Ucraniano afastado dos Jogos Olímpicos devido a capacete de homenagem a atletas mortos na guerra
Vladislav Heraskevych, atleta ucraniano de skeleton, foi impedido de competir nos Jogos Olímpicos depois de o Comité Olímpico Internacional (COI) ter vetado o uso de um capacete que pretendia homenagear 24 desportistas mortos na Ucrânia durante a invasão russa.
A decisão do COI baseia-se na regra 50 da Carta Olímpica, que proíbe «manifestações de natureza política, religiosa ou racial» nas suas instalações. Apesar de ter permitido o uso do chamado «Capacete da Memória» durante os treinos, que não são transmitidos pela televisão, o organismo manteve-se firme na proibição para a competição oficial.
Até Zelensky interveio
A situação gerou intensas negociações durante a tarde de quarta-feira, envolvendo não só o atleta e o COI, mas também o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Houve ainda reuniões entre os governos de Itália e da Ucrânia, e a intervenção de outros países que apoiavam o gesto de Heraskevych. De acordo com o jornal Marca, a própria presidente do COI, Kirsty Coventry, ter-se-á oferecido para ir às instalações para tentar dissuadir o atleta.
Num vídeo publicado na sua conta de Instagram, Heraskevych acusou o COI de criar um escândalo com uma interpretação das regras que muitos consideram «discriminatória». «Nunca quis um escândalo com o COI, e não o criei. O COI criou-o com a sua interpretação das normas, que muitos consideram discriminatória», afirmou o piloto.
O atleta ucraniano acrescentou que, embora a polémica tenha dado visibilidade aos desportistas ucranianos assassinados, também desvia as atenções da competição. Para pôr fim ao impasse, Heraskevych apresentou três exigências: o levantamento da proibição do capacete, um pedido de desculpas pela pressão a que foi sujeito e, como gesto de solidariedade, o fornecimento de geradores elétricos para as instalações desportivas ucranianas. «Para mim, o sacrifício das pessoas representadas no capacete significa mais do que qualquer medalha que eu pudesse conseguir, porque eles deram o que tinham de mais precioso. Um respeito claro e simples por eles é o que lhes quero dar», escreveu.
Heraskevych denunciou ainda o que considera ser a «hipocrisia do COI», ao comparar o seu caso com o do piloto de skeleton israelita, Jared Firestone, a quem foi permitido desfilar na cerimónia de abertura com um quipá onde constavam os nomes dos atletas assassinados nos Jogos de Munique em 1972. «Todas as regras têm de ser aplicadas de igual forma», defendeu, lamentando ter de lutar pelos seus direitos em vez de se preparar para a competição.
COI lamenta
O COI emitiu entretanto um comunicado em que explica o afastamento do atleta da competição em que se devia apresentar esta quinta-feira: «Tendo-lhe sido dada uma última oportunidade, o piloto de skeleton Vladyslav Heraskevych, da Ucrânia, não poderá iniciar a sua prova esta manhã nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026. A decisão surgiu após a sua recusa em cumprir as Orientações do COI relativas à Expressão dos Atletas. Foi tomada pelo júri da Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton (IBSF), com base no facto de o capacete que tencionava usar não estar em conformidade com o regulamento. Apesar de várias trocas de comunicação e reuniões presenciais entre o COI e o Sr. Heraskevych — a última das quais teve lugar esta manhã com a Presidente do COI, Kirsty Coventry —, este não considerou qualquer forma de compromisso.»
«O COI estava muito empenhado em que o Sr. Heraskevych competisse. Foi por isso que se reuniu com ele para procurar a forma mais respeitosa de dar resposta ao seu desejo de homenagear os seus colegas atletas que perderam a vida na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia. A essência deste caso não está na mensagem, mas sim no local onde ele pretendia expressá-la. O Sr. Heraskevych pôde exibir o seu capacete em todas as descidas de treino. O COI também lhe ofereceu a possibilidade de o mostrar imediatamente após a competição, ao passar pela zona mista. O luto não é expresso nem percecionado da mesma forma em todo o mundo. Para apoiar os atletas no seu luto, o COI disponibilizou centros multiconfessionais nas Aldeias Olímpicas e um espaço de recolhimento, para que a dor possa ser manifestada com dignidade e respeito. Existe igualmente a possibilidade de usar uma braçadeira preta durante a competição, em determinadas circunstâncias», defendeu ainda o Comité Olímpico.
«O preço da nossa dignidade», reagiu depois o atleta no Instagram:
Це ціна нашої гідності.
— Vladyslav Heraskevych OLY (@heraskevych) February 12, 2026
This is price of our dignity. pic.twitter.com/00h3hlZs6i