que os jogos de basket são discutidos ao segundo, que o Sporting não perdeu no Dragão, que o Benfica acredita que o Real Madrid, o «rei da Champions», como diz José Mourinho, não tem já o passaporte carimbado na UEFA Champions League. Já para não falar das histórias de superação física, como a italiana Federica Brignone.

A fechar, um drama pessoal: tenho visto vídeos dos atletas - incluindo a campeã olímpica Jutta Leerdam - a partilhar as refeições na aldeia olímpica e só quero mergulhar num prato de pizzocheri...