FC Porto-Sporting: entre truques e valores perdidos
Um clássico entre FC Porto e Sporting devia ser uma montra do futebol português mas, no Dragão, foi sobretudo um retrato das fragilidades que continuam a marcar o nosso campeonato. O jogo foi pobre dentro das quatro linhas e polémico fora delas. E quando assim é, o problema deixa de ser apenas desportivo. Passa a ser cultural.
Balneário visitante: igualdade em risco
Quando falamos de cultura, falamos de comportamentos. Começo pela forma como o adversário é recebido. É legítimo que um clube exponha no túnel de acesso ao relvado as suas conquistas e momentos de glória — faz parte da identidade, da história e do fator casa.
Mas no balneário visitante devia ser diferente. Devia ser um espaço neutro porque a igualdade competitiva começa antes do apito inicial. Transformar esse espaço num prolongamento da bancada, com mensagens ou estímulos que procuram criar desconforto adicional, pode não ser ilegal, mas empobrece o espírito do jogo. Um grande clube afirma-se pela sua dimensão dentro do campo, não por pequenas manobras fora dele!
Ar condicionado: obstáculo artificial
O fator casa sempre foi um elemento diferenciador no futebol. O apoio dos adeptos, a pressão das bancadas e o ambiente criado em torno da equipa visitada fazem parte do jogo. Criar dificuldades ao adversário é legítimo — desde que essas dificuldades resultem da dinâmica normal da competição. No clássico, foi noticiado que o balneário da equipa visitante esteve com uma temperatura muito elevada, sem que fosse possível regulá-la. Se assim foi, estamos perante um obstáculo artificial.
Pode não ser ilegal, mas ultrapassa aquilo que deve ser o mínimo de condições iguais para duas equipas que disputam o mesmo campeonato. Quando se recorre a este tipo de comportamentos, a mensagem que passa não é de força, mas de necessidade de procurar vantagens fora do relvado. Isso enfraquece o futebol muito mais do que fortalece qualquer equipa.
Apanha-bolas: controlo fora do relvado
Outro momento que merece reflexão aconteceu já perto do final do jogo. Aos 90 minutos, os apanha-bolas começaram a retirar as bolas que estavam posicionadas junto às linhas, reduzindo a reposição rápida de jogo e quebrando o ritmo da partida. A imagem foi visível na transmissão televisiva e rapidamente se tornou tema de discussão. Este tipo de comportamento não é uma questão menor. Controlar artificialmente o tempo de jogo não faz parte da estratégia desportiva; é uma forma de interferir com a dinâmica normal da competição.
Num campeonato que procura afirmação internacional, estas imagens viajam muito depressa e causam um enorme dano reputacional. A questão é simples: um clube deve preocupar-se em controlar o jogo dentro do relvado ou fora dele? Porque quando a preocupação deixa de ser jogar e passa a ser condicionar, algo se afasta dos valores que o futebol deve defender.
'Time-outs' encapotados: manipular o ritmo
Outro hábito que começa a marcar o futebol português são os chamados time-outs encapotados. Quando o jogo não corre como o esperado, treinadores pedem aos guarda-redes que se deitem no relvado para ganhar alguns segundos e transmitir instruções aos colegas. Não é ilegal — as regras só permitem parar o jogo oficialmente no intervalo —, mas contornar o regulamento desta forma trava o ritmo da partida e prejudica a essência competitiva do jogo.
Em países com uma cultura desportiva consolidada, como Inglaterra, atitudes deste tipo seriam alvo de crítica imediata por parte dos adeptos e dos media. Lá, o respeito pelo jogo e pelos adversários é valorizado, e o resultado final é apenas consequência da qualidade dentro do campo. Em Portugal, em vez disso, a prioridade parece ser vencer a qualquer custo, mesmo que isso implique manobras que alteram artificialmente o jogo.
O exemplo e o legado
Todos estes episódios mostram um problema maior: a prioridade deixou de ser jogar bem e ensinar valores, passando a ser vencer a qualquer custo. Para os mais jovens, que observam e aprendem com os exemplos dos profissionais, esta mensagem é clara — não interessa como se joga, importa ganhar. Bolas escondidas, balneários condicionados, time-outs artificiais: estes comportamentos vão moldar o futebol de amanhã.
Dirigentes e treinadores têm uma responsabilidade que vai muito além do resultado imediato. Cada decisão dentro e fora do relvado deixa um legado e, neste caso, o que estamos a transmitir é insegurança, manobras e falta de respeito pelos adversários.
O futebol português não precisa de truques; precisa de liderança, cultura e credibilidade. Só assim poderemos construir gerações futuras que joguem com inteligência, integridade e paixão pelo que está dentro do campo — e não pelo que se consegue manipular fora dele.