«Agora tenho um bom plantel, equilibrado» — tudo o que disse Mourinho antes do Benfica-Real Madrid
— Que Real Madrid espera? Aursnes e Dedic, pode confirmar a disponibilidade dos dois para este jogo?
— Posso confirmar a disponibilidade dos dois. Amanhã [hoje] há treino, há sempre espaço para imprevistos, mas em função dos dois últimos treinos estão os dois disponíveis para jogar. Espero um Real Madrid candidato número um a ganhar a Champions. Espero um adversário parecido com aquele pós-Lisboa, onde o treinador teve a capacidade de perceber algumas coisas, de modificar a sua equipa do ponto de vista estrutural, e de sair de uma situação difícil depois de uma derrota inesperada e pesada [2-4, frente ao Benfica, na fase de liga da Champions], para três vitórias consecutivas no campeonato.
— Como é a sua relação com Florentio Pérez [presidente do Real Madrid] e a última vez que falou com ele?
— A última vez que falei com o presidente foi quando assinei pelo Benfica. Ele mandou-me mensagem a dizer ‘José, estou muito contente, estás outra vez num grande clube’. Quando jogámos com o Real aqui, ele não vei, não tive oportunidade de o cumprimentar. Espero que amanhã, ou na próxima semana em Madrid, o possa fazer. Tenho grande amizade com o presidente e a sua família, não há que esconder.
— Agora trata-se uma eliminatória a duas mãos, será preciso um milagre para o Benfica eliminar o Real Madrid? E Dedic e Aursnes estão para jogar a titulares, é essa a sua ideia?
— A minha ideia é que sim, que Dedic e Aursnes estão para jogar a titulares. E digo mais: ou jogam a titulares ou nem sequer vão para o banco. Se surgir alguma coisa negativa no treino... mas as indicações dos dois últimos treinos foram boas e considero que estão prontos para começar o jogo. Não penso que seja preciso um milagre para o Benfica eliminar o Real Madrid. Penso que será preciso um Benfica a um nível máximo, nem digo alto, digo quase a roçar a perfeição, mas não um milagre. Conhecemos o Real Madrid, os jogadores do Real Madrid, a história, as ambições deles na competição, não vamos estar a comparar. A única coisa comparável é que o Real Madrid é um clube gigantesco e o Benfica também é um clube gigantesco. De resto, não há mais nada comparável. Mas o futebol tem este poder e nós podemos ganhar.
— Como recebe a conexão que tem com o Real Madrid, a forma como as pessoas falam de si no clube e em Madrid?
— Dei tudo o que tinha ao Real Madrid. Fiz coisas boas e más, mas dei absolutamente tudo. Quando um profissional, seja treinador ou jogador, sai de um clube com estas sensações, creio que existe uma conexão para sempre. Nestes quase 12 anos que se passaram desde que saí, encontrei madrilistas por todo o Mundo com sensação igual à minha, gente que me respeita, que sabe que dei o máximo, e de modo geral sinto estima. Mas não quero alimentar histórias que não existem. A única coisa que existe é que tenho mais um ano de contrato com o Benfica, um contrato especial, que foi assinado em período eleitoral e no qual, em acordo comigo e o presidente, quisemos proteger um hipotético novo presidente. Tem uma cláusula que torna muito fácil podermos romper o contrato, para mim ou para o Benfica. Com o Real Madrid existe zero. Gostaria muito de ganhar ao Real Madrid, que Álvaro [Arbeloa, treinador dos merengues] ganhasse a liga e ficasse por muitos anos no Real, porque creio que tem muita capacidade, tem madrilismo dentro dele e uma personalidade para treinar o Real Madrid que não é para todos.
— Este jogo parece mais disponível para os jogadores que estão feridos, os do Real, ou para os do Benfica, que já sabem que podem ganhar?
— Boa pergunta, mas não consigo responder. Se ganhar uma vez ao Real Madrid é difícil, ganhar duas vezes é muito mais, e três vezes ou uma eliminatória mais ainda. É uma equipa grande que está ferida e conheço bem a sensação desde sempre, porque tive a sorte de treinar equipas grandes. Mais importante para eles é a motivação deles não para eliminar o Benfica, mas para ganhar a Champions. Esse é o target deles, o que de mais forte podem levar para o jogo. Da nossa parte, ganhámos, e sabemos por que é que ganhámos, mas por outro lado sabemos que este jogo não vai ser uma cópia. Eles tiveram uma evolução grande enquanto equipa, apesar de ser num curto espaço de tempo. Aos jogadores, pedi-lhes para jogarem com a alegria de que merece estar aqui. E eles merecem muito estar aqui. Quatro jogos, zero pontos, ter de fazer nove pontos a jogar contra equipas como Real Madrid, Nápoles, Juventus... Se calhar é melhor chegar aqui e jogar contra uma equipa grande como o Real Madrid do que contra uma equipa de nível inferior. Esperamos conseguir um resultado que nos permita ir a Madrid lutar pela qualificação. E vamos para jogo com alegria.
— E que receção espera depois em Madrid e no Bernabéu?
— Espero que se esqueçam que sou eu e que o foco deles esteja em ajudar a equipa a qualificar-se, seguir e se possível ganhar a Champions. Que as pessoas se esqueçam de mim. Para este jogo, espero um jogo diferente, não posso dizer mais do que isso. Analisei o jogo do Real contra o Benfica, mas pouco tempo depois a análise foi para o lixo, e coloquei o foco no jogo do Real com o Valência, com a Real Sociedad. Têm uma estrutura diferente, uma forma de jogar diferente, uma mentalidade tática diferente. O que quero é que a minha equipa não jogue como o Real deseja que nós joguemos, mas como eu quero que jogue.
— Ter agora Lukebakio, Bruma, alas diferentes, o que muda?
— Ríos e Bah também regressam, estão todos prontos para jogar amanhã [hoje]. Quase todos, faltam Veloso [João], o Wynder, mas Ríos e Bah também estão dentro. Agora tenho um bom plantel, equilibrado, com opções, com miúdos a aparecer a crescer. Temos criado um estilo de jogo adaptado às características dos jogadores que tínhamos à disposição, mas agora temos outro tipo de gente; a velocidade de Rafa, Lukebakio, Barreiro pode passar a jogar também noutras posições, porque sem Enzo e Ríos não podia. Agora temos um grupo mais compacto, que nos permite ser mais imprevisíveis.
— Ainda da passagem pelo Real Madrid que mudaria e o que ficou?
— Não mudaria nada. Nem posso, por isso não vou pensar nisso. Ficou o facto de ter dado tudo. Quando dás, mesmo que cometas erros, é uma satisfação, não lamentas nada.
— Dedic está mesmo bem?
— Top. Esteve 15 dias a descansar e a preparar-se para este jogo, está top.
— Bah está em condições de fazer 30 ou 40 minutos se Dedic não aguentar?
— Não quero ser pessimista... Se o Tomás [Araújo] precisar jogar a lateral e o António [Silva] a central, encantado da vida. Mas o Bah já trabalha bem há muito tempo, não tem minutos de jogo é verdade, seria melhor se tivesse alguns. Se não tiver com o Real, poderá ter depois, com o Aves SAD. Mas Bah está de volta e para já estão todos. Não se foi o efeito de irem jogar com o Real Madrid, mas está tudo de volta.
— Sente frustração por ter saído do Real Madrid sem mais uma Champions para o clube? O que significará o Estádio da Luz para o Real depois do que se passou?
— Fui dos poucos treinadores que sai do Real Madrid sem ser despedido. Quando sais por tua decisão, não tens de lamentar ou invejar nada. Saí do Real Marid de alma completamente limpa. O na altura me disseram foi: ‘o bom e o fácil vêm agora, o difícil está feito’. Na altura decidi que era melhor sair, a minha família é o mais importante para mim. E penso que foi também o melhor para o Real Madrid, mudar depois de três anos duros, intensos, quase violentos. Separámo-nos no momento justo e ideal. Depois disso, o que o Real Madrid conseguiu só me deu alegrias. Não tenho mérito nisso, esse é de quem lá esteve e ganhou. O Estádio da Luz... para o Real penso que será sempre sinónimo de felicidade [pela conquista da Champions em 2014]. Mesmo a última derrota por 4-2, não foi eliminado, simplesmente não se qualificou diretamente para os oitavos, não foi nada de dramático. Por isso, penso que para o Real o Estádio da Luz será sempre de grandes recordações.
— Se Florentino Pérez o chamar novamente para treinar o Real Madrid, pode dizer-se não a Florentino?
— Sim. Pode-se.