Lucas Pinheiro Braathen subiu ao lugar mais alto do pódio
Lucas Pinheiro Braathen subiu ao lugar mais alto do pódio - Foto: IMAGO

Lucas Pinheiro Braathen conquista ouro histórico

Esquiador de 25 anos venceu a prova de slalom gigante e fez história para o Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno em Milão-Cortina. Emeric Guerillot foi 38.º

Lucas Pinheiro Braathen, de 25 anos, entrou este sábado para a história, ao vencer a prova de slalom gigante (esqui alpino) nos Jogos de Milão-Cortina, tornando-se no primeiro medalhado do Brasil — e América do Sul — na história da competição olímpica de inverno. O português Emeric Guerillot foi 38.º.

Que nervos de aço demonstrou o esquiador brasileiro, ao ser o último a descer na segunda manga do slalom gigante dos Jogos Olímpicos, no Stelvio Ski Centre. Tinha a história absoluta pela frente, difícil de vislumbrar através da forte neve e do vento que assolavam a zona.

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O sul-americano liderava após a primeira manga, que concluiu em 1:13,92, com uma vantagem considerável sobre o segundo classificado, o suíço Marco Odermatt (1:14,87), campeão olímpico em título (quase um segundo). O terceiro era outro suíço, Loic Meillard, com 1:15,49.

Quando chegou a vez de iniciar a manga mais importante da sua carreira desportiva até agora, Lucas lançou-se e percorreu o trajeto com menos vantagem do que na primeira manga. No entanto, com uma dose de precaução que o protegeu de qualquer incidente e lhe garantiu, afinal, o sucesso. Um sucesso histórico!

Com 2:25,00 no tempo total, qualificou-se na primeira posição, seguido por Odermatt, 2:25,58, e Meillard, 2:26,16.

O brasileiro parecia não acreditar, mas era verdade: tinha acabado de conquistar não só a primeira medalha olímpica para o Brasil nos Jogos de Inverno, mas também de todo o continente sul-americano.

«Obrigado por acrescentares mais uma dose de pressão», dissera, entre risos, há um mês, quando recebeu a preciosa informação de um jornalista da ATP. «Quanto maior o desafio, maior a diferença que posso fazer», acrescentou, com seriedade. Foi o que se viu na pista de Bormio, onde o valor superou as emoções, os adversários e a história.

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Já Emeric Guerillot foi 38.º. Na primeira manga (1:22,87), o português ficou em 42.º (perdeu uma das proteções dos antebraços), e na segunda manga (1:16,58) subiu ao 38.º lugar (2:39,45, +14,45).

Quem é Lucas Pinheiro Braathen?

Nascido em Oslo em abril de 2000, filho de mãe brasileira e pai norueguês, Lucas Pinheiro Braathen esquiou pela primeira vez aos três ou quatro anos. Fez depois uma pausa até aos nove, após o divórcio dos pais, e foi viver para o Brasil com a mãe. Mais tarde, regressou à Noruega para ficar com o pai, visitando regularmente o país sul-americano.

Personalidade aberta, até exuberante, chamou a atenção desde as primeiras participações internacionais, sendo medalhado mundial de juniores com prata e bronze em 2018 e 2019. Em 2018, estreou-se na Taça do Mundo, somando os primeiros pontos, 5, correspondentes ao 26.º lugar alcançado.

Depois progrediu, surgiram os primeiros pódios e vitórias, até que, a 27 de outubro de 2023, anunciou a sua retirada da atividade, um dia antes do início da nova temporada, após entrar em conflito com a federação norueguesa. Lucas posou para a J. Lindeberg, empresa rival daquela com a qual a federação nórdica tinha contrato para equipamento, a Helly Hansen. Na altura, não pagou a multa imposta pela federação e, em seguida, retirou-se.

Exatamente um ano depois, regressou, representando, no entanto, o Brasil, e não a Noruega.

«Sempre que conheço uma pessoa nova no Brasil, surge um momento de estupefação, seguido de uma conversa interessante», confessou ele à AP sobre as situações em que revela aos compatriotas que é esquiador.

Lucas é uma das personalidades mais vibrantes do esqui, conhecido por pintar as unhas e ter interesse pela moda. Traz para as pistas, em igual medida, a energia do Brasil e a disciplina da Noruega.

«Sou uma pessoa com uma dualidade cultural. Desde o nascimento, sempre tive duas perspetivas, então para mim sempre foi evidente que não vivi uma vida em que estivesse exposto apenas a uma única realidade, a uma única cultura ou a um único modo de vida. Sempre existiram esses extremos e acredito que isso me moldou para me tornar no que sou hoje e para querer viver a minha vida dessa forma», confessou Pinheiro Braathen, que no verão passado tornou pública a sua relação com a atriz brasileira Isadora Cruz.

No ano passado, a 16 de novembro, em Levi (Finlândia), alcançou a primeira vitória na Taça do Mundo da carreira sob a bandeira brasileira, no slalom. Seguiram-se outros quatro segundos lugares em slalom e slalom gigante. Agora, porém, alcançou a glória suprema, a olímpica.